perspectivas

Terça-feira, 13 Novembro 2007

Complementando Schopenhauer

“O Budismo é a religião mais elevada e a sua doutrina ética é ortodoxa em toda a Ásia, excepto onde prevalece a detestável doutrina do Islão.” – Arthur Schopenhauer

O Pessimismo

Ao contrário da maioria dos filósofos do seu tempo (exceptuando Kierkegaard) Schopenhauer foi um filósofo pessimista. Tanto os pessimistas como os optimistas, e exceptuando Fichte, tiveram o problema de tentar interpretar a Vida à luz da Razão disponível; Fichte foi o único no seu tempo que defendeu a ideia de que o saber humano era limitado e em evolução em direcção ao Saber Absoluto.

“Cientificamente, tanto o pessimismo como o optimismo são refutáveis; o optimismo tenta provar que o universo existe para nos agradar, e o pessimismo que ele existe para nos desagradar. Nenhum pode demonstrar-se.” – Bertrand Russell, filósofo racionalista e ateu

Contudo, a refutabilidade por parte da ciência em relação ao pessimismo e ao optimismo não é dialéctica. Seguindo o raciocínio do “ateu” e “racionalista” Bertrand Russell, perante a refutação, por parte da ciência, do pessimismo e do optimismo, ficamos sem saber qual o valor dialéctico escolhido. Quando refutamos alguma coisa sem elegermos outra, ou se elegemos o Nada (ausência de valor) como valor dialéctico, somos pessimistas. O pessimismo é, por inerência, a negação da dialéctica Hegeliana, e Russell admitiu assim o pessimismo da ciência. A alternativa de Russell seria invocar o “nexo dos distintos” de Croce (complementarei Benedetto Croce, um dia destes) em contraponto à “dialéctica dos opostos” de Hegel. Porém, o reconhecimento de uma hierarquia de valores crociana na Razão levaria Russell a reconhecer a existência de uma Supra-razão, uma Razão que transcende o Homem (racionalismo absoluto de Hegel), coisa que Russell sempre recusou. O problema dos ateus é que caem constantemente nas suas próprias armadilhas retóricas, e a vantagem dos teístas é que encontram sempre uma justificação para os fenómenos, mesmo que essas justificações não sejam (ainda) cientificamente comprovadas.
Ao contrário de Russell, eu penso que a verdadeira ciência é optimista, porque parte do princípio que o universo existe para fazer feliz o Homem e procura constantemente a chave dessa felicidade.

A herança de Kant

Arthur Schopenhauer nasceu a 22 de Fevereiro de 1788 em Dantzig, então cidade-estado desavinda da Prússia, hoje cidade da Polónia (Gdansk), filho de pai rico e de mãe intelectual, e morreu em 1860. Schopenhauer frequentou a universidade de Gottingen. Na sua filosofia, declarou-se influenciado por Kant — que considerou o filósofo mais importante de toda a história do pensamento —, por Platão e por Upanishads, mas penso que de Platão não terá tido grande influência nele, mas antes a filosofia da idade helenística.

Schopenhauer desprezou Hegel, criticou Schelling, tolerou Fichte — que considerou ter talento, mas mal usado —, mas foi em Kant que baseou a sua filosofia. Kant faz a distinção entre “fenómeno”e “noumeno”, sendo o “fenómeno” a natureza, e o “noumeno” a “substância transcendental”, a “coisa-em-si”, e foi a partir deste princípio de Kant que Schopenhauer desenvolve a sua teoria. Enquanto que Fichte e Hegel transformaram o “noumeno” kantiano num dado metafísico, Schopenhauer identificou o noumeno com a Vontade (por isso é que é essencial compreender Kant e a sua “Crítica da Razão Pura”; sem ele, uma data de filósofos não fazem sentido, incluindo Fichte, Hegel e até Marx).
Para Kant, o “fenómeno” é a realidade cujo conhecimento limitado está acessível ao ser humano, e o “noumeno” é o limite desse conhecimento. Para Schopenhauer, o “fenómeno” é a aparência e a ilusão daquilo a que chamamos de “realidade”, e o “noumeno” é a verdadeira realidade que se esconde por detrás da aparência e da ilusão. Schopenhauer altera os conceitos de “fenómeno” e de “noumeno” de Kant, por influência claríssima da filosofia budista.

