perspectivas

Quarta-feira, 19 Março 2008

Ateísmo, política e o empirismo de Locke

Filed under: Religare — O. Braga @ 7:58 pm
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«Promessas, compromissos, e juramentos, que são as ligações da sociedade humana, nunca podem ser assumidos por um ateu. O afastamento de Deus, mesmo que só em pensamento, descompromete o ateu. Para além disso, aqueles que por sua acção ateísta minam e destroem todas as religiões, não podem querer ter a pretensão de reclamar para si o privilégio da tolerância que dizem negar às religiões.»

John Locke, “Ensaio sobre a Tolerância”, 1689

Quando António Guterres se demitiu do cargo de primeiro-ministro, admitiu implicitamente que não tinha condições para assumir os compromissos e promessas que o tinham levado ao poder. Guterres é católico, e terá sido o político da III República menos compreendido pelos portugueses. Para um católico convicto, as promessas e compromissos, que são as ligações da sociedade, nunca podem deixar de ser cumpridas.

O exemplo contrário vem de José Sócrates, que tem manifestado o seu ódio às religiões em várias ocasiões registadas, nomeadamente na área da educação (link). Embora nunca o tenha abertamente admitido em público, José Sócrates manifesta-se como sendo ateu, e por isso, não poderíamos esperar dele senão a quebra sistemática das promessas e compromissos que assumiu, e sem que ele tire as ilações morais e políticas de tal comportamento. É óbvio que de José Sócrates não poderíamos esperar outra coisa, porque faz parte daquilo a que Pacheco Pereira chamou de “uma geração de políticos sem princípios” (link).

Ninguém precisa de ser judeu ortodoxo para respeitar o Kosher , nem é necessário ser cristão para acreditar que o adultério (no sentido de traição a um voto mútuo de dedicação exclusiva) é moralmente errado. Qualquer pessoa pode comportar-se de acordo com uma determinada moral sem ter que subscrever o credo religioso de onde deriva essa moral.
Naturalmente que existem ateus que adoptam uma moral consentânea com a moral universal vigente numa sociedade, mas isso só acontece por motivos culturais e não por motivos racionais ligados à “Razão Primordial”, ou coisa que o valha. O “ateu moral” é um parasita da moral vigente na sua sociedade, e existe maior afinidade, sobre os princípios morais, entre um “ateu moral” português e um católico português, do que entre um “ateu moral” português e um “ateu moral” que tenha sido educado na Indonésia muçulmana.
Um ateu não tem uma moral que se possa considerar universal porque a sua moral não deriva do ateísmo ou da ciência. O facto dos ateus modernos reclamarem um conceito de moral e de justiça (que deriva das religiões), não significa que exista uma ”nova moral”, mas constata apenas a existência de um prolongamento de uma moral que existe entre nós há muitos séculos, embora nem sempre respeitada.

No caso de um político ateu, o povo não só não tem informação sobre a sua base moral e ética, como não tem uma forma fácil de obter essa informação, porque o parasitismo moral do ateu não pode ser considerado como um sistema moral alternativo e independente. O facto de um político ser ateu dá-lhe plena liberdade – e até legitimidade – para mentir descaradamente e não cumprir promessas feitas ao povo, e mesmo assim, manter a sua posição de poder como se nada tivesse acontecido. O ateu é um inimputável moral, e a sua inimputabilidade moral estende-se à sua acção política.
É mais confiável, para mim, um político muçulmano que se candidate a PM de Portugal do que um político ateu, porque do primeiro tenho uma mínima percepção do que posso (ou não) esperar, ao passo que do segundo nunca terei uma mínima noção da sua prática política senão depois de ele ter assumido o poder. O político ateu é potencialmente (e particularmente) imprevisível.

John Locke chega assim à conclusão de que os ateus devem ser tolerados na nossa sociedade, desde que não assumam lugares de poder que se revelem de grande importância nas decisões que determinem o futuro da sociedade. O que está a acontecer em Portugal é exactamente o contrário do que John Locke recomendou: com a maçonaria infestada de ateus comandando a nossa sociedade, é hoje considerado como uma blasfémia que um político assuma um credo religioso. Em Portugal todos os políticos com credo religioso tendem a calar envergonhadamente a sua religiosidade (com excepção de Cavaco Silva, Rui Marques e de Manuel Monteiro), como se constituísse um crime Lesa-Pátria a assumpção pública de um credo religioso.

Nota: convém não confundir ateísmo com agnosticismo.

1 Comentário »

  1. Meu caro, o «esterco» não pode ter moral, muito menos ser religioso…

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    Comentar por Henrique — Quarta-feira, 19 Março 2008 @ 5:40 pm | Responder


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