perspectivas

Sábado, 17 Novembro 2007

A probabilidade da Europa (1)

Atenção: o texto que se segue está escrito como se da mente de Oswald Spengler (1880 – 1936) tivesse surgido, e o bloguista desaparece de cena e não assume qualquer responsabilidade ideológica no seu conteúdo.


“O meu nome é Oswald Spengler, e embora tenha vivido num Espaço-tempo diferente do vosso, penso que as minhas ideias se mantêm mais actuais do que nunca. Os actuais sinais de decadência cultural na Europa indiciam o seu estado terminal. Qual é a importância da Cultura numa sociedade? Qual é a importância da Religião e da Moral numa civilização? Será que o poder económico se deve equivaler, ou mesmo suplantar o poder político? São questões que eu vos trago à coacção, com a colaboração inestimável do Orlando Braga.

A História Viva

A História e a Natureza são duas realidades metafísicas diferentes. A Natureza é o mundo dos “produtos do devir” e a História é o “mundo do devir”. Na Natureza tem validade a “necessidade causal” que tem em si uma lógica mecânica, que é própria do que é singular e não-repetitivo. Para a História, existe uma lógica orgânica, e desta surge a Cultura. A História deve ser entendida como um organismo vivo, que nasce, cresce e morre como todos os organismos, e a Cultura é a síntese, a forma e a fisionomia que resulta desse organismo vivo. Toda a Cultura vive de acordo com leis absolutamente estritas inerentes ao funcionamento da lógica orgânica da História, com tempos de duração dos estádios ou graus de evolução cultural absolutamente definidos e determinados.
Algumas culturas não passam de um estádio ou grau incipiente, mas não deixam por isso de fugir a uma lógica orgânica pré-estabelecida de evolução cultural. Não terão essas culturas passado a estádios superiores por uma questão de imposição dialéctica de outras culturas, e quando completam a sua tarefa chegam ao seu termo.
O clímax de uma Cultura, o estádio mais supremo a que pode aspirar, é a “civilização”, onde a Cultura atinge estados extremos de refinamento de que são apenas capazes os homens superiores de que Nietzsche nos falou através de Zaratustra. Contudo, é totalmente impossível impedir o fim de uma civilização e, consequentemente, o fim de uma Cultura.

Civilização

Quando uma Cultura atinge o estádio de “civilização”, inicia inexoravelmente a sua decadência, e mesmo que alguns cidadãos mais iluminados se organizem, seja em partidos políticos, seja em movimento intelectuais ou culturais, no sentido de impedir essa decadência, não fazem mais do que lutar contra os ventos da História, e o que irão conseguir com as suas iniciativas é o Nada Absoluto.

Sendo a Cultura um organismo vivo, qualquer manifestação cultural é uma parte necessária dessa Cultura, e uma manifestação cultural não faz sentido se for exercida fora da sua Cultura. Toda a Cultura tem uma forma específica de olhar e valorizar a Natureza, isto é, cada Cultura tem uma natureza própria, tem uma ciência específica, tem uma filosofia característica, uma moral inerente, que estão todas estas indissoluvelmente ligadas a todo o organismo vivo que constitui o “todo cultural”, a Cultura que vive. Quando o conjunto de todas estas partes culturais evolui em harmonia com o “todo cultural” (o que acontece como num organismo vivo que cresce e atinge a fase adulta) e atinge o estádio de “civilização”, a decadência cultural exprime-se pela sistemática negação dos valores culturais que levaram essa Cultura ao clímax civilizacional.

O Destino e a decadência

Todo o desenvolvimento histórico se submete a um Destino inexorável, a uma necessidade intrínseca que preside a esse desenvolvimento e a todas as suas vicissitudes. Por exemplo, a Cultura europeia não atingiria o grau de civilização sem o desfecho da batalha de Maratona, que foi uma escaramuça menor entre duas cidade-estado da Antiga Grécia, que opôs, de um lado, o prevalecimento de uma cultura religioso-teocrática, e do outro a vitória do espiritualismo helénico. A vitória desta segunda possibilidade ideológica numa escaramuça no seio de uma pequena Cultura tornou possível a civilização europeia. Naturalmente que podemos dizer que se acontecesse a vitória da primeira possibilidade, provavelmente a génese da Europa ficaria adiada e não extinta como possibilidade histórica; contudo, entraríamos em pura especulação.