Por exemplo, seguindo o pensamento de Schopenhauer, o que na nossa percepção (fenómeno) aparece como sendo o nosso corpo, é a nossa vontade (noumeno).
Sob o ponto de vista budista, esta constatação é verdadeira, porque o budismo remete o conceito de Vontade para a vontade espiritual no ciclo de reincarnações. Para o budismo, independentemente da nossa herança genética, que é uma realidade inquestionável, existe a vontade espiritual que molda em grande percentagem o ser humano. Uma pessoa é o que é, não só por influência genética, cultural, biológica, empírica, e até por influência astrológica, mas essencialmente pela vontade do espírito em ser o que é em cada vida vivida no Espaço-tempo, através das reincarnações que determinam os diferentes estádios da evolução espiritual. Foi a Upanishads e ao budismo que Schopenhauer foi buscar a sua teoria, condimentando-a com Kant para a racionalizar, embora não pudesse ir muito longe na influência budista do seu pensamento, devido ao racionalismo dogmático europeu que o consideraria, de imediato, como lunático.

Kant defendeu a ideia de que o estudo da lei moral pode levar-nos para além dos “fenómenos” (“fenómenos” de Kant = realidade natural) e dar-nos o conhecimento que a percepção sensível não nos pode dar, e afirmou que a lei moral diz respeito essencialmente à vontade. Russell diz-nos que a lei moral resulta do “desejo” individual. Para Schopenhauer, a Vontade a que a lei moral diz respeito não é o “desejo” Russeliano, mas a Vontade segundo a concepção budista, que para além do “fenómeno” envolve o “noumeno”. Russell limita a lei moral ao simples “desejo” do ser humano, “desejo” como expressão individual material, despojado de qualquer influência metafísica. Para Kant, a diferença entre um homem bom e um homem mau está na diferença do mundo das “coisas-em-si” (noumeno) dos dois homens, e portanto, na diferença da vontade que reflecte a diferença do mundo das “coisas-em-si” nos dois homens.

O racionalismo dogmático ocidental produz caricaturas, porque em vez de Kant dizer que a “coisa-em-si” ou que a “subjectividade transcendental” é a “essência espiritual”, chama-lhe outros nomes para fugir à “perseguição” ideológica dos materialistas e dos racionalistas dogmáticos. Exagerando um pouco, e para que se compreenda o que quero dizer: à semelhança do que acontecia com os escritores e jornalistas no tempo da PIDE, os filósofos iluministas, sejam os do século 19 como os contemporâneos, têm que falar por códigos, sinónimos, paráfrases e conceitos mais ou menos abstractos, para escapar à censura ideológica do racionalismo dogmático intelectual, “científico” e politicamente correcto. Se Kant tivesse falado em “essência espiritual” em vez de “coisa-em-si”, seria porventura um filósofo esquecido pela História. Graças à dissimulação ideológica de Kant em plena Era de afirmação do racionalismo cartesiano, o “idealismo” pode desenvolver-se; por isso, Kant terá sido o filósofo europeu mais sagaz e inteligente.

A Vontade

Mas voltemos a Schopenhauer. Para evitar a todo o custo referir-se à Vontade implícita no princípio da reincarnação budista, Schopenhauer limitou-se a falar na Vontade Universal. Quando falei de Fichte, referi um princípio comum a várias religiões: o “princípio Potencial” do Absoluto (deídade), que caracteriza a capacidade da Vontade do Absoluto em si próprio e com propósito em si.
Schopenhauer atém-se ao “princípio Potencial” do Absoluto, à capacidade volitiva infinita, e por isso, una e indivisível e independente de toda a individuação. Sendo que a “subjectividade transcendental” kantiana (a essência espiritual) é, segundo Fichte e Schopenhauer, decorrente da consubstancialidade do Homem com o Absoluto, a Vontade Infinita existe no Homem como em qualquer outro ser da natureza. Note-se que o budismo considera que todos os seres vivos, racionais e irracionais, têm espírito (não confundir “espírito” com “alma”) ou a “centelha do Absoluto”. Naturalmente que a visão de Schopenhauer sobre a Vontade Infinita reflecte a filosofia budista.

