perspectivas

Quarta-feira, 27 Fevereiro 2008

Exercício sobre a opinião da ministra, à luz de Hume e de Kant

Enunciado

No último programa dos Prós + Contras na TV, a ministra da educação respondeu a uma crítica de uma professora que sustentava a ideia de que a gestão da educação tem sido sistematicamente entregue a ministros que não têm conhecimento directo da área educativa. A ministra ripostou com o argumento que não é necessário que uma pessoa tenha conhecimentos específicos sobre uma determinada área para ser ministeriável. Será verdadeira esta afirmação da ministra?

Observação

Na minha opinião, trata-se de uma inverdade transformada em verdade cultural sagrada pelo tipo de sociedade que temos. Vou recorrer à “Crítica da Razão Pura” de Kant para provar que a ministra não tinha razão na sua afirmação.

1. Kant partiu do princípio de que o ser humano só valida o seu conhecimento quando reconhece os seus limites, isto é, só reconhecendo os seus limites cognitivos (conhecimento) o Homem pode normalizar e fundamentar as faculdades humanas.
Por outro lado, Kant parte do princípio pertinente de que é impossível subordinar a Natureza ao Homem e que esta impossibilidade é a base de um juízo estético e ético (“ético” no sentido teleológico, ou dos fins a atingir).

2. 1. Acontece que vivemos numa sociedade que nos dá a sensação ilusória de que o Homem subordinou a Natureza por via da Técnica, e portanto, toda uma série de princípios racionais foram subvertidos por um tipo de cultura que desliga o ser humano da Natureza. A esta sensação de subordinação da Natureza pelo Homem, podemos chamar, para facilitar o raciocínio, de “antropocentrismo” – não no sentido antropológico, mas no sentido filosófico.
2.2. A este antropocentrismo que rege a sociedade ocidental se deve a repescagem do cepticismo de Hume tão bem expresso na teoria neoliberal de Hayek (ver no Google: Hayek + Hume). Hume, como Hayek, defendem ideia diferente de Kant: para eles, o reconhecimento e valorização dos limites do saber humano é irrelevante, porque (segundo eles) o conhecimento não poderá nunca ser alcançável – nem recorrendo à experiência no seu limite – de uma forma segura e estável. Hume e Hayek partem do princípio que existe apenas a probabilidade de que o conhecimento humano seja válido, e esse saber provável é falível mesmo quando exercido no âmbito da experiência estrita (empirismo). Perante o cepticismo sobre a validade do conhecimento, Hayek valoriza essencialmente a forma como o Homem utiliza o conhecimento possível, isto é, sendo o conhecimento, precário, o mais importante é o que o Homem faz com ele – e não o valor intrínseco do conhecimento.

3. Em contraponto a Hume e Hayek, Kant escorou-se no conceito apodíctico do “a priori”, ou “razão pura”, partindo da ideia de que existem princípios racionais universais que não carecem de experimentação probatória. Para Kant, existem conhecimentos universais válidos e independentes da experiência, porque a experiência em si mesma não pode dar o valor necessário e universal aos conhecimentos que dela decorram.
Contudo, Kant sublinha o facto de um conhecimento independente da experiência não significar um conhecimento que precede a experiência, isto é, anterior à experiência, mas um conhecimento que começa com a experiência mas que não deriva, todo ele, da experiência, mas da nossa faculdade de conhecer. Por exemplo, a matemática e a física pura iniciaram-se em simultâneo com a experiência humana mas contêm verdades universais independentes da experiência; portanto, a matemática e a física pura contêm juízos “a priori” com uma validade que a experiência não nos pode dar.

4. Temos, então, que existem juízos apodícticos, ou “a priori”, ou de “razão pura”, que se validam independentemente da experiência. A estes juízos, Kant chamou de “Noumenos”.
Contudo, (segundo Kant) o objecto do conhecimento humano não é o Noumeno, mas o Fenómeno – que é tudo aquilo que aparece ao Homem na Natureza. Para o conhecimento dos Fenómenos (independentemente do Noumeno, ou “razão pura”), o Homem precisa sempre e apenas da experiência. O Fenómeno não é aparência ou ilusão: é um objecto real que interage com o observador humano.

Corolário

a) O conhecimento “a priori” não dispensa a experiência. Sendo que o objecto do conhecimento é a realidade objectiva que interage com o ser humano, a ministra da educação não tem razão quando diz que só o conhecimento “a priori” das leis universais de gestão de uma organização é suficiente para gerir a realidade dessa organização.
b) Em função da clara dificuldade da ministra em valorizar a importância dos limites do seu conhecimento na sua acção no ministério, revelando assim uma clara influência do cepticismo filosófico-antropocêntrico de Hayek na sua forma de pensar em relação ao conhecimento, utilizo um juízo apodíctico quando afirmo que a ministra rege a sua acção por uma lógica neoliberal; não preciso de uma prova “de facto” (empírica) para afirmar isto – trata-se de “razão pura”.

🙂

3 comentários »

  1. A análise é admirável.
    Há, contudo, uma abordagem um pouco mais prosaica que não deixa de fazer sentido e que gostaria de aqui partilhar. O problema reside no domínio não só cultural, mas também civilizacional do universo anglo-saxónico. Repare-se que na língua inglesa há uma só palavra para significar Ser e Estar, ao passo que no português é clara e marcante a diferença entre os dois conceitos. É assim que a língua portuguesa cria um universo símbólico distinto para duas coisas que são intrinsecamente distintas: o Conhecimento que faz o Ser e a Experiência que faz o Estar.
    A posição da ministra não deixa de ser coerente com o domínio civlizacional anglo-saxónico de que ela própria é defensora e em que o seu próprio pensamento foi (de)formado.
    Tudo isto seria absurdo se Portugal não fosse uma colónia.
    Cumprimentos.

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    Comentar por Bruno Santos — Quarta-feira, 27 Fevereiro 2008 @ 4:50 pm | Responder

  2. É claro que nunca me meteria a gerir uma farmácia nem uma mercearia porque iria meter água pela certa.
    Quanto à ministra e à filosofia, LOL!

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    Comentar por Henrique — Quinta-feira, 28 Fevereiro 2008 @ 7:07 pm | Responder

  3. Naturalmente que existe muita ironia neste post. E verdade também. 🙂

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    Comentar por Orlando — Sexta-feira, 29 Fevereiro 2008 @ 9:46 am | Responder


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