perspectivas

Sexta-feira, 7 Março 2008

Comentando um comentário

Filed under: diarreias — O. Braga @ 6:15 pm
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Destaco Wittgenstein da maioria dos filósofos do século 20, não porque eu simpatize particularmente com a sua teoria, mas porque ele seguiu a tradição da filosofia como actividade racional, e não como doutrina ideológica.

O númeno de Kant tem paralelo no mundo místico de Wittgenstein, sendo que o que é “místico” é a essência do mundo (a “coisa em si” ou “Ding an Sich”, segundo Kant), e não a forma (aparência) dos “factos” (“fenómenos”, segundo Kant). Os “limites da linguagem”, segundo Wittgenstein, têm paralelo nos “limites do conhecimento”, segundo Kant, e esses limites não são factos do mundo porque não se podem exprimir através da linguagem – não podem ser ditos. O “místico” é o indizível porque inexpressável através da linguagem humana. Este conceito (na minha opinião) é irrefutável.

Porém, Wittgenstein vai mais longe do que Kant, no que respeita aos valores – e nomeadamente, aos valores éticos. Segundo Witt, a própria ética é inexprimível através da linguagem, isto é, a ética provém do mundo místico e não do mundo dos factos.

Contudo, Witt debate-se com uma contradição quando concebe o seu mundo místico onde existem os valores e o mundo dos factos onde os valores não existem, ao mesmo tempo que retira qualquer sentido às indagações metafísicas por parte do ser humano. Para Witt, o “problema da vida” resolve-se com o seu fim.
Witt assemelha-se a um não-crente que pressente a existência de Deus, mas cala-se porque não tem provas da sua existência. Porém, o facto de Witt ter admitido a noção de “limite do mundo” no sentido místico, dissocia-o do materialismo filosófico tout cours .

Em contraponto, Kant, através do seu conceito de “fé racional”, não só deixa tacitamente em aberto a hipótese de a Razão vir progressivamente a desvendar os segredos da metafísica espiritualista, que fazem parte do limite do conhecimento – Kant não manda calar ninguém, como faz o Witt, perante aquilo que “não se pode falar”, isto é, o desconhecido –, como considera que o “fenómeno” interage com o “númeno”, isto é, existe uma conexão valorativa entre ambos, e o “fenómeno” também faz parte do mundo dos valores. Para Kant, “o problema da vida” resolve-se com a evolução da Razão que progressivamente descobrirá a verdade.



O espírito, e só ele, tem uma essência em si mesmo e por si mesmo, é autónomo , e é apenas tendo em conta esta autonomia que pode ser tratado de uma forma verdadeiramente racional e de um modo radicalmente científico” – Husserl, in “Crise das Ciências Europeias”


Para falar de Husserl necessitamos de definir o conceito de “Epoché”, porque sem isso a maioria não o compreenderia. “Epoché” deriva do grego antigo e significa “paragem”, “interrupção” ou “suspensão de juízo”. Para os filósofos cépticos, “Epoché” significa a recusa de defender uma tese. Por exemplo, quando Wittgenstein manda calar as pessoas perante “aquilo que não se pode falar”, isto é, perante o desconhecido , trata-se de um “Epoché” – de uma suspensão de juízo.

Para Husserl, “Epoché” significa a suspensão do mundo, como que parado no tempo, embora com todas as suas características presentes e, por isso, passíveis de serem analisadas “de fora”, por um observador exterior. O “Epoché” de Husserl que suspende (interrompe a marcha) o mundo no tempo e no espaço, permite a quem medita conhecer-se a si próprio e tomar consciência da sua própria essência, e a autoconsciência adquirida desta forma é o “eu puro” de Husserl (ou o “eu transcendental”).

Existe na essência do “Epoché” de Husserl uma ideia de desprendimento espiritual em relação às coisas mundanas, porque através do Epoché, “nos tornamos observadores desinteressados do mundo”. Existe algo de mediúnico (no sentido espiritualista) na filosofia de Husserl, quando ele dá a primazia à intuição da essência em detrimento dos factos mundanos; trata-se de uma “ciência” teórica (contemplativa), intuitiva e não-objectiva.