Se para Hegel “o que é real é racional”, isto é, a realidade (o “fenómeno”) é Razão, para Schopenhauer a realidade é Vontade irracional, sendo que “irracional” se deve entender como algo que está para além da compreensão humana. O optimista Hegel justifica racionalmente tudo aquilo “que é”, que existe na natureza; o pessimista Schopenhauer pretende negar tudo o “que é”, porque tudo o “que é” é aparência, ilusão e resultado da Vontade Absoluta que o Homem não compreende.

Complementando: eu penso que Hegel e Schopenhauer tinham ambos razão: a) a natureza é racional (Hegel) porque faz parte da Razão Universal, b) a natureza é criada e, por isso, finita, sendo uma “sombra”, uma aparência, uma ilusão, um Ersatz à imagem do Absoluto (Schopenhauer), não deixando por isso de ser racional, c) a Razão é um valor infinito (segundo o conceito de “Saber Absoluto” de Fichte) que está presente na realidade finita (Schopenhauer e Hegel), d) a capacidade volitiva do Absoluto está presente em todas as manifestações do Finito (o conceito budista da “Vontade” de Schopenhauer). Na minha opinião, o Finito e Infinito são ambos reais, e na medida em que o Finito é criado a partir do Infinito, a Razão do Finito advém da Razão infinita.

A Individualidade

Tanto Hegel como Schopenhauer consideram que a individualidade do ser humano tem pouca importância, em Hegel por causa do anseio pelo Infinito, em Schopenhauer por causa da individualidade como sendo uma aparência e uma ilusão.

A Vontade do Homem, sendo parte da “coisa-em-si” e não do Espaço-tempo, e sendo por isso – segundo Schopenhauer – real, não só não pode ser datada de acordo com critérios do Espaço-tempo, como não pode ser composta de actos de vontade separados, porque o tempo e o espaço são fonte da pluralidade que preside ao “princípio da individuação” – segundo a escolástica, o princípio segundo o qual um ser humano (ou outro ser vivo) se singulariza numa realidade única; por exemplo: Orlando Braga.
Aqui, há que ter em atenção a distinção budista entre “espírito” e “alma”. De facto, segundo o budismo que Schopenhauer estudou, o “espírito” (“coisa-em-si”) está livre do “princípio da individuação” e da separação de actos de Vontade inerente ao Espaço-tempo, mas a “alma” é a intermediária entre o Espaço-tempo e o “noumeno” espiritual, entre o Finito e o Infinito – é a “alma” que permite que o “noumeno” se sujeite, indirectamente, ao “princípio da individuação” no Espaço-tempo. Segundo o budismo, a “alma” pode ser datada e sujeita-se ao critério da pluralidade do Espaço-tempo durante o seu ciclo de reencarnações, e Schopenhauer sabia dessa teoria budista. Quando ele se refere à realidade intemporal e inespacial da “coisa-em-si”, refere-se ao espírito, e não à alma.
Para Schopenhauer, o melhor dos mitos é o nirvana budista, que para ele significa “extinção”. Contudo, sabemos que o Nirvana budista é a “União com o Todo”, a ausência de individualidade que essa união implica, e não no sentido de “extinção” que Schopenhauer lhe dá.
Schopenhauer fugiu da teoria da reencarnação budista como o diabo da cruz. Segundo Schopenhauer, a teoria budista da reincarnação, não sendo totalmente verdadeira, diz a verdade em forma de mito. Não sei se Schopenhauer não entendeu o budismo, se não o aceitou completamente, ou se o analisou do alto da sua cátedra racionalista – embora tivesse uma estátua de Buda no seu escritório.

