perspectivas

Domingo, 30 Dezembro 2007

Dissertação sobre o fundamentalismo anti-teísta e a elite estupidificada

“No caso de Dawkins – e intra-muros, no caso de Saramago – assistimos a dois casos típicos de desonestidade intelectual. Ambos são intelectualmente desonestos na sua sanha irracional anti-religiosa.”

(texto com 1690 palavras)

A irracionalidade do Novo ateísmo

Já falei aqui das incongruências filosóficas de Dawkins no seu livro “A Desilusão de Deus” e vou abordar as questões políticas do livro.
Dawkins escreve que a situação dos ateus na nossa sociedade é equivalente à dos homossexuais há 50 anos atrás, e que “os ateus se sentem oprimidos pela sociedade”, à espera de “sair do armário” (come out).
Em primeiro lugar, verificamos que a estratégia política do Novo Ateísmo é a mesma utilizada pelo movimento político gay quando, de uma forma abusiva, comparou as suas reivindicações absurdas com as revindicações pertinentes e justas dos negros que constituem família e têm os seus filhos, como toda a gente normal. Agora, chegou a vez de se comparar a situação dos ateus com a dos homossexuais. Este tipo de argumentos concatenados revela simplesmente que a fonte ideológica do movimento político gay e o da fé do Novo Ateísmo é a mesma.

Em segundo lugar, é absolutamente ridícula esta afirmação de Dawkins, porque nenhum ateu se sente incapacitado, legal ou socialmente, na afirmação das suas convicções. Pelo contrário, o ateísmo das elites domina hoje a sociedade, a política, as universidades e os me®dia, e nada mais grotesco do que afirmar que as elites são perseguidas pela sua fé. A elite, de que Dawkins faz parte, empreende actualmente uma acção política extremamente agressiva e fundamentalista no sentido da propagação da sua fé, e acusa de “fundamentalista” qualquer reacção por parte das religiões às suas invectivas agressivas, radicais e fundamentalistas. As religiões tradicionais têm que ouvir e calar.

Por outro lado, Dawkins pensa que sendo as elites ateístas, então ele tem toda a razão na sua fé ateísta. O que Dawkins parece não compreender é que as actuais elites se desligaram da realidade, de tal forma mergulharam nas teorias e nas divagações académicas. A ideia de que um indivíduo tira uma licenciatura e passa a ser dono da verdade é uma ideia profundamente provinciana e arrogante, mas é, de facto, e infelizmente, um lugar comum entre as elites. A elite pensa – erroneamente – que as ciências sociais obedecem aos mesmos princípios metodológicos das ciências biológicas, e este é um enorme erro de que Dawkins não se deu conta.

A elite herdeira da Utopia Negativa, de que Dawkins faz parte, defendia até há pouco tempo, por exemplo, a ideia de que o sexo masculino e o sexo feminino eram iguais, e que as diferenças existentes eram aculturadas. Isto é uma convicção política, não é ciência, o que significa que a ciência foi instrumentalizada politicamente. Pesquisas científicas realizadas desde há décadas já provaram que o homem e a mulher são diferentes, e não só a nível cerebral. Contudo, a ideia da igualdade entre o homem e a mulher continua a ser utilizada pela política da Utopia Negativa. A verdade é que o homem e a mulher são equivalentes, no sentido em que se completam, mas não são iguais. Por isso, a elite já diz hoje que as diferenças entre o homem e a mulher “não são importantes”, quando há ainda pouco tempo diziam que “não existiam diferenças” e que estas eram “aculturadas”.
Imbrica aqui a ideia das elites de que os papéis da mãe e do pai na educação das crianças são irrelevantes, e podem ser substituídos por dois pais ou duas mães, ou três pais e duas mães, ou cinco mães e oito pais – deixo a combinação à vossa imaginação. Para poderem defender esta ideia, as elites tiveram que defender primeiro a “igualdade” entre o masculino e o feminino (a chamada “neutralidade de género”), passando agora a dizer que as diferenças entre os sexos “não são importantes”, perante as evidências científicas que provam exactamente o contrário. O que está em causa não é uma visão religiosa dos papéis do homem e da mulher, é antes uma visão racional da questão da educação das crianças. Perante a Razão, o Novo Ateísmo, ligado à Utopia Negativa, responde com fé.

Em resumo, existe uma elite que chama de “científicas” todas as suas teorias políticas, e rotula de “religião” a tudo o que se lhe opõe ideologicamente. Temos todos que concordar que esta postura não é racional.
É exactamente esta a estratégia de Dawkins: construir uma visão do mundo baseada na ciência manipulada pela política, uma visão sem nenhuma sustentabilidade científica, empírica e probatória, mas que em nome da “ciência” deverá ser aceite – e quando a ideia de Deus não cabe nessa visão do mundo que essa elite construiu, concluem que Ele não existe.

A “morte do pai”, segundo Freud

Segundo Freud, o adolescente passa pela fase da “morte do pai”, que estará ligada a Édipo. Em fase adulta, o filho ultrapassa essa fase e começa a ver claramente no pai as qualidades (e os defeitos) que não viu quando adolescente.

