perspectivas

Terça-feira, 25 Março 2008

Parménides

Filed under: Religare — O. Braga @ 5:26 pm
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parmenides.jpg Não foi por acaso que Nietzsche gostava dos filósofos pré-socráticos e detestava os que surgiram com Sócrates: foi a partir de Sócrates que se formatou a filosofia ética que contribuiu para a consolidação do cristianismo como religião de massas. Presume-se mesmo que Platão terá viajado pelo oriente médio e terá tido contacto com filosofias orientais, como a budista, para além de ser seguro que ele terá vivido no Egipto que embora já decadente, mantinha ainda alguma da substância da sua civilização e da sua religião do culto da morte.
Uma das razões por que Nietzsche gostava dos pré-socráticos é que estes terão constituído, de certa maneira, o “despertar dos mágicos” no sentido da iniciação filosófica tal qual era entendida pelos europeus, e eram por isso facilmente passíveis de serem criticados à luz dos conhecimentos que Nietzsche já dispunha na sua época. Existia em Nietzsche uma necessidade de se assumir em superioridade em relação ao que o rodeava – um sentimento de superioridade que revelava um profundo complexo de inferioridade. Esse mesmo sentimento de superioridade impedia-o de admirar os pós-socráticos porque foram estes que introduziram a sistematização da ética e da moral como um elemento decisivo da filosofia europeia, e para Nietzsche, qualquer submissão a uma ética ou moral que não fosse regida por uma dinâmica da lei do mais forte, constituía um sinal de fraqueza humana inaceitável.
Eu considero que Nietzsche (mera opinião pessoal) terá sido não só o pai do ateísmo filosófico moderno, como o verdadeiro precursor do materialismo filosófico antropocêntrico que irradiou mais tarde para o marxismo, existencialismo e neoliberalismo. Antes dele, Voltaire ou Rousseau eram anti-clericais mas não eram anti-religiosos, e o pai do racionalismo moderno, Descartes, era mesmo um devoto cristão.


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Quando fiz uma crítica à utilização da frase “o ser não pode não ser” que fundamentou esta prova axiomática da não-existência de Deus, esqueci-me então de dizer que a paternidade da dita frase é de Parménides, que a concebeu para estabelecer o contraste entre a verdade e a aparência.


“Só duas vias de pesquisa se podem conceber: uma é que “o ser é”, e “não pode não ser”, e esta é a via de persuasão porque é acompanhada da verdade. A outra, que o ser não é e é necessário que não seja, e isto, digo-te, é um caminho em que ninguém pode persuadir-se de nada”.

Parménides pretendia concluir que existe “um só caminho para o discurso: que “o ser é”, e que só através da Razão esse caminho poderia ser seguido, uma vez que os sentidos humanos se detêm na aparência. Para Parménides, a razão era o contrário da aparência que constituiria o mundo, porque toda a mudança que existia no mundo era, segundo Parménides, pura aparência – o mudar das coisas era, simultaneamente, “o ser” e “o não ser”, o que seria um absurdo. Parménides era um místico, e é surpreendente como uma determinada frase, retirada do seu contexto, pode servir para defender uma ideia exactamente contrária à que Parménides pretendia transmitir. Existe em Parménides a essência de uma visão panteísta do mundo que foi mais tarde aprimorada por Espinosa.

A moderna filosofia quântica retoma Parménides quando pensa no factor “Tempo” como dimensão universal. Portanto, o conceito de “o ser não poder não ser” de Parménides não era tão absurdo como racionalmente se pretende estabelecer, porque parte do princípio de que a ciência não descobriu tudo o que tinha para descobrir, e que a Razão pode estar para além daquilo que é definido pelos nossos sentidos, sendo que o próprio método científico actual faz parte da aparência do mundo.

Por outro lado, a noção de “tempo” segundo Parménides coincide com algumas filosofias orientais, como a budista com o conceito de Akasha como sendo uma dimensão de registo de “todos os tempos”. Contudo, pretende Parménides que não podendo nós conhecer o passado, ele não existe, mas deve de algum modo existir agora, inferindo daqui que não existe mudança. Vem daqui a sentença “falácia de Parménides”.

Quando alguém faz um ataque Ad Hominem a John Locke dizendo que ele era um criminoso porque defendia, no século 17, a escravatura, incorre numa falácia de Parménides, porque julga os factos históricos à luz dos conceitos contemporâneos, no sentido em que pressupõe que não existe mudança histórica e que, por isso, podemos julgar legitimamente o comportamento dos humanos no passado segundo os conceitos actuais.

Sobre Nietzsche ler: “O profeta do anticristo”

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2 comentários »

  1. Bom eu gostei muito,mais procurei a moral e etica de pitagoras e nao achei oque eu queria resumido… se puderem fazer ou algo do tipo agradeceria!

    obrigada e ate +

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    Comentar por Uli souza — Quinta-feira, 5 Junho 2008 @ 3:23 pm | Responder

  2. Só isso?esperava entender alguns conceitos como o ´´belo´´,na visão de Parménides

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    Comentar por Daniela Iudice Rafael — Sexta-feira, 21 Setembro 2012 @ 1:34 am | Responder


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