Os homens podem tentar opor-se ao Destino de uma Cultura a que pertencem, mas só perdem tempo: o insucesso das suas acções é inevitável, porque se sujeitam a uma reprovação moral e histórica. A única acção justificada e justificável é o reconhecimento do Destino e a orientação na mesma direcção em que ele se manifesta. Perante o Destino da decadência actual da Europa, nós não temos a liberdade de fazer isto ou aquilo, mas a liberdade para fazer aquilo que é necessário e conveniente a esse Destino, ou não fazer absolutamente nada. Qualquer tarefa que tenha surgido por necessidade da História irá avante com a ajuda de cada um dos indivíduos que compõem a Cultura, ou contra eles.

A Cultura europeia, neste final de ano de 2007, apresenta-se já moribunda, a civilização europeia atingiu o seu ocaso. Assistimos à crise da Moral e da Religião, especialmente desta última porque a essência de todas as civilizações é a religião; ao prevalecer do marxismo cultural que subverte as relações naturais do poder; à imposição do neoliberalismo radical que faz a equivalência entre o dinheiro e o poder político, o que significa o triunfo do dinheiro sobre o espírito.
Em suma, o desabar de todos os valores de que Nietzsche foi o profeta mas que a Europa mostra já em acto, são os indícios precursores infalíveis da morte da civilização ocidental. O último acto desta civilização será o retorno a uma forma de cesarismo, que constituirá o prelúdio de um retorno ao estado primitivo.

A prova de que o que eu, Oswald Spengler, aqui vos digo é verdade, pode ser colhida por vós por pura observação sobre o que vos rodeia neste final de ano de 2007. Quando analisamos a formação do Leviatão Europeu, temos a tendência a pensar que se trata de um reforço dos países da Europa em relação a um mundo em globalização; pensamos na União Europeia como um conjunto de peças de um puzzle cultural pertencentes a uma mesma civilização e que se juntam, formando um todo para melhor imporem os seus valores culturais e interesses às outras culturas do mundo. Mas quem assim pensa está totalmente errado. O que a União Europeia significa é o regresso anunciado ao cesarismo, aos primórdios da sua organização cultural, é a tentativa desesperada – mas absolutamente ineficaz – de “fuga para a frente” para evitar o colapso da sua civilização e a subalternização mundial da sua Cultura já decadente. O que a União Europeia está a fazer é tentar enganar a História, como o doente terminal que se convence que a ciência ainda lhe pode salvar a vida.

Oswald Spengler, 17 de Novembro de 2007”


Continuação

8 comentários »

  1. […] Oswald Spengler tem razão quando se refere à decadência de valores morais e mesmo à perseguição religiosa na Europa moderna. Em alguns países europeus, como em Inglaterra, Holanda, Bélgica, Suécia e Espanha, as religiões em geral e o cristianismo em particular, estão já sujeitos a uma perseguição de Estado dissimulada em nome da acomodação de valores de decadência na cultura. Dou um exemplo que pode ilustrar o que digo: durante a maturação da nossa Cultura que atingiu o seu apogeu com a Civilização que aconteceu entre o fim da Alta Idade Média (Renascimento) e a Revolução Industrial, a religião esteve sempre presente e em nenhum momento um dos princípios religiosos que marcava o compasso ético da sociedade, o casamento, foi posto em causa, não só como instituição em si, mas como resultado de um contrato de união entre um homem e uma mulher. Uma das características da civilização europeia assentou no princípio da família monogâmica, e mesmo sabendo que esse princípio não era seguido aqui e ali, a monogamia foi sempre uma referência ética e moral que orientou a cultura cristã europeia. Hoje, esse princípio continua estabelecido numa lei que já não tem ligação causal com a ética cristã, e por isso, em alguns países já existe uma flexibilidade cultural que revela a decadência da civilização, não só com a tolerância em relação à cultura poligâmica islâmica, como na renúncia cultural ao casamento como um contrato entre um homem e uma mulher, como a decadência dos valores na educação das crianças que se revela na capacidade legal de adopção independentemente dos princípios civilizacionais da monogamia. […]

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    Pingback por A probabilidade da Europa (2) « per-espectivas — Sábado, 17 Novembro 2007 @ 2:28 pm | Responder

  2. Estamos a assistir á decadência da Europa, sim senhor. Mas esta decadência não tem nada a ver com religião, casamentos e outras coisas que tais.

    A antiga Grécia era constituída por cidades estado independentes. O fulgor grego veio deste amalgama de cidades, umas mais importantes que outras, umas entrando em decadência enquanto outras evoluiam.

    A unificação da Grécia por Filipe da Macedónia e seu filho Alexandre ditaram a morte da Grécia. Passados tempos a Grécia estava condenada a abastecer o Império Romano de escravos intectuais.

