perspectivas

Quinta-feira, 22 Maio 2008

Os antolhos de Popper

Filed under: Religare — O. Braga @ 4:21 pm
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Lendo este texto rosacruciano, deparo-me com uma referência à “teoria da falsibilidade”, de Karl Popper. Segundo a teoria de Popper, para que uma proposição seja considerada como passível de análise “científica”, deve ser teoricamente possível fazer uma observação ou indução que prove que essa proposição é falsa. Dou o exemplo célebre dos cisnes:

“Todos os cisnes são brancos”.

Será esta proposição verdadeira, sob o ponto de vista “científico” (segundo Karl Popper)?
Segundo Popper, basta alguém provar — por observação — que existe um cisne negro, para que esta proposição possa ser considerada “falsificável”, e portanto, esta proposição merece a atenção da ciência. Assim, qualquer proposição que não possa fazer prova da sua possível “falsibilidade”, não pode fazer parte da ciência. Para Popper, não é a verdade — ou a inverdade — da proposição deduzida que conta para merecer a atenção da ciência (dedução), mas somente se a verdade ou a inverdade podem ou não ser determinadas pela observação (indução).
Os ateus adoram esta teoria devido à dificuldade em aplicar a teoria da “falsibilidade” em relação a Deus, concluindo daí que a religião não pode ser abrangida pela ciência.

Este conceito de definição de ciência é um colete-de-forças; é como que um par de antolhos que os neopositivistas colocaram nos cientistas. A ideia da ciência aberta a todas as possibilidades reduz-se a uma hipótese de prova da falsibilidade.
Por outro lado, segundo o postulado de Popper, se partirmos do princípio de que o estudo da linguagem divina não é matéria científica, enquanto que o estudo das cores dos cisnes já o é, como podemos classificar a seguinte frase?

“Todos os deuses falam árabe”

Esta proposição pode ser também falsificável, tendo em conta que uma hipotética observação de um deus que só comunique em latim seria suficiente para falsificar a proposição, o que tornaria a linguagem divina matéria de interesse para a ciência, não obstante a dificuldade em observarmos os deuses. Ademais, todos sabemos que a linguagem divina foi alvo de atenção de mentes prodigiosas, como as de Dante e de Leibniz.

A teoria de Popper está inserida naquilo a que a filosofia chama de “nominalismo” (inventado pelos estóicos, seguido por Guilherme Occam e, recentemente, pelos neopositivistas), que é um método de classificação que atribui uma etiqueta a cada indivíduo (ou a cada objecto, ou a cada teoria), e ignora ostensivamente o universal, ou o geral.
Assim, segundo Popper, os cisnes receberiam a etiqueta “cisnes, cores” e entrariam para o arquivo das possibilidades científicas, enquanto que os deuses receberiam a etiqueta “deuses, linguagem”, e eram arquivados na estante das impossibilidades científicas. A isto, podemos chamar “os antolhos de Popper”.

O que significa isto, na prática? Significa que os cientistas podem assim definir o que é matéria de ciência e aquilo que não é, ao sabor das tendências, modas, influências e pressões políticas e económicas (o dinheiro), ou mesmo em função do que uma determinada corrente de uma escola científica quer fazer provar. Não foi o Thomas Kuhn que escreveu que “seja o que for que os cientistas façam, é sempre ciência”? (“A Estrutura das Revoluções Científicas”, por T. Kuhn)

A teoria de Popper é apenas uma forma de seleccionar aquilo que interessa classificar como ciência em determinado momento, e pelas razões mais diversas, o que nos poderia induzir o raciocínio de Nietzsche, que escreveu na “Vontade de Poder” (com a habilidade retórica que se lhe reconhece):

«Para tornar possível o mais ínfimo grau de conhecimento, seria preciso que nascesse um mundo irreal e errado: seres que acreditassem no durável, nos indivíduos, etc. Seria preciso, primeiro, que nascesse um mundo imaginário que fosse o contrário do eterno escoamento; para que pudéssemos depois, sobre este fundamento, construir algum conhecimento. Afinal, podemos discernir bem o erro fundamental sobre o qual tudo assenta, mas esse erro apenas pode ser destruído juntamente com a vida; a verdade última, que é a do fluxo eterno de tudo, não suporta ser incorporada em nós; os nossos órgãos (que possibilitam a vida) são feitos em função e em vista do erro. (…) A vida é condição do conhecimento. O erro é condição da vida, quero dizer, é erro fundamental. Saber que erramos não suprime o erro. É necessário amar e tratar o erro, que é a matriz do conhecimento. A arte ao serviço da ilusão — eis o nosso culto.»

Popper dá razão a Nietzsche: o culto da ciência de Popper é “a arte ao serviço da ilusão”, na medida em que — segundo Nietzsche — não poderíamos conhecer nada sem forjar a ficção de que há coisas fixas no espaço-tempo, quando na verdade nada é permanente; de certo modo, a ciência definida por Karl Popper faz um “Epoché”– uma paragem no tempo-espaço — para classificar aquilo que é ciência e aquilo que não o é, limitando a ciência a algo que existe somente em função do erro existente no momento do “Epoché”, neste caso, da “falsibilidade”. Ambos partem de uma visão estreita da realidade, porque ignoram o “universal” e se concentram exclusivamente na etiquetagem do individual.

2 comentários »

  1. Estes textos sobre filosofia já davam um bom livro. A Lulu está aí…

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    Comentar por Henrique — Sexta-feira, 23 Maio 2008 @ 1:10 am | Responder

  2. É isso, Henrique.

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    Comentar por Orlando — Sexta-feira, 23 Maio 2008 @ 7:00 pm | Responder


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