Liberdade e libertação

A liberdade, em Hegel, está estritamente ligada à necessidade dialéctica – herdada de Aristóteles, transformada por Kant, e optimizada por Hegel, que segundo este último, o falso se torna em algo de positivo, sendo o falso um momento necessário ao verdadeiro: a restrição da liberdade (negativo) é necessária à própria liberdade (positivo). Para Schopenhauer, não existe liberdade, porque o ser humano está sujeito ao determinismo do mundo dos fenómenos.
Aqui, temos que saber se a “liberdade” era para Hegel o mesmo que para Schopenhauer. Hegel considera que a liberdade condicionada pelo Espaço-tempo não deixa de ser liberdade; Schopenhauer acha que tudo que não seja a liberdade total não é liberdade. Continuo a pensar que ambos têm razão.

Para Schopenhauer, a “vontade cósmica” não corresponde à “vontade divina” de Espinosa. Para este, a virtude estaria em consonância com a vontade divina: para Schopenhauer, a vontade cósmica é perversa, está internamente dividida e é discordante e devoradora de si própria – talvez porque para Schopenhauer o bem e o mal tenham origem na Vontade cósmica, porque para Schopenhauer não fazia sentido separar o bem e o mal da mesma fonte de Vontade. O que fazia sentido para Schopenhauer era a libertação do Homem em relação a essa Vontade.
Na minha opinião, contudo, assim como a antimatéria é a ausência de matéria, a escuridão absoluta é total ausência de luz – o mal absoluto é a total ausência do bem; nesta perspectiva, concordo mais com panteísmo de Espinosa do que com Schopenhauer, que não sendo ateu, também não era um panteísta; o mundo do panteísmo é um mundo de optimismo, exactamente onde o mundo de Schopenhauer existe unicamente para o negar.
A teoria de Schopenhauer é fruto de uma tentativa de racionalização do budismo; em resultado desta racionalização, Schopenhauer pretende quebrar os laços da vontade individual – não para atingir a harmonia com Deus, procurando um qualquer bem positivo, mas com um propósito inteiramente negativo resultante da tentativa de racionalização dos princípios da filosofia religiosa budista.

Sendo que para Schopenhauer a Vontade cósmica é perversa, é a fonte infindável de todo o sofrimento do ser humano, é também a essência da vida humana e aumenta com o conhecimento: quanto mais conhecimento tem o Homem, mais sofre a perversão da Vontade cósmica. A Vontade cósmica não tem como fim a felicidade, porque não define este fim ou qualquer outro, e embora a morte seja o termo do sofrimento, perseguimos os nossos fins fúteis. A felicidade não existe porque sentimos pena de um desejo não realizado, mas realizando-o, sentimos saciedade e fastio. Segundo Schopenhauer, o instinto humano incita à procriação que provoca mais sofrimento e morte, e por isso há o pudor do acto sexual.

Para Schopenhauer, o mundo dos fenómenos (a aparência, a ilusão) é sinónimo de sofrimento e dor; por isso, ele recomenda o ascetismo – a luta contra os impulsos discordantes da Vontade – como forma de libertação. A injustiça é a condição da Vontade em viver dividida e discordante, através dos diversos indivíduos. O homem mau não é apenas o que faz mal aos outros, é também aquele que vive constantemente atormentado pelo mal que lhe fizeram (aqui, a influência budista é clara). A resignação, a pobreza, o sacrifício e o ascetismo em geral têm o mesmo objectivo: libertar-nos dos grilhões da Vontade de viver, extingui-los e anulá-los (budismo, outra vez). A supressão da vontade de viver é o único e verdadeiro acto de liberdade que é possível ao Homem assumir, mas o suicídio é inútil, porque não é uma manifestação da negação da vontade, mas uma enérgica afirmação da mesma – aqui, mais uma vez a influência do budismo. O suicida quer a vida, estando só descontente com aquela vida que lhe coube em sorte; destruindo seu corpo, não destrói a vontade de viver, que não sofre minimamente com o seu gesto. Para que a vontade de viver fosse destruída em toda a Humanidade, bastaria que um único indivíduo conseguisse destruir a sua vontade de viver (sem suicídio), porque a vontade de viver é uma só e comum a todos.