    O fulgor europeu deu-se enquanto a Europa estava dividida em nações, culturalmente e económicamente diferenciadas. Enquanto umas definavam outras despertavam. No seu apogeu a Europa dominava o Mundo. Praticamente não havia local em todo o planeta que não fosse de uma forma ou outra controlado por alguma nação europeia.

    E, as nações que não se expandiam geograficamete, expandiam-se intelectualmente.

    O Mundo actual é o Mundo que os europeus, de todas as nações, criaram.

    E isto estava a continuar, umas nações mais religiosas, outras mais laicas, outras mais intelectuais, outras mais mundanas e era esta amalgama que dava importância e poder à Europa.

    Mas agora isto já não está a acontecer, no centro do continente instalou-se um rolo compressor que está a uniformizar e a destruir a cultura das diversas nações europeias, esse rolo compressor á a União Europeia.

    No fim a desgraça grega repetir-se-à e a Europa estará condenada a fornecer escravos intelectuais aos Estados Unidos e, mais tarde, quando estes forem ultrapassados, à China.

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    Comentar por O Raio — Quinta-feira, 22 Novembro 2007 @ 2:01 am | Responder

  3. Meu caro raio: a decadência está sempre ligada à cultura. Está nos livros.

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    Comentar por Orlando — Sexta-feira, 23 Novembro 2007 @ 5:39 pm | Responder

  4. Penso que a raíz de tudo isso é a democracia, que tem como premissa básica o prevalecimento da vontade da maioria. Mas a maioria, em geral, nivela por baixo, permitindo todo tipo de esquisitice, relativizando todos os valores morais e não mantém um firme propósito, que só seria possível através de um regime forte e purista. Por isso a liberdade proporcionada pela democracia parece boa. Eu também curto, mas a longo prazo leva ao desastre de uma cultura refinada e a decadência de uma civilização.

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    Comentar por Wilson Prokoski — Sexta-feira, 24 Outubro 2008 @ 6:27 pm | Responder

  5. adorei tudinho viu boa sorte para vc

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    Comentar por sJoana — Sexta-feira, 14 Agosto 2009 @ 8:58 pm | Responder

  6. achei bastante interesante………adorei

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    Comentar por jeniffer — Sexta-feira, 6 Novembro 2009 @ 11:36 am | Responder

  7. Um dos grandes problemas da decadência no mundo, na minha opinião, é a questão da laicidade e, principalmente, do Capitalismo. A palavra já diz a que veio: o importante é o capital, o dinheiro e não as pessoas. A laicidade, por sua vez, dá às mãos ao ceticismo e ao ateísmo. Preciso dar exemplo de uma nação que possui este ateísmo exarcebado? China..acho que não preciso nem comentar a questão dos direitos humanos nesse país, leis, ou a ditadura. Também não preciso comentar a Holanda e a a busca cada vez maior da democratização da eutanásia ( muitas vezes sem o consentimento dos pacientes — alguns nem terminais são, mas a familia e o Estado querem se livrar deles ), dentre outros.
    Quanto aos intelectuais, não é só na Europa que existem intelectuais não. Na América, Na Índia, etc..Alguns podem até não acreditar, mas acredito que no futuro, a Índia além de ter uma grande quantidade de intelectuais dentro do próprio país, vai exportar ainda mais essas mentes “geniais” para a Europa que sofrerão com o problema demográfico. Afinal, lá por 2025..a Índia será a nação com uma das mais populosas populações jovens ( em torno de 25/26 anos ), enquanto os EUA e Europa aumentarão a média de idade da população produtiva. E a China, não acredito que vá muito longe, porque com essa política de 1 filho, já está começando a ter grande população envelhecida e vai ter problemas de reposição.
    E acrescentando uma coisa apenas: muitos dos conhecimentos que a maioria dos historiadores diz ser de origem européia, na realidade, nasceram na África. As pessoas, em geral, só enxergam a África em relação á escravidão, magia de curandeiros, um lugar de atraso, onde já houve grandes reinos e civilizações como a egípcia ( que era negra )..favor esquecer aquele estereótipo de Elizabeth Taylor.

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    Comentar por Nathalia — Quarta-feira, 16 Dezembro 2009 @ 3:19 am | Responder

  8. O que leva as sociedades à sua destruição é a decadência dos valores morais e o igualitarismo. Isso já aconteceu em sociedades antigas e se repete de novo. Quando os gregos passaram a encarar a sociedade não como uma soma de famílias mas como a soma de indivíduos,ela passou a entrar em decadência e o igualitarismo, ao querer acabar com hierarquias e com as diferenças culturais, vai levando a sociedade para a decadência também (atualmente acredito que o exemplo mais visível é a UE).

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    Comentar por alice — Terça-feira, 25 Janeiro 2011 @ 7:31 pm | Responder


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