perspectivas

Terça-feira, 6 Maio 2008

A liberdade do universo, segundo Leibniz

Filed under: Religare — O. Braga @ 1:52 pm
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Leibniz (1646 – 1716) terá sido uma das mentes mais engenhosas de todos os tempos. Contudo, tinha alguns defeitos detestáveis; por exemplo, embora fosse honesto e zeloso da propriedade dos outros, era também um sovina de primeira água. Consta que nunca dava esmolas e que quando se casava uma donzela, era seu costume oferecer um único presente de núpcias que consistia num enunciado de máximas úteis, que incluía o conselho de nunca deixar de se lavar diariamente, principalmente as partes íntimas, “agora que tinha marido”.

A inteligência de Leibniz foi muito invejada no seu tempo (principalmente pelos empiristas ingleses e pelos jacobinos franceses) e foi muito criticada a sua “filosofia popular” – uma espécie de colecção de aforismos filosóficos elaborados de forma a serem compreendidos pela aristocracia semi-analfabeta da época. Um dos aforismos da sua filosofia popular foi o de que “este é o melhor dos mundos possíveis”, ao que o inglês Bradley acrescentou o comentário irónico “e tudo nele é um mal necessário”, fazendo referência maliciosa à polémica de Leibniz com Espinosa.
A figura do Dr. Pangloss de Voltaire é baseada em Leibniz, e por isto podemos fazer a ideia do que a sociedade intelectual do seu tempo pensava sobre a sua personalidade. Contudo, não podemos esquecer que o cálculo infinitesimal foi descoberto por Leibniz em 1675, publicando a sua obra em 1684, e gerando uma célebre polémica com Newton sobre a autoria da descoberta, sendo que Newton publicou a mesma teoria matemática em 1687.

A filosofia de Leibniz é baseada na oposição ideológica sistemática a Espinosa, nomeadamente na noção de “substância” que para Espinosa era só uma, a de um panteísmo, sendo que tudo o que existe faz parte dessa substância única.

Leibniz viu no panteísmo de Espinosa um ateísmo dissimulado que preconiza um determinismo mecanicista e absoluto da Natureza, que reflecte uma “necessidade” cega que nega a liberdade humana. Se a doutrina de Espinosa é a de uma “ordem necessária” do mundo, o pensamento de Leibniz revela a ideia de uma “ordem livre” do mundo, sendo que para Espinosa, a Razão é a faculdade que estabelece as relações necessárias inerentes ao universo, enquanto que para Leibniz, a Razão é a simples possibilidade de que essas relações sejam estabelecidas. Trocando por miúdos, para Espinosa a Razão era um subproduto da Natureza e estava por isso sujeita à “necessidade” das leis mecânicas universais, enquanto que para Leibniz a Razão existia independentemente da existência da Natureza (matéria).

Leibniz não viu o universo como uma máquina que obedece a leis mecânicas “necessárias”, como Espinosa o viu. Para Leibniz, a ordem do universo era espontânea, não determinada geometricamente, e por isso, livre.

«Nada acontece no mundo que seja absolutamente irregular (…) Suponhamos que alguém marque, ao acaso, uma quantidade de pontos num determinado mapa: é possível encontrar uma linha geométrica cuja noção seja constante e uniforme , segundo uma regra determinada, de tal modo que passe por todos esses pontos precisamente na ordem em que a mão a traçou. E se alguém traçar uma linha contínua, ora recta, ora circular, ora de outra natureza, é possível encontrar uma noção ou regra, ou equação comum a todos os pontos dessa linha, em virtude da qual as mutações da linha possam ser explicadas. Assim se pode dizer que, fosse de que forma Deus tivesse criado o mundo, este seria sempre regular e provido de uma ordem geral.»
– in “Discurso de Metafísica”

A “ordem geral” de Leibniz opõe-se, assim, à “ordem necessária” de Espinosa. A “ordem geral” implica uma ideia da existência de “guidelines” fornecidas pelo Criador do universo, uma espécie de “linhas de orientação” que permitem a liberdade na matéria, liberdade essa inserida no espírito dessas mesmas “linhas gerais de orientação”. Seria como se um patrão fornecesse umas “linhas gerais de orientação” a um empregado e lhe desse a liberdade de seguir o método que quisesse para atingir os objectivos exigidos, e depois o recompensasse em função das opções que tomou e da eficácia, decidida em liberdade, para atingir os objectivos definidos pelas “guidelines”. A “ordem geral” de Leibniz é como que baseada num princípio de subsidiariedade aplicado a nível universal, dando autonomia a cada um dos planos do universo, autonomia essa que deve seguir somente alguns princípios básicos emanados do Criador.

