perspectivas

Terça-feira, 12 Fevereiro 2008

A Turquia despreza o multiculturalismo e o relativismo moral

A União Europeia hesita na questão da adesão da Turquia, impondo condições prévias em matéria de direitos e garantias, e o parlamento turco aprova uma lei que faz regressar o uso do véu islâmico das mulheres em instituições públicas, nomeadamente nas universidades. A mensagem dos políticos turcos é clara: a Turquia não se submete a chantagens económicas que pretendam subjugar e condicionar os turcos sob o ponto de vista cultural. O problema é que ninguém pode garantir que a Turquia não passará a defender o retorno ao califado mesmo depois de uma eventual adesão à UE.
A lei integrista turca que repõe o véu islâmico nas instituições públicas é uma resposta aos socialistas, marxistas culturais e libertários europeus: não adianta que tentem seduzir a Turquia com as benesses económicas que a adesão à UE pode implicar, em troca de concessões em sede de ética e da adopção institucional e cultural de um relativismo moral promovido pelo libertarismo europeu actualmente no poder.

Constatamos, assim, que o radicalismo integrista islâmico se opõe ao radicalismo libertário ocidental (com uma forte simbiose com o marxismo cultural). O verdadeiro “choque de civilizações” é este, e não o que hipoteticamente oporia cristãos a muçulmanos.

A Europa já não defende os direitos humanos; as instituições europeias defendem somente os interesses dos lobbies políticos mais poderosos presentes na sociedade. Em termos gerais, a lógica europeia na feitura e aplicação do Direito não é uma lógica garantista – como é a dos Estados Unidos (first amendment, etc.) –, mas uma lógica elitista (quem tem dinheiro prevalece, seja por pressões políticas sobre a justiça, seja corrompendo o próprio sistema judicial).

Por outro lado, a Europa está nitidamente a incentivar o integrismo e o integralismo islâmico, através de péssimos exemplos que traduzem uma hipocrisia política – em matéria ético-cultural – que os Estados da União e algumas das instituições europeias estão a dar ao mundo.

Dou um exemplo da hipocrisia da esquerda europeia: ao contrário dos Estados Unidos que adoptou o melting pot cultural – sendo que a cultura predominante e “oficial” é a anglo-saxónica –, o multiculturalismo é defendido há décadas pelos socialistas britânicos, assim como pelos socialistas europeus em geral.
Como sabemos, o multiculturalismo é uma orientação política que tem na sua base a teoria de que todas as culturas são igualmente válidas e de que não existem umas culturas superiores a outras culturas (isto é marxismo cultural puro e duro). O problema desta teoria muito bonita surge quando diferentes culturas têm que conviver lado-a-lado na mesma sociedade, e quando uma delas é maioritária.
Em função do multiculturalismo adoptado pela esquerda europeia, as comunidades de imigrantes islâmicos passaram a viver em guetos geográficos e culturais por essa Europa fora. Porém, quando o actual arcebispo anglicano de Cantuária veio recentemente defender a ideia da inclusão de algumas leis da Sharia no Direito britânico, essa mesma esquerda marxista cultural indignou-se com a posição do arcebispo e rechaçou veemente essa hipótese. Em que ficamos? Há multiculturalismo ou não? Se a esquerda europeia e britânica fossem coerentes na defesa do multiculturalismo, não poderia recusar a proposta do arcebispo anglicano de inclusão de leis da Sharia no Direito inglês – porque se todas as culturas são igualmente válidas, então a Lei de um Estado terá que reflectir a tal validade igualitária de todas as culturas em presença. Isto parece-me óbvio. O Estado de Direito europeu e a separação entre as religiões e o Estado só faz sentido partindo do princípio de que a cultura europeia, que evoluiu da revolução francesa – a cultura do cristianismo do “dai a César o que é de César” – é mais evoluída que a cultura islâmica do integralismo do califado.


Outros casos de maus exemplos europeus que provocam uma viragem radical islâmica para o integrismo (não confundir com “integralismo” islâmico do califado) saltam à vista: a liberalização progressiva do aborto, que desvaloriza a vida humana intra-uterina e que dá a sensação de independência da mulher quando a oprime ainda mais, ao não lhe dar condições de económicas e culturais de assumpção plena e digna da maternidade; o “casamento” entre pessoas do mesmo sexo e a adopção de crianças não-progénitas por duplas de homossexuais, que pretende destruir o conceito cultural de família tradicional; a eutanásia de crianças recém-nascidas com deficiências congénitas, que conduz a uma desvalorização da vida humana extra-uterina e a um eugenismo politicamente correcto; o neoliberalismo e a corrupção económica e financeira generalizada do “salve-se quem puder”, que nos dão já sinais preocupantes de desagregação da coesão social na Europa. Todos estes maus exemplos da Europa têm uma causa comum: o Presentismo histórico marxista cultural que pretende a ruptura, a qualquer preço, com os valores civilizacionais europeus, e a valorização cultural da Utopia Negativa aliada a um capitalismo selvagem.

Em vez de nos preocuparmos em lutar contra o integrismo islâmico, cabe-nos combater primeiro o radicalismo libertário na Europa. Vencendo este último e colocando os libertários elitistas no sítio que lhes pertence (a minoria reduzida à sua importância real), o integrismo islâmico deixa de fazer sentido e acaba por não ter significado político relevante, e o diálogo entre comunidades culturais diferentes na Europa passa a ser mais fácil, porque os valores ético-morais se aproximam. Para isso, precisamos todos que a sociedade assuma e defenda a ideia de que os valores cristãos de justiça e solidariedade não podem ser letra morta na política – sem que se comprometa a cultura europeia da separação entre as várias religiões e o Estado – e a ideia de que o dinheiro não pode subjugar o espírito.

Se não aceito os véus islâmicos nas mulheres turcas, compreendo-as; esta Europa não merece outra coisa.

1 Comentário »

  1. Realmente, os marxistas foram os que acenderam o pavio de toda esta confusão.

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    Comentar por Cláudio Augusto — Sábado, 9 Janeiro 2010 @ 10:44 pm | Responder


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