Contudo, o próprio Schopenhauer esteve longe de uma vida ascética que recomendou na sua filosofia, e explica porquê:

“Que o santo seja um filósofo é tão pouco importante, como pouco importante é que o filósofo seja um santo. (…) Representar abstractamente, universalmente, limpidamente, em conceitos a essência do mundo, e deste modo, qualquer imagem reflexa, colocá-la nos permanentes e sempre proporcionados conceitos da Razão: isto sim é a filosofia e não outra coisa.” – Schopenhauer (“Welt”)

Dou um conselho a quem se interesse por Schopenhauer: leia antes alguma coisa sobre o budismo; tem a mesma essência e, ao menos, dá-nos a “Possibilidade” que Kierkegaard definiu como sendo a maior necessidade do Homem.
De resto, Schopenhauer foi totalmente incoerente com a sua filosofia: mulherengo, nunca assumiu um casamento; jantava bem nos melhores restaurantes, não dava esmolas por uma questão de princípio, era muito conflituoso e extremamente egoísta.
Uma vez, Schopenhauer irritou-se com uma velha costureira que estava a falar com um amigo à porta do seu apartamento; atirou-a pela escada abaixo, e a velha ficou inválida. O tribunal condenou Schopenhauer a pagar uma pensão vitalícia à costureira, e quando esta morreu, Schopenhauer escrevinhou no seu livro de contas: “Obit anus, abit onus” (“morta a velha, finda a carga”).

9 comentários »

  1. Leio várias vezes para ter a compreensão necessária sobre o que você postou, não porque é complicado, mas porque é repleto de ”informações” que você colocou de uma maneira diferenciada.

    Obrigada.

    Gostar

    Comentar por angustiadaconsciencia — Sábado, 12 Janeiro 2008 @ 1:24 am | Responder

  2. Se Vc quiser esclarecer algum ponto em particular, terei todo o gostoem dar uma opinião. O problema dos posts é que o espaço e o público não se coadunam com grandes divagações.

    Gostar

    Comentar por Orlando — Sábado, 12 Janeiro 2008 @ 7:04 am | Responder

  3. Eu não sei se você vai gostar do meu comentário. Ficou enorme, mas como você ofereceu ajuda para melhores esclarecimentos…Alguns
    pontos:

    ”Fichte foi o único no seu tempo que defendeu a ideia de que o saber humano era limitado e em evolução em direcção ao Saber Absoluto.”

    Entendo perfeitamente, mas tenho dúvidas por estar no início dos estudos de Hegel e, pelo que eu percebi, existe um desafio, pois alguns
    defendem a idéia de que o ”Sistema” hegeliano é fechado, enquanto outros já apontam para a idéia de que é aberto.

    Eu ainda não assumi uma posição quanto a isto, talvez por ter lido apenas a ”Fenomenologia do Espírito”, preciso ler a ”Ciência da Lógica”,
    entre outros. Mas confesso que simpatizo com os que pensam o sistema como atualização, ou seja, aberto a possibilidades.

    ”Uma pessoa é o que é, não só por influência genética, cultural, biológica, empírica, e até por influência astrológica, mas essencialmente pela
    vontade do espírito em ser o que é em cada vida vivida no Espaço-tempo, através das reincarnações que determinam os diferentes estádios
    da evolução espiritual.”

    Ele deixa bem claro essa questão mesmo, eu fico imaginando se ele ”herdou” isso de Platão ou foi da filosofia helenística, como você mesmo
    afirma mais adiante. Imagino um pouco de Platão e um pouco do ”Logos” do Estoicismo, que é refletido até no pessimismo de Schopenhauer
    quando ele afirma que mesmo que existisse felicidade no mundo… isso não seria superior à tristeza e sofrimento que já existiram, vejo como
    uma postura própria do Estoicismo, porém com sentido pessimista. Schopenhauer deixa bem claro essa questão como sendo uma pretensão
    humana negar que um indivíduo seja influenciado pela história e que seja completamente diferente de todos. Acho ele consideria uma ingenuidade.

    ”[…]Na minha opinião, o Finito e Infinito são ambos reais, e na medida em que o Finito é criado a partir do Infinito, a Razão do Finito advém da Razão
    infinita.”