Devo confessar que simpatizo mais com a ideia de “ordem geral” de Leibniz do que com a ideia da “ordem necessária” de Espinosa, porque para mim, a “ordem necessária” de Espinosa, sendo mecanicista, é menos racional do que a ideia da Razão ligada directamente ao conceito de Liberdade.
Para mim, a Razão sem Liberdade não é Razão, é exactamente o seu contrário e simplesmente não existe como tal. Um universo mecanicista é tendencialmente irracional, no sentido em que Goya atribuiu os monstros gerados pelo sono da Razão. A única coisa que separa um universo mecanicista da irracionalidade completa é, paradoxalmente, a ignorância do Homem que procura racionalmente entendê-lo.
Pelo contrário, a Razão conotada com a Liberdade faz todo o sentido, porque a associação da Razão com a Liberdade abre a possibilidade de novas descobertas em modo infinito, e não limitando o universo a um mecanismo passível de ser compreendido e interpretado em modo finito, esgotando-se a necessidade e a possibilidade de evolução racional.

A “ordem geral” de Leibniz não implica uma ideia de “arbitrariedade”, no sentido de “precisão aleatória” ( random precision). A escolha do tipo de “guidelines” que governa o universo foi escrutinada pelo Criador para que o mundo fosse o melhor possível, o mais perfeito possível, e sendo simultaneamente o mais simples e mais rico em fenómenos. O factor “aleatório” só existe inserido num conceito de liberdade que obedece a essas linhas gerais de orientação do Criador, isto é, o “aleatório” é a própria liberdade que Deus concede dentro das Suas linhas gerais de orientação. Por isso, a escolha do Criador é regulada pelo “princípio do melhor” que implica a existência de uma regra moral e finalística , que justifica racionalmente uma ordem que inclui a possibilidade de uma escolha livre, e que é susceptível de ser determinada pela melhor escolha dentro das “linhas de orientação” recebidas de Deus.


Portanto, a “ordem geral” de Leibniz não é sinónimo de “chaos in the garden” ou de “total liberdade” no sentido de “libertinagem”, como claramente implícito aqui por Julius Evola. Não podemos confundir a noção de “liberdade” de Leibniz com a de Sartre: são conceitos completamente diferentes, e talvez a de Sartre se aplicasse melhor ao raciocínio de Evola. Note-se que este post não serve para manifestar discordância sobre a opinião geral de Evola exposta no post, mas serve antes para resgatar Leibniz de uma contextualização inapropriada da sua “ordem geral”.


Para Leibniz, o universo não se rege pela “necessidade”, mas pela “possibilidade”. Tudo o que existe é uma possibilidade que se realizou, não em virtude de uma “regra necessária”, e por isso imposta de uma forma rígida, mas de uma regra livremente aceite, porque essa regra implica a existência prévia da própria liberdade, e neste sentido, é não-imperativa. Isto significa literalmente que nem tudo o que é possível existir se realizou, e que o “mundo da possibilidade” é muitíssimo mais vasto do que o mundo real. Deus poderia realizar uma infinidade de mundos possíveis; contudo, concebeu o melhor dos mundos possíveis através de uma escolha livre, e transmitiu o princípio da escolha livre (liberdade) ao próprio mundo que criou, seguindo uma regra que impôs a Ele Próprio pela sua sabedoria.

A “ordem geral” de Leibniz é parcialmente adoptada e seguida hoje pela Filosofia Quântica, o que faz de um homem nascido no século 17 um dos grandes génios da Humanidade (não só por isto, mas também).

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1 Comentário »

  1. Na realidade realidade, nao sei o que sou.
    Creio no divino do cosmico sideral.
    Creio na energia que somos, e que comungamos com o universo sagrado.
    Creio que se soltamos a nossa mente, ela descobrirá coisas indescritiveis mas sustentaveis. Creio que todos nós somos divinos, pois DIVINO é a nossa mente PENSSANTE.
    (ESCREVI O QUE SENTI )
    Marileide Feio

    marileidebritofeio@terra.com.br

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    Comentar por Marileide Feio — Terça-feira, 20 Maio 2008 @ 2:49 am | Responder


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