Através do “Epoché”, Husserl pretende alcançar o “eu absoluto”, verdadeiramente apodíctico e compatível com o “a priori” da “coisa em si” de Kant, e com o “limite da linguagem” de Wittgenstein. Portanto, Husserl não foi, de todo, um filósofo existencialista no sentido materialista (não confundir com o “existencialismo” cristão de Kierkegaard), como foi Heidegger.


Heidegger foi influenciado pelo método de investigação de Husserl, assim como Fichte foi muito influenciado pelo método de Kant mas em muito pouco as suas filosofias são comparáveis.

Sob o ponto de vista pessoal, Heidegger e Husserl eram muito diferentes: Husserl era judeu, e Heidegger foi simpatizante do partido nazi.

Husserl dedicou-se à “essência dos modos de consciência”, enquanto Heidegger aprofundou o desconstrucionismo ideológico inerente à existência como sendo constituída por possibilidades (é esta a fonte do relativismo moral contemporâneo) herdado de Marx e Engels, que por sua vez foram buscar a Nietzsche, que por sua vez se baseou em Rousseau. O Ser-aqui (Dasein) é sempre uma possibilidade material, enquanto o “Eu puro” de Husserl (Sosein) é a indagação sobre a essência dos “modos da consciência” entendida como meta-material.

O Dasein de Heidegger requer uma experiência inter-pessoal, isto é, puramente material, enquanto que o Sosein de Husserl provém de um Epoché apodíctico.

Se bem que a análise da existência de Heidegger siga o método fenomenológico de análise das modalidades de investigação filosófica (e não a análise do mundo dos “fenómenos” como sendo objectos de investigação) que foi buscar a Husserl, o facto de Heidegger seguir o mesmo método de investigação não significa que as essências das duas filosofias sejam semelhantes. O método fenomenológico é uma mera ferramenta de trabalho utilizada por ambos, e para além do facto de ambos terem valorizado a subjectividade , acaba aqui qualquer semelhança entre os dois.
Quando Husserl diz que “a fenomenologia somos Heidegger e eu”, refere-se ao método de investigação, e não às essências das suas teorias.

3 comentários »

  1. Concordo com vários pontos de sua análise e agradeço pela pronta resposta, contudo creio que há mais semelhanças justamente no centro da questão da “essência de ambas as filosofias [Husserl e Heidegger]” e não meramente enquanto procedimento metodológico. Entretanto estou ainda desenvolvendo meus estudoes na filosofia de Husserl para depois ir a Heidegger, e então não me sinto confortável, ainda, para fazer uma análise comparativa. Contudo há o texto de um professor sobre a ruptura entre Husserl e Heidegger ter se dado justamente pela questão da aplicabilidade do método, entretanto o escopo de ambas as filosofias seria descrever o “lugar do transcendental”.
    Quanto ao fato das diferenças partidárias e ideológicas dos autores, talvez eu esteja equivocado, mas eu nunca levo em questão a biografia de um filósofo, mas apenas os seus textos. Aprendi isso justamente com Heidegger (por isso penso que talvez eu esteja equivocado neste aspecto) que diz no “Heráclito” que “se pode conhecer a fundo a biografia de um autor, e contudo neste exercício ignorar totalmente o seu pensamento”.

    Abraço. (Quanto ao texto que me referi segue o link: http://www2.pucpr.br/reol/index.php/rf?dd1=1530&dd99=view)

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    Comentar por bozatski — Sexta-feira, 7 Março 2008 @ 6:48 pm | Responder

  2. Qualquer semelhança entre as teorias de Husserl e Heidegger é pura coincidência. Por alguma razão Husserl está incluído na fenomenologia, e Heidegger no existencialismo.

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    Comentar por Orlando — Sábado, 8 Março 2008 @ 12:07 pm | Responder

  3. bozatski, do fato que se pode conhecer a biografia de um filosofo e desconhecer seu pensamento nao se segue que e inutil conhecer a biografia de um filosofo para conhecer seu penamento. abraco, gustavo bertoche

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    Comentar por gustavo bertoche — Terça-feira, 29 Dezembro 2009 @ 1:01 am | Responder


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