perspectivas

Sexta-feira, 1 Fevereiro 2008

A morte da filosofia

Filed under: ética,cultura,Religare — O. Braga @ 5:50 pm
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Wilhelm Windelband

Wilhelm Windelband

Qualquer pessoa medianamente informada pode constatar que a filosofia estagnou depois do apogeu do pós-modernismo, isto é, a partir de meados dos anos setenta do século passado. Explico-me: não significa isto que não se tenham desenvolvido correntes filosóficas diversificadas a partir de ideias já conhecidas; significa que existe uma censura prévia por parte de um establishment político que define o que deve ser publicitado e ensinado em nome da filosofia, e por sua vez, esse establishment político é controlado por uma ideia de ciência que convém a uma super-estrutura económico-financeira global.

Melhor dizendo: a plutocracia internacional controla a ciência, que por sua vez, determina a política correcta em termos filosóficos; só as teorias filosóficas consentâneas com uma certa ideia de racionalismo científico podem ser propagandeadas e são aceites à Esquerda e à Direita do espectro político internacional. Hoje, as diferenças entre a Esquerda e a Direita são formais, e não essenciais; hoje, as diferenças entre a Esquerda e a Direita não se prendem com a ideia do mundo e da vida – como aconteceu antes e durante o Modernismo – mas pela simples lógica de assalto ao poder pelo poder. Durante o Modernismo, lutava-se pelo poder tendo como base ideias de fundo divergentes e características de filosofias diferentes; hoje, são os pequenos detalhes ou diferenças de forma que fazem a diferença entre a Direita e a Esquerda.

Naturalmente que essa ideia de ciência que determina a filosofia correcta censura também a própria ciência; por exemplo, Michael Behe é um conhecido professor universitário e bioquímico americano que questiona criticamente a teoria da evolução, mas não só as suas teses não são tidas em consideração pelo mundo académico, como quem o faz é perseguido e ridicularizado por quem detém o alvará de inteligente académico. Vivemos na Idade das Trevas da ciência, voltamos a uma Idade Média: em vez dos clérigos da Igreja Católica a ditar-nos o que é correcto, são os novos “padres” da ciência que nos pregam os sermões sobre a lei da vida. Em vez de ser a filosofia a orientar a ciência, é a ciência que tende a orientar a filosofia, e por isso, a filosofia deixou de existir como tal e está travestida de política. Hoje, a filosofia é a política mascarada e como tal ensinada. Porque é que isto aconteceu?


Vou recorrer a um filósofo do princípio do século 20 para tentar explicar parcialmente o fenómeno da morte da filosofia no pós-modernismo: Wilhelm Windelband.
Windelband fez parte da corrente filosófica do criticismo alemão, e foi o precursor da “filosofia dos valores”. O criticismo germânico é caracterizado pela ideia kantiana de que o conhecimento é independente da subjectividade de quem o analisa, isto é, o ser humano vê e analisa o mundo tal como o pintor pinta um quadro de uma paisagem, e não como o fotógrafo que retrata essa paisagem com a fidelidade de uma fotografia.

Neste sentido, o ser humano é um pintor e não um fotógrafo. A mesma paisagem pode ser pintada por diversos pintores de maneira diferente. Esta ideia parece resvalar para o relativismo do pós-modernismo, mas apenas aparentemente, porque para além do quadro que cada pintor pinta, existe inexoravelmente a verdade da realidade que a paisagem tem em si – para além das diversas interpretações plásticas que dela façam os pintores. Acontece que o relativismo ignora simplesmente a ideia de que existe uma paisagem concreta e verdadeira para além das diversas interpretações plásticas que dela façam: a paisagem em si é irrelevante e ostensivamente esquecida pelo relativismo; o mais importante para o relativismo são as interpretações subjectivas que cada pintor faz da paisagem, e neste sentido, os relativistas colocam em pé de igualdade todas as representações dessa realidade, não dando um valor intrínseco a essa mesma realidade como tendo expressão própria e verdadeira.

Existe, portanto, uma realidade e a interpretação que dela fazem os humanos – ciência incluída – o que não significa que a diversas interpretações da realidade sejam fidedignas ou exactamente correspondentes a essa realidade.

O que a filosofia sempre fez e não faz agora, é colocar em causa a subjectividade do ser humano; Windelband considera a filosofia como “a ciência crítica dos valores universais”, sendo que os “valores universais” constituem o objecto da filosofia e o “carácter crítico” caracteriza o seu método. Hoje parte-se do princípio de que existe uma verdade absoluta produzida pelo cérebro humano, chegando ao ponto de se afirmar que a realidade só pode ser determinada através do racionalismo científico. Seria como se um pintor famoso decretasse que determinada paisagem não poderia ter outra versão plástica que não a sua, em nome da sua pretensa e auto-proclamada genialidade, e todas as versões de outros pintores da mesma paisagem tivessem como base, não a paisagem em si, mas a ideia da paisagem segundo o pintor que se afirma como genial. É aqui que o racionalismo científico se transforma em irracionalidade e a filosofia morre.