A negação da História segundo a Utopia Negativa – partilhada também pelo Saramago e outros elitistas políticos da nossa praça – pode ser definida como a tentativa da “morte da História”, quando se a interpreta à luz dos conhecimentos actuais (ver “falácia de Parménides”), mas caindo no radicalismo revoltado do adolescente que mata o pai interiormente. Uma visão adulta e madura da História será sempre a de retirar dela os aspectos positivos, adoptando-os, e identificar os negativos para que evite o “eterno retorno” de Nietzsche. Define-se como “Presentismo” a tentativa de apagar a História; quando José Saramago defende publicamente a ideia de Portugal como uma província de Espanha, para além da estupidez de um senil totalmente manipulado por um gineceu castelhano, transporta consigo esse Presentismo que pretende apagar a História – negando, desta feita, a História de Portugal depois de Afonso Henriques. José Saramago é um exemplo vivo do corolário da Utopia Negativa: o Presentismo Histórico – no caso dele, com uma grande dose de senilidade à mistura.
De igual modo, Dawkins pretende apagar a História, negando-a, reprovando todo o passado. Dawkins não consegue pensar em nada de positivo que o cristianismo tivesse trazido à Europa.

A desonestidade intelectual de Dawkins e quejandos

Quando Dawkins tenta fazer crer que acreditar em Deus é irracional, apresenta uma série de lacunas na sua análise crítica.

Existe uma regra de ouro na Retórica: tudo pode ser aceite se só puseres em cima da mesa os argumentos a favor de uma tese, e tudo pode ser recusado se somente colocares na mesa os argumentos contra uma tese. A filosofia consiste em colocar na mesa todos os argumentos, e portanto, não podemos dizer que Dawkins é um filósofo, porque todos os argumentos apresentados por ele são unilaterais: só vêem a parte negativa da História, que inclui a parte negativa da história das religiões, naturalmente. Quem estudou a História da Europa sabe que por entre a faceta negativa da Igreja Católica, apareceu sempre o positivo. Muitas guerras foram evitadas entre os senhores feudais por intercessão da Igreja Católica; a arte medieval renascentista – desde a música de Bach e Mozart, até às pinturas de Miguel Ângelo e Da Vinci – tiveram uma influência cristã fundamental; a fundação do método científico na Europa foi possível por causa da natural predisposição do cristianismo para separar a religião da política (“Dai a César o que é de César”); a luta contra o esclavagismo foi liderada por religiosos, entre os quais figuram os jesuítas – e tantas outras coisas positivas o cristianismo nos trouxe ao longo dos séculos.
Quando a elite anti-teísta critica o “proselitismo” dos missionários cristãos que vivem em África, fazem-no mas não têm a coragem de tomar o lugar desses homens e mulheres em espírito de missão, e passar a fazer uma vida de sacrifício em prol da educação dos povos africanos. Que a elite não critique: que vá para África, viva sem água potável, sem electricidade, e durma com uma rede mosquiteira para fugir à malária, em vez de criticarem os missionários cristãos. A crítica anti-religiosa assume actualmente contornos de uma irracionalidade inaudita.

Dawkins parte do princípio de que todas as religiões são iguais, o que não é verdade. Não podemos esquecer de que só o Islamismo foi fundado por um líder militar (Maomé). Existe um maniqueísmo evidente em Dawkins, nivelando todas as religiões pela mesma bitola.
Por outro lado, a análise histórica paupérrima de Dawkins confunde cristianismo com problemas sociais que ocorreram depois da implantação do cristianismo, partindo do princípio de que, se o cristianismo não existisse, não existiriam problemas sociais na Europa – trata-se de um erro de análise deplorável. Por exemplo, o conflito na Irlanda do Norte teve início ainda a Inglaterra, a Escócia, Gales e a Irlanda eram católicas (antes de Henrique VIII), e portanto, trata-se de um problema político anterior, a que foi acrescentado, posteriormente, o ingrediente religioso. O cristianismo não esteve na origem do conflito na Irlanda – pelo contrário, foi o conflito já existente que contribuiu para a separação religiosa entre protestantes e católicos – porque ainda não existiam protestantes na Inglaterra quando ele se iniciou. Este tipo de erro na análise histórica é lamentável, e está a enganar muita gente.
De igual modo, quando Saramago escreve a peça de teatro em que relata as escaramuças entre protestantes e católicos na Alemanha do século 17, cai exactamente no mesmo erro de interpretação histórica: os conflitos tribais na Alemanha existiram sempre e ainda antes da Reforma. Acima de tudo, prevalece a ideia estúpida de que todos os conflitos na Europa tiveram origem religiosa, o que é de um facciosismo de bradar aos céus – como se fosse possível imaginar que, se as religiões não existissem, tudo seria paz e harmonia na Idade Média. Ridículo. O feudalismo chinês foi tanto ou mais sangrento que o europeu, e no entanto, a componente de divergência religiosa não teve praticamente nenhuma expressão na China feudal.

No caso de Dawkins – e no de Saramago – assistimos a casos típicos de desonestidade intelectual. Ambos são intelectualmente desonestos na sua sanha irracional anti-religiosa. Podem tentar enganar alguns – a elite estupidificada – mas seguramente que não enganarão a maioria.

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