perspectivas

Terça-feira, 4 Dezembro 2007

A ideologia neoliberal

O Neoliberalismo tem muito pouco a ver com o liberalismo capitalista clássico, que sempre foi uma teoria económica com repercussões na política, e não uma ideologia política propriamente dita. O Neoliberalismo resulta de uma filosofia antropocêntrica, à semelhança do Marxismo, e o actual tipo de globalização está directamente relacionado com a expansão da ideologia política resultante da filosofia de Hayek.

As influências filosóficas de Hayek

Já aqui falei em Kant e em Heidegger, mas ainda não me referi a Hume e a Aristóteles; os quatro são os filósofos em que se sustentou Hayek para lançar as bases da sua filosofia.

Hayek foi buscar a Ética Nicomaqueica de Aristóteles no que se aplica aos hábitos humanos, através dos quais o Homem constrói – de forma instintiva – um padrão de comportamentos e de expectativas tácitas em relação aos seus semelhantes, solidificando-o com a razão, com a experiência (empirismo) e com o tempo. Estes padrões de comportamento – “tendências”, segundo Hayek, “hexei”, segundo Aristóteles – são inconscientes, isto é, não são racionalizados pela nossa mente cartesiana, mas adoptados por ela. Esta visão aristotélica foi mais tarde retomada por Kant com o seu conceito de “substância transcendental” ou “a priori”. De Aristóteles a Kant, Hayek defende o ponto de vista de que as melhores capacidades do Homem provêm da nossa mente não-cartesiana e que essas capacidades inconscientes estão subjacentes à mente consciente, sendo que todas as operações conscientes se devem a essas capacidades inconscientes que constituem o “a priori” de Hayek. A diferença entre Hayek, por um lado, e Aristóteles e Kant por outro, é que estes últimos atribuíram a “substância humana” ou o “a priori” a uma metafísica implícita, enquanto que Hayek incorpora na sua filosofia o cepticismo de Hume e o existencialismo de Heidegger para fugir à espiritualidade aristotélica e kantiana.

A coexistência – na raiz da filosofia de Hayek – do “hexei” aristotélico com o cepticismo de Hume, com a justificação racional do fundamento da fé encontrado em Kant, e com o relativismo moral desconstrutivista de Heidegger, constitui um elemento de constante tensão essencial na filosofia de Hayek que leva a sua incoerência ideológica à ininteligibilidade. Por exemplo, seria como a tensão essencial que existiria certamente numa filosofia que tentasse conciliar o marxismo mais ortodoxo com o capitalismo mais liberal.

A Hume, Hayek foi buscar o cepticismo em relação ao empirismo científico, e principalmente o cepticismo em relação à Verdade e à validade da moral, da ética e das tradições culturais humanas. Deste cepticismo hayekiano, mesclado com o materialismo desconstrucionista de Heidegger, resulta a dúvida sistemática hayekiana em relação aos valores da tradição humana, à ética e à moral, o que conduziu ao relativismo moral contemporâneo do neoliberalismo que nega qualquer possibilidade racional de escolha (livre-arbítrio) entre teorias opostas ou divergentes, ou nega a possibilidade de adopção de princípios morais de uma forma racional e/ou objectiva.

O relativismo moral é essencial para a sobrevivência do neoliberalismo e do tipo de globalização selvagem que temos, e por paradoxal que pareça, o relativismo moral é também condição imprescindível para a sobrevivência do marxismo cultural como projecto político. Por isso, podemos dizer com toda a lógica e propriedade que o que une o Bloco de Esquerda ao capitalismo global é o relativismo moral, e por isso, a Esquerda a que pertence o BE e o actual PS de José Sócrates alimenta e reforça o monstro político em que se transformou o neoliberalismo selvagem globalizado – como filosofia que deu origem a uma teoria económica e a uma ideologia política. Combater o neoliberalismo selvagem com o marxismo cultural, é exactamente como deitar gasolina para uma fogueira, porque se baseiam ambos nos mesmos pressupostos filosóficos, e as diferenças não são substanciais mas formais.
O combate ideológico ao neoliberalismo global selvagem que desvaloriza a vida humana e que se substituiu ao colonialismo no mundo terá que ser efectuado pela via dos Valores radicados em princípios do Respeito pela Vida e pela Dignidade Humana – sem excepções.

