perspectivas

Sábado, 17 Novembro 2007

A probabilidade da Europa (2)

Filed under: cultura,Europa — O. Braga @ 2:28 pm
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Quando Spengler tem razão

Oswald Spengler tem razão quando se refere à decadência de valores morais e mesmo à perseguição religiosa na Europa moderna. Em alguns países europeus, como em Inglaterra, Holanda, Bélgica, Suécia e Espanha, as religiões em geral e o cristianismo em particular, estão já sujeitos a uma perseguição de Estado dissimulada em nome da acomodação de valores de decadência na cultura.

Dou um exemplo que pode ilustrar o que digo: durante a maturação da nossa Cultura que atingiu o seu apogeu com a Civilização que aconteceu entre o fim da Alta Idade Média (Renascimento) e a Revolução Industrial, a religião esteve sempre presente e em nenhum momento um dos princípios religiosos que marcava o compasso ético da sociedade, o casamento, foi posto em causa, não só como instituição em si, mas como resultado de um contrato de união entre um homem e uma mulher. Uma das características da civilização europeia assentou no princípio da família monogâmica, e mesmo sabendo que esse princípio não era seguido aqui e ali, a monogamia foi sempre uma referência ética e moral que orientou a cultura cristã europeia. Hoje, esse princípio continua estabelecido numa lei que já não tem ligação causal com a ética cristã, e por isso, em alguns países já existe uma flexibilidade cultural que revela a decadência da civilização, não só com a tolerância em relação à cultura poligâmica islâmica, como na renúncia cultural ao casamento como um contrato entre um homem e uma mulher, como a decadência dos valores na educação das crianças que se revela na capacidade legal de adopção independentemente dos princípios civilizacionais da monogamia.

Quando a União Europeia pretende a incorporação da Turquia, dá razão a Spengler, quando este diz que a decadência de uma cultura (e da civilização) se dá com a subordinação do poder político ao dinheiro. A entrada da Turquia na União Europeia obedece a critérios económicos disfarçados por motivações securitárias; é absurdo que se diga que a segurança da Europa esteja em causa com a Turquia fora da Europa. O que está em causa é a subordinação dos princípios e valores culturais e políticos da civilização europeia ao dinheiro, e portanto, a cultura europeia está moribunda.

Nos Estados Unidos, acontece um fenómeno um pouco diferente, em que se tenta compensar a subordinação dos princípios e valores ao dinheiro com organizações religiosas fortes e activas. A decadência americana revela-se na sua política externa mais do que na sua política interna que é vigiada pelas organizações religiosas. Por isso, não podemos incluir os Estados Unidos, a Austrália, e a maioria dos países da América do Sul no processo de decadência europeia. Somente os países mais ligados culturalmente à Europa, como o Canadá, apresentam os mesmos sinais de decomposição cultural. Por isso, é de supor que os Estados Unidos continuem a manter o seu valor civilizacional no “mundo do devir”.
O Japão é um farol cultural no extremo-oriente, o que significa que é uma referência civilizacional. Embora o Japão se tenha permeabilizado a uma certa decadência europeia dos valores, manteve a sua essência cultural que lhe permitirá um caminho civilizacional diferente do da Europa. A China, com a sua enorme população, integra-se nesse caminho civilizacional diferente que une, sob o ponto de vista cultural, a maioria dos países do extremo-oriente. A Índia será o pólo ocidental dessa nova civilização que desponta, em que os valores, os princípios éticos, morais e políticos subordinarão o poder do dinheiro.

Quando Spengler não tem razão

Não concordo com Spengler quando este diz que qualquer esforço em contrariar a tendência decadente da cultura europeia terá o nulo como resultado. Embora a História possa mostrar a sua tendência e vontade, terá sempre que contar com a vontade dos homens, porque a História é dos homens. O que os homens lúcidos terão que fazer é organizarem-se, seja na política ou na cultura, seja mesmo na clandestinidade, para que sejam contrariados os elementos de decadência cultural na Europa. A nossa guerra cultural de que depende uma Europa forte no futuro passa pelas seguintes premissas:

Subordinação do dinheiro ao poder político: esta premissa pode implicar o reforço do princípio da nacionalidade, se a União Europeia não se mostrar sensível a este argumento cultural. O poder económico nunca poderá subordinar o poder político e os valores éticos e morais, e é obrigação dos homens lúcidos um empenho activo, a todos os níveis, para que a política tenha o primado do poder.

Valorização cristianismo e da sua ética: A luta pela predominância dos valores éticos cristãos na nossa sociedade pode ser uma luta de vida ou morte, e está ligada ao princípio da subordinação do dinheiro ao poder político.

O Poder Judicial como garante dos princípios civilizacionais: O poder judicial deve ser reforçado na sua independência, e embora possa parecer um paradoxo, esse reforço passa por uma mais alargada relação entre o poder judicial e a sociedade em geral, relação que não se processe quase exclusivamente através do poder político – como acontece hoje – mas estabelecendo ligações próprias e independentes do poder político, através de instituições adequadas para o efeito.

Portugal e a Europa dependem de nós. Existe a necessidade de dar uma guerra sem quartel a uma tendência decadente dos nossos valores culturais, porque é nosso direito e obrigação reagir e fazer da História, ao contrário do que pensa Spengler, o resultado da nossa vontade.

3 comentários »

  1. […] Continuação […]

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    Pingback por A probabilidade da Europa (1) « per-espectivas — Sábado, 17 Novembro 2007 @ 2:29 pm | Responder

  2. É apenas para informar que o blog The Embassy, mencionado nos vossos links mudou de nome e de endereço. Ahora chama-se “A Embaixada” e está em http://a-embaixada.blogspot.com

    Por favor actualizem o link. Obrigado,

    Miguel

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    Comentar por Miguel — Sábado, 17 Novembro 2007 @ 3:32 pm | Responder

  3. Eu conheci um menino que foi criado por duas lesbicas e é cheio de traumas, tentou suicidio duas vezes e vive comendo para compensar o trauma psicologico que surgiu dessa criação. A negação dos valores de família é absurda, não necessariamente por uma questão religiosa, mas por uma questão biologica: uma criança surge de um homem e uma mulher, e esse modelo familiar é que é o melhor para as crianças, para que elas se desenvolvam melhor e que haja uma civilização melhor no futuro. Negar isso é como destruir nossa cultura, portuguesa e europeia pela base.
    É MAIS FÁCIL HOJE PREVER UM FUTURO BRILHANTE PARA O LÍBANO DO QUE PARA A BELGICA.

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    Comentar por Rodrigo César Nunes Pino — Domingo, 23 Maio 2010 @ 5:34 pm | Responder


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