perspectivas

Sábado, 17 Novembro 2007

A ciência e o mito

“A fé no nexo causal é uma superstição” – Ludwig Wittgenstein (1889-1951)

È interessante a opinião da populaça de que 1) a ciência não é dogmatizável, e 2) de que os mitos modernos não existem, porque partindo do princípio de que a ciência não é dogmatizável, as pessoas erradamente concluem que cabe exclusivamente à ciência denunciar e catalogar os mitos – o que dá muito jeito à política e ao dinheiro que manipulam e controlam a ciência.

A partir do momento em que um mito é considerado como tal pela ciência, ele perde a sua força cultural e passa de “mito” (porque o mito é inconsciente e irracional) a “moda” – sendo que a moda é um mito tornado colectivamente consciente e “racionalizado”.
Por exemplo (brincando um pouco com a situação): o “aquecimento global” considerado como sendo um fenómeno nunca antes ocorrido no nosso planeta, para a política é “ciência”, para a ciência é um “mito”, e para mim é uma “moda”.

A pior coisa que se pode fazer a um relativista de Esquerda é relativizar-se o princípio da validade científica do “aquecimento global” por via do CO2, porque o marxismo já foi a enterrar (paz à sua alma). Já sem a chancela científica que valide o marxismo, o que sustenta ideologicamente a Esquerda moderna é a tentativa, muitas vezes conseguida, de dogmatização da Ciência.

As pessoas não se dão conta de que a recusa “a priori” da hipótese de dogmatização da ciência se transformou num mito moderno. Wittgenstein chegou à conclusão de que o mundo é a totalidade dos factos atómicos que ocorrem independentemente uns dos outros, e que por isso não existe nenhum nexo causal que torne possível inferir os acontecimentos do futuro a partir do presente. Que fique claro que Wittgenstein foi um positivista (neo-empirista), e não um idealista. A honestidade dos positivistas modernos, como Wittgenstein, contrasta com a desonestidade dos ateístas e existencialistas (e socialistas), de Bertrand Russell a Derrida. Hoje, é a própria ciência da “metafísica da causalidade” que é está a colocar em cima da mesa da investigação todas as outras possibilidades metafísicas.

O corolário da conclusão de Wittgenstein é o de que não existem propriamente leis naturais, porque a regularidade com que as “leis naturais” se exprimem ou se manifestam pertencem apenas à Lógica e “fora da Lógica tudo é acontecimento” (sic). A noção de probabilidade de ocorrência de um fenómeno natural, segundo Wittgenstein, não é nada mais do que “ignorância”, porque uma proposição (1) não é, em si mesma, provável ou improvável e na medida em que o facto referente a essa proposição ocorre ou não sem que existam soluções intermédias, isto é, não existe mais nada que nos permita antecipar a ocorrência de um facto senão a própria ocorrência desse facto. Tudo o mais é a utilização científica da probabilidade da Lógica decorrente da incerteza, quando não se conhece perfeitamente um facto mas se sabe algo sobre a sua forma – isto é, sobre a sua possibilidade, e nada mais do que isto.

A ciência quântica veio corroborar esta opinião de Wittgenstein: o determinismo científico já não existe, morreu em meados do século 20, e com ele, faleceu o racionalismo cartesiano. No entanto, ainda há gente em pleno século 21 que acredita que a ciência não é dogmatizável, como outros acreditam que o Homem não pisou o solo lunar.

As metafísicas

Toda a filosofia se baseia, em primeiro lugar, na totalidade da consciência (2), e procura – partindo desta base – esclarecer o mistério do mundo e da vida. Isto significa que o filósofo tem que ter uma visão global do mundo, que requer cada vez mais uma interdisciplinaridade. Se um filósofo nunca foi, necessariamente, alguém especializado numa determinada área científica, hoje será, provavelmente, alguém multi-especializado – o que resulta no mesmo: o filósofo baseia-se na totalidade da consciência e na intuição do mundo, e não numa visão científica circunstancial da realidade, condicionada pelo Espaço-tempo. Qualquer tipo de dogmatismo ou visão parcial do mundo é a antítese da Filosofia.

Em segundo lugar, toda a filosofia (como a Ética e a Moral) tenta alcançar uma validade universal; a intuição filosófica distingue-se da religiosa (3) pela sua validade universal, e distingue-se da artística por ser uma força que quer reformar a vida. Quando a intuição do mundo é compreendida nos seus conceitos, passa a ser uma metafísica. A metafísica pode assumir variadíssimas formas e até ao infinito, que diferem entre si por diferenças de substância ou por simples acidente. Podemos distinguir três categorias de metafísica:

1) O naturalismo materialista, que passou por Demócrito, Lucrécio, Epicuro, Hobbes, os Enciclopedistas, Comte, os materialistas modernos e os contemporâneos de Marx a Derrida. Os materialistas baseiam a sua intuição do mundo no conceito de Causalidade, em que a natureza assume-se como um conjunto de factos que constituem uma ordem necessária. Para os materialistas, a natureza é desprovida de conceitos de valor e de fim, e a vida espiritual é um subproduto do mundo físico.
O materialismo é a categoria da “causa”.
2) O idealismo objectivo (Heráclito, os estóicos, Espinosa, Leibniz, Shaftesbury, Goethe, Schelling, Schleiermacher, Hegel) baseia-se na vida do sentimento e é dominada pelo sentido de valor e significação do mundo. O idealismo objectivo é um idealismo prático, que se preocupa com o mundo, com a sociedade e com a sua organização. Toda a realidade aparece como sendo uma expressão de um princípio interior do Homem, que se projecta na vida em sociedade e no mundo. Esta visão leva a considerar os fenómenos do mundo como sendo manifestações de uma deídade imanente (panteísmo).
O idealismo objectivo é a categoria do “valor”.
3) O idealismo da liberdade ou subjectivo (Platão, helenismo-romano, Cícero, especulação cristã, Kant, Fichte, Schopenhauer, Kierkegaard, etc.) interpreta o mundo em termos de Vontade do Absoluto, e portanto, o espírito é independente da natureza, sendo transcendente a esta. A personalidade divina e a deídade são projecções do espírito sobre todo o universo, originando conceitos de criação e de soberania da pessoa sobre o curso do mundo.
O idealismo da liberdade é a categoria da “finalidade”.

Temos, pois: “causa”, “valor” e “finalidade”. Se virmos bem, o universo só pode integrar estas três componentes. Separar estas três componentes da essência do universo é sempre uma visão redutora da realidade

A metafísica científica

Toda e qualquer filosofia se pode integrar numa das categorias referidas. A ciência é produto da filosofia materialista, que é a filosofia da Causa. Como acontece com o materialismo naturalista, para a ciência tradicional, a Natureza é desprovida de conceitos de valor e fim, e a vida espiritual é um subproduto do mundo físico.
Um filósofo (seja cientista ou não) pode concordar mais com a essência de uma categoria em detrimento de outra, mas o que o filósofo não pode fazer, é rejeitar ou adoptar dogmaticamente uma das categorias, porque ao fazê-lo, estaria a transformar a filosofia numa religião.

Aparentemente, isto poderá significar que a metafísica é impossível, porque tenta unir as três categorias filosóficas. Contudo, a verdadeira Metafísica Universal é aquela que de facto procura a conjunção ideológica das três metafísicas filosóficas que referi; no fundo, é o que a verdadeira Ciência procura fazer, não descurando quaisquer possibilidades metafísicas. Não nos podemos convencer que a Verdade está resumida num aspecto parcial do mundo, porque neste caso, cairíamos em dogma e no mito. Ilusão será sempre o convencimento de que se poderá reduzir a Vida a uma das três categorias metafísicas supracitadas, mutilando a nossa relação vivida com o mundo.

Por exemplo: para mim, e não concordando eu com a concepção do mundo desprovido de valor e de fim, mas sendo que o materialismo naturalista se preocupa com a Causalidade, este assume um papel positivo na procura da verdade, porque a causalidade faz parte do “todo consciente”. Portanto, eu não refuto totalmente o materialismo naturalista: retiro dele o que, na minha opinião racionalizada, de positivo tem.

Conclusão

Ninguém pode dizer que a ciência, em termos gerais, se tenha dogmatizado – embora existam cientistas dogmáticos; o que podemos dizer é que a ciência é dogmatizada. Quando as pessoas pensam que a ciência assume o princípio de que somente uma das categorias metafísicas supracitadas é verdadeira e positiva, a ciência dogmatiza-se em relação a essas pessoas, e dogmatizando-se, transforma-se num mito moderno.

(1) Segundo Moritz Schlick (neo-empirista), “uma questão é um princípio resolúvel se pudermos imaginar as experiências que deveríamos fazer para dar-lhe resposta. A resposta a uma pergunta é sempre uma proposição. Mas para entender uma proposição devemos poder indicar exactamente quais as circunstâncias particulares que a tornariam verdadeira ou falsa” – in “Gesammelte Aufsätze”.
(2) Segundo Dilthey, um dos filósofos europeus mais importantes do século 19/20. Wilhelm Dilthey (1883 – 1911) foi o fundador do “Historicismo” alemão.
(3) Segundo o neo-criticismo alemão.

2 comentários »

  1. “Temos, pois: “causa”, “valor” e “finalidade”. Se virmos bem, o universo só pode integrar estas três componentes. Separar estas três componentes da essência do universo é sempre uma visão redutora da realidade.”

    MUITO BEM DITO!

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    Comentar por Victor Rosa de Freitas — Sábado, 17 Novembro 2007 @ 11:59 pm | Responder

  2. quero ser resumidamente qual a diferencia entre mito e ciência
    pois a pergunta da prova e esta
    Faça um paralelo diferenciando mito e ciência
    porém quero saber a resposta dessa pergunta pois não to conseguindo achar

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    Comentar por andressa — Quarta-feira, 17 Novembro 2010 @ 11:32 pm | Responder


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