Windelband falou em “ciências nomotéticas” e “ciências ideográficas”. As primeiras são as ciências naturais que procuram descobrir a LEI a que obedecem os factos; as segundas têm como objectivo o SINGULAR na sua forma historicamente determinada, e são as ciências do espírito. As primeiras têm como objectivo final o reconhecimento do universal; as segundas tendem para o reconhecimento do singular, quer seja um facto ou uma série de factos, a vida ou a natureza de um ser humano ou de um povo, a natureza e o desenvolvimento de uma língua, de uma religião, de uma ordem jurídica ou de uma qualquer produção literária, artística ou científica. As primeiras são as ciências das LEIS; as segundas são as ciências dos FACTOS, mas não existe uma única fonte para o momento histórico e para o momento naturalista do saber humano:

“A lei e o acontecimento ficam um ao lado do outro como últimas grandezas incomensuráveis da nossa representação do mundo. Este é um dos pontos limites em que o pensamento científico tem apenas por missão levar o problema à luz da consciência, mas não está em condições de o resolver.” – Windelband, Prelúdios, 1911

Se eu proferisse a citação supra a um técnico moderno, chamar-me-ia de “ignorante” ou “evangelista”. O nosso mundo é dominado por técnicos das leis que proclamam a verdade absoluta e exclusiva das ciências nomotéticas e que ignoram os factos singulares das ciências ideográficas, e são esses “técnicos das leis científicas” que pretendem moldar a moral do futuro e determinar a ética, matando a filosofia.

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5 comentários »

  1. Considero este texto que escreveste imensamente redutor e completamente fundado em principios superficiais. Dizer que a filosofia está morta equivale a dizer que o ser humano se tornou irracional que perdeu a conciência de si o que é uma falsidade do tamanho do cosmos. Peço te humildade perante o acto do conhecimento antes de escrever estas barbaridades e termino com a expressão de wittgenstain que acho que devias seguir antes de escrever “coisas” como estas.”Acerca daquilo que não conhecemos devemos manter nos em silêncio para sempre”

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    Comentar por Luis Narciso — Quinta-feira, 7 Fevereiro 2008 @ 12:40 am | Responder

  2. É frustrante que as pessoas não leiam o que escrevi:

    não significa isto que não se tenham desenvolvido correntes filosóficas diversificadas a partir de ideias já conhecidas; significa que existe uma censura prévia por parte de um establishment político que define o que deve ser publicitado e ensinado em nome da filosofia, e por sua vez, esse establishment político é controlado por uma ideia de ciência que convém a uma super-estrutura económico-financeira global.”

    Naturalmente que as ideias continuam a fluir; o que eu disse é que existe uma autêntica censura política como não há história desde que o pós-modernismo se instalou. O que eu quis dizer é que o pós-modernismo, que combateu um certo unanimismo do Modernismo, instalou o seu próprio unanimismo.

    O comentário do Luís Narciso roça o ataque Ad Hominem. Quando não temos argumentos, resumimos os nossos comentarios à depreciaçao pessoal – o que é grave em si mesmo e mais ainda quando nem sequer conhecemos a pessoa que atacamos.

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    Comentar por Orlando — Sexta-feira, 8 Fevereiro 2008 @ 11:55 am | Responder

  3. Eu concordo com o que você escreveu, Orlando. Ingenuidade do Luis Narciso pensar diferente ou então ele não tinha entendido. Escrevi algo sobre essa questão há poucos dias, na verdade, não foi sobre essa questão, mas só um comentário no meio de um texto. Olha:

    ”As pessoas são extremamente ligadas às letras, à arte de bem escrever, aos dados comprovados cientificamente. Não digo que isso é errado, mas existe uma carência de teses que pretendam abarcar mais que isso. Que retornem à idéia de filosofia com o sentido de busca por verdades universais. Certamente alguns cientistas vão atacar, falar mal, expressar o seu repúdio a isto, mas sabemos que a cada dia as coisas estão ficando mais ‘‘determinadas’’, ‘‘delimitadas’’ e menos comprometidas com a inter-conexão entre as coisas. As pessoas não estão preocupadas com o social, querem saber de ganhar um ‘‘prêmio’’ por algo nunca imaginado(?) antes em suas áreas específicas.”

    Mas quem sabe: a filosofia pode ressuscitar. hehe

    Abraço.

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    Comentar por Angustiada Consciência — Sexta-feira, 8 Fevereiro 2008 @ 2:56 pm | Responder

  4. Se aparecer alguém capaz de ressucitar aparecer, não esqueçam de informar os jornais e a mídia independente.

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    Comentar por Rogério dos Prazeres — Sexta-feira, 29 Maio 2009 @ 10:10 pm | Responder

  5. Na realidade, Adorno identificou na cultura de massas uma forma do capitalismo selvagem sufocar qualquer arte, música no caso dele, que não possa ser consumida e gerar lucro. A filosofia não podia escapar da politica do consumo, se ela não tem valor comercial é descartada; o intuito do establishment político ao censurar qualquer tipo de manifestação humana que não se coadune, se potencialize em consumo é ditado pelo poder economico que envolve transnacionais que hoje dominam a ciência, a mídia, os governos. É uma nova luta de classes em que a maioria da população nem sonha que exista e os que percebem são considerados elementos dissidentes e perigosos e precisam urgentemente ser marginalizados…

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    Comentar por Koan Maxi (@koan_maxi) — Quarta-feira, 5 Setembro 2012 @ 1:33 pm | Responder


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