Hayek repudia a visão do marxismo-freudiano (ou marxismo cultural) que acredita – através da sua Teoria Crítica – que as normas ou regras são instrumentos de opressão de classe, atribuindo ele (Hayek) a essas normas ou regras um valor “científico” que determina a capacidade de adaptação do ser humano às contingências da vida, servindo assim – segundo Hayek – as regras e normas para libertar o Homem e não para o escravizar, ao contrário do que defendem os marxistas culturais. Contudo, tanto o cepticismo de Hume como o desconstrucionismo relativista moral de Heidegger estão presentes, tanto no Neoliberalismo de Hayek, como no Marxismo Cultural.

Se por um lado Hayek acredita nas virtudes do “a priori” kantiano, recusa a ideia de transcendentalidade da substância humana (espiritualidade) desse “a priori” – e nem poderia ser de outra maneira, porque assim não sendo, a sua filosofia não daria lugar a uma ideologia política, depois da supremacia cultural das filosofias materialistas e mecanicistas do século XIX e XX; hoje, qualquer teoria política tem que ser antropocêntrica para poder vingar à luz de uma ciência determinista que já perdeu o seu determinismo. Parece absurdo? É assim o mundo em que vivemos.

Para Hayek, a moral não resulta de uma transcendência humana intrínseca, mas da “selecção natural das tradições” (sic, “Road to Serfdom”). Contudo, o “tradicionalista” Hayek é muitas vezes forçado a encontrar muito boas razões para a sua adesão à moralidade tradicional e bafienta quando defende princípios como a “ordem de mercado”, o Estado de Direito tradicional e a necessidade das leis existentes, que considera imprescindíveis para a sua visão de sociedade – ou seja: na senda da afirmação dos seus princípios filosóficos, Hayek adopta uma agenda política de reformas radicais para “libertar o processo de crescimento espontâneo dos obstáculos que a loucura humana erigiu” (sic, Ib.); mas se esses obstáculos que “a loucura humana erigiu” pertencem à nossa herança cultural tradicional, ficamos sem saber onde é que Hayek quer colocar a alavanca reformista radical para acabar com a herança cultural tradicional; trata-se de um “loop” ideológico, de entre uma série de incoerências na teoria de Hayek que torna a sua filosofia ininteligível.

Devo dizer que a minha discordância de base – de essência – com Hayek é a sua visão materialista do ser humano desprovido de alma, e quando ele cria as bases do “utilitarismo evolucionário” que opõe tradicionalmente Kant a Bentham, de que falarei a seguir.

O “utilitarismo evolucionário” de Hayek

Hayek introduziu o conceito de “selecção de valores” (a moral como “selecção natural das tradições”).

Já me tenho referido a Bentham e ao seu “Utilitarismo”, que é uma filosofia que advoga o sacrifício das minorias – que pode incluir a necessidade da sua eliminação física – para que uma maioria viva materialmente bem. Por exemplo, o aborto legalizado é um exemplo do utilitarismo moderno, mas não só: a insensibilidade crescente (e que é subliminarmente incentivada pelo neoliberalismo global) em relação a problemas como o do Darfur ou do Tibete, revelam uma tendência preocupante para uma crescente presença do Utilitarismo de Bentham nas sociedades contemporâneas.

Hayek pretendeu resolver o problema da histórica oposição de Kant a Bentham com a introdução do “utilitarismo evolucionário”. Para isso, Hayek começa por criticar os neo-darwinistas que defendem a ideia de que a Evolução “selecciona os indivíduos”.