    Eu também compartilho com essa posição, pois veja bem, se um indivíduo ”acredita” apenas na finitude: há um problema. Da mesma forma se ele
    acredita apenas na infinitude. Acho um pouco parecido com Fichte, quando fala da relação Eu/Não-Eu e teoria/prática. Ambos levam ao desespero
    se forem considerados sozinhos. Existe uma necessidade tanto de ação como de reflexão. Não faço apologia ao ”desespero” da psicologia, mas falo
    mais com uma questão antropológica mesmo.

    Quanto à questão de liberdade que você colocou: remeteu à necessidade no Sistema hegeliano. Qual tua posição sobre esse assunto? Aqui no Brasil
    temos o professor Cirne Lima tentando mudar ou corrigir algumas lacunas quando esse tema surge.

    [Aguardo a resposta e, por favor, diga-me se prefere ”comentários” extensos por email ou coisa parecida.]

    Gostar

    Comentar por Angustiada Consciência — Sábado, 12 Janeiro 2008 @ 5:37 pm | Responder

  4. 1. Fichte era mais velho que Hegel. Fichte pertenceu à geração de Kant. Enquanto que Hegel dizia que “o que é racional é real, e o que é real é racional”, limitando a razão à realidade concebida num determinado momento histórico, Fichte abria a possibilidade da razão de hoje não abarcar a razão de amanhã, num caminho em direcção à Razão Absoluta que é a razão inerente ao Absoluto (Deus).
    2. Por isso, Hegel é mais “fechado” que Fichte, não só porque defendia uma ideia de “fim da história”, mas porque a própria dialéctica hegeliana não previa a hierarquia de valores nas relações dialécticas, que Benedito Croce trouxe mais tarde. A esquerda hegeliana foi uma manifestação evidente do antropocentrismo implícito em Hegel.
    3.

    “Uma pessoa é o que é, não só por influência genética, cultural, biológica, empírica, e até por influência astrológica, mas essencialmente pela vontade do espírito em ser o que é em cada vida vivida no Espaço-tempo, através das reincarnações que determinam os diferentes estádios da evolução espiritual.”

    – Esta frase não é de Schopenhauer, bem entendido. Trata-se da interpretação budista do ser. Para o budismo, e não para Schopenhauer, uma pessoa é o que é, não só por influência genética, cultural, biológica, empírica, e até por influência astrológica, mas essencialmente pela vontade do espírito em ser o que é em cada vida vivida no Espaço-tempo, através das reincarnações que determinam os diferentes estádios da evolução espiritual.
    4. Fichte tinha um padrão moral altíssimo, que aplicou na sua vida prática. Schopenhauer viveu um padrão moral vulgar, baixo até. Uma pessoa não é só o que pensa, o que diz, mas essencialmente o que faz.
    5. A “liberdade” como consequência da “necessidade”, sendo verdadeira, é apenas uma parte da razão da liberdade. Hegel estava certo, até determinado ponto, assim como Maquiavel estava certo até determinado ponto quando defendeu a liberdade do ser humano condicionada a 50%, sendo o ser humano coarctado na sua liberdade nos outros 50% da sua condição. O que mais gosto em Fichte é que transformou a liberdade em livre-arbítrio, o que pressupõe uma ética da responsabilidade, e não se cingiu a um sistema mecanicista do qual a liberdade é um produto automatizado e condicionado.

    Gostar

    Comentar por Orlando — Terça-feira, 15 Janeiro 2008 @ 3:01 pm | Responder

  5. Confesso não conhecer sobre a vida do Schoppa, e li, também, muito pouco de sua obra, apenas três textos, sendo dois deles contidos no “Mundo Como Vontade e Representação” (a saber, Sobre a Morte e a Indestrutibilidade de Nosso Ser-em-si e A Metafísica do Amo) e um de Parerga e Paralipomena (Spbre a Doutrina do Sofrimento do Mundo), mas, se por um lado ele pecava por ser “tantas vezes porco, tantas vezes reles e tantas vezes vil”, como dizia Pessoa, ele não me parece ter mentido em sua escrita. Na verdade, de alguma forma, pelo que você falou sobre ele, faz bastante sentido com o que ele dizia sobre os homens, sobre como nós seriamos horríveis (ninguém é muito digno de inveja e muitos são os muito deploráveis) e sobre como o homem bom era aquele que “negava a vontade”, que fazia do sofrimento alheio também o seu. Acho que existia algo de cristão no Schoppenhauer, no sentido de que negar a Vontade seria o caminho para a salvação, e não segui-la cegamente, mesmo que ele negasse isso. Mas enfim, preciso lê-lo mais profundamente.
    A propósito, belo blog, gostei do que li até agora.