Aqui, Hayek vai buscar a definição de “Ética” de Bertrand Russell (outro materialista) segundo o qual a Ética é a simples soma aritmética das manifestações dos “desejos individuais”; se uma pessoa deseja alguma coisa e essa coisa passa a ser aceite pela maioria, passa a fazer parte da Ética. Seguindo Russell, se uma pessoa deseja matar os judeus e esse desejo é compartilhado pela maioria, o holocausto passa a fazer parte de uma ética tão válida como qualquer outra.

Assim, Hayek considera que os neo-darwinistas estão errados, porque a lógica da evolução implica uma fundamental desproporção entre os indivíduos e os respectivos grupos: os indivíduos não podem viver sem o grupo, enquanto o grupo só necessita do indivíduo se este for indispensável à sobrevivência do grupo. Se o indivíduo não for indispensável à sobrevivência do grupo, ele torna-se dispensável e provavelmente o próprio grupo elimina-o fisicamente. Radica aqui a ideia de que o mendigo não é indispensável para a sobrevivência do grupo, e portanto, pode perfeitamente ser fisicamente eliminado; naturalmente que Hayek não defende esta ideia da forma como a expus, mas ela está implícita no seu conceito de “utilitarismo evolucionário”.

Portanto, o “utilitarismo evolucionário” de Hayek é a adopção do Utilitarismo de Bentham e de Stuart Mill, ao mesmo tempo que Hayek justifica o conceito kantiano da necessidade de “obediência instintiva” em relação à ética e à moral por parte dos humanos, não devido à substancialidade transcendental do “a priori” de Kant, mas devido à necessidade da optimização do grupo no sentido da selecção das tradições que legará a moral às próximas gerações, isto é, a necessidade da obediência à ética (defendida por Kant) deve-se ao facto (segundo Hayek) de a maior parte dos indivíduos não compreender o “modus operandi” das normas, que para a maioria constituem os “valores” que funcionam numa cadeia complexa de causas e efeitos que interligam todos os indivíduos em sociedade. A necessidade de obedecer às normas (segundo Kant) existe de facto (segundo Hayek), mas nada tem de transcendental e está exclusivamente ligada à sobrevivência do grupo. No fundo, Hayek reduz a ética à noção de “desejo” de Russell, e justifica assim todo o tipo de barbaridades em nome da sobrevivência do grupo. Mais: acontece que o “grupo” pode ser uma parte restrita da sociedade em geral; um grupo pode ser um plêiade ou elite social que determina os valores que devem ser obedecidos, uma vez que – segundo Hayek – não existe a possibilidade de adopção de princípios morais de uma forma racional e/ou objectiva, mas segundo uma lógica de submissão do indivíduo aos interesses do grupo.

A filosofia de Hayek selecciona o grupo e não o indivíduo. Quando os neoliberais da blogosfera exaltam Hayek como sendo o paladino da afirmação do indivíduo na sociedade, não sabem absolutamente nada do que estão a dizer; trata-se ignorância pura mascarada pela “doutorice” de detentores de alvarás de inteligência sancionada pela nomenclatura política “in force”.

O “utilitarismo evolucionário” de Hayek é a transposição literal da lógica da selecção das espécies para o funcionamento da sociedade, como se o ser humano não passasse de um mero conjunto de genes. Segundo a lógica de Hayek levada ao limite, a) os membros mais fracos da sociedade são perfeitamente dispensáveis e passíveis de eliminação física; b) se a Moral não é algo com origem transcendental, passa ser um simples produto da História e portanto deixamos de ter um verdadeiro critério para os valores, e c) os julgamentos morais deixarão de poder ser realizados, seja em relação aos actos humanos individuais, seja em relação à evolução de uma sociedade em determinado sentido.

Hayek é, nada mais, nada menos, do que um historicista – como o é um vulgar marxista. Nem sequer estudou economia na sua juventude (estudou Leis). Toda a teoria económica de Hayek é construída sobre os pressupostos da sua filosofia, e portanto considero um absurdo que se defenda a sua teoria económica sem se analisar primeiro a estrutura de base da sua filosofia. Eu posso querer a paz, e tu também; mas só analisando os pressupostos ideológicos subjacentes aos nossos “desejos de paz”, podemos saber se existe uma comunhão de ideias sobre a forma como essa paz deve ser alcançada. Por exemplo, existe gente que quer a paz através da guerra.
Eu até posso concordar com algumas teorias económicas de Hayek, que derivam directamente do liberalismo clássico; concordo mesmo com muitas ideias políticas publicadas por Hayek, como por exemplo, a ideia de que o “construtivismo” e a “engenharia social” da ciência política de origem marxista são a “procura do impossível”, isto é, são absurdas e irracionais – não porque sejam de Hayek, mas porque são obviamente lógicas e historicamente comprováveis; mas isso não significa que automaticamente considere a sua teoria como sendo positiva, porque a sua filosofia de base é tão negativa como a do estalinismo derrotado pelo progresso humano das ideias.
Mais importante que a forma de uma teoria, é a substância dessa teoria; por isso, a solidariedade social terá que ser mais do que algo resultante de um capricho egoísta do sistema neoliberal, e a justiça social terá que ser uma virtude inerente ao ser humano e não fazendo parte da impessoalidade do Estado – como é defendido pelo marxismo cultural –, fazendo jus a Aristóteles que considerava a Justiça a mais nobres das virtudes.

A visão do mundo segundo Hayek tornou-o ainda mais pobre do que era – tanto do ponto de vista espiritual, como do ponto de vista material.
O progresso material do terceiro-mundo seria sempre inexorável, com este neoliberalismo ou com uma globalização mais consentânea com os valores da dignidade humana, e portanto, o argumento de que o neoliberalismo é causa de progresso nos países pobres é a falácia de quem diz que as coisas acontecem assim porque não podem acontecer de outra maneira.
A miséria espiritual é uma evidência, a nível global. O relativismo moral transporta a humanidade a uma situação de “ética rasa” desprovida de uma hierarquia de valores universal, em que vale tudo e tudo é justificável, com consequências imprevisíveis para o futuro próximo.

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2 Comentários »

  1. Orlando, o que nos separa é apenas a fé.
    A minha, apenas reside na humanidade e no melhor que ela pode ser e representar…
    Relativamente à análise não poderia deixar de concordar na sua globalidade, embora não aceite que o marxismo e neoliberalismo sejam ideologias. Quanto muito, sobretudo o marxismo, são um aglomerado de ideologias/teorias e obviamente “opostos que se atraem mutuamente”, concordo em absoluto. Até iria um pouco mais longe e diria mesmo que são duas faces da mesma moeda.
    Agora, o que nos revelará o futuro é no mínimo preocupante, porque no fundo “somos aquilo que a cultura (acculturation) faz de nós”…

    Comentário por matrix — Segunda-feira, 6 Outubro 2008 @ 7:28 pm | Responder

  2. São ideologias (vou escrever sobre isso). A ideologia também pode ser uma espécie de fé, um desejo mundano. A Wikipédia define “ideologia”:

    An ideology is a set of beliefs, aims and ideas, especially in politics. An ideology can be thought of as a comprehensive vision, as a way of looking at things (compare Weltanschauung), as in common sense (see Ideology in everyday society below) and several philosophical tendencies (see Political ideologies), or a set of ideas proposed by the dominant class of a society to all members of this society. The main purpose behind an ideology is to offer change in society through a normative thought process. Ideologies are systems of abstract thought (as opposed to mere ideation) applied to public matters and thus make this concept central to politics. Implicitly every political tendency entails an ideology whether or not it is propounded as an explicit system of thought.

    Comentário por O. Braga — Segunda-feira, 6 Outubro 2008 @ 9:35 pm | Responder


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