    Gostar

    Comentar por Luiz Alexandre — Sexta-feira, 20 Março 2009 @ 8:32 pm | Responder

  6. Olá carissimo (a) responsavel pelo exposto texto sobre schopenhauer, eu estou pensando em trabalhar a minha monografia a respeito do ateismo segundo o referido filósofo. Acredito que voce tenha bastante conhecimento em schopenhauer. Pergunto: para quem quer fazer tal trabalho, é preciso abordar todos esses pontos que voce colocou a respeito de schopenhauer? Aguardo respostas. Parabenizo o bom trabalho.

    Gostar

    Comentar por Felipe Almeida Dantas — Sábado, 23 Janeiro 2010 @ 5:30 am | Responder

  7. @Felipe :

    Eu não tenho muito conhecimento sobre a teoria de Schopenhauer ― aliás, nem gosto dele; é dos poucos filósofo de quem não gosto, mas não podemos negar que ele foi realmente um filósofo porque colocou o Homem na sua dimensão cósmica. Quando uma teoria de alguém não parte do princípio da dimensão cósmica do Homem, não podemos classificá-la como teoria mas como uma opinião (doxa). Nesse sentido, Schopenhauer é a antítese de Nietzsche (não só na minha visão como na visão de George Simmel), ou seja, são dois opostos e inconciliáveis de filosofia, na medida em que o primeiro promove a negação da vida e o segundo a afirmação do valor da vida, embora da vida supra-humana (a vida do super-homem, à prova da dor e da realidade probatória).

    Sendo os dois inconciliáveis, e se Nietzsche foi a personificação do ateísmo teórico, Schopenhauer não pode ser considerado ateu segundo a sua teoria.

    A negação da vida segundo Schopenhauer é mais um niilismo espiritualista como o que existe em algumas correntes e escolas do budismo, do que um ateísmo, e paradoxalmente, a afirmação do valor supra-humano da vida, segundo Nietzsche, é uma forma de ateísmo no sentido da antropocentrismo absoluto que desliga o ser humano da cosmogonia ― e por isso é que Nietzsche não pode ser considerado um filósofo mas um literato ou ficcionista.

    A teoria do eterno retorno de Nietzsche nem sequer é original, porque teve origem no secularismo hindu do movimento Yuga (não confundir com Yoga) que surgiu antes de Heraclito (500 a.C); este último é alegadamente considerado como o precursor de Nietzsche para a teoria do eterno retorno, quando sabemos da influência das religiões orientais, como o hinduísmo e o budismo, nos pré-socráticos.

    Portanto, não podemos dizer que a teoria de Schopenhauer se consubstancie numa forma de ateísmo, mas antes numa forma de niilismo espiritualista, que existe também, por exemplo e em certa medida, em Dostoievski. O niilismo espiritualista consiste na negação da realidade objectiva (objecto) em função de uma absolutização da realidade subjectiva (sujeito).

    Gostar

    Comentar por O. Braga — Sábado, 23 Janeiro 2010 @ 10:48 am | Responder

    • Discordo, Schopenhauer é manifestamente ateu, ele nega a existência de Deus por toda parte, não é porque o niilismo dele tem um caráter espiritualista que ele não é ateu.

      Gostar

      Comentar por Marcelo Telles — Quarta-feira, 11 Novembro 2015 @ 10:33 pm | Responder

      • ¿Onde é que eu escrevi que Schopenhauer não era ateu? E onde é que eu escrevi que Schopenhauer era teísta?

        Você não deve inventar um argumento que eu não escrevi para depois rebater esse argumento que eu não escrevi. Chama-se a isso “falácia do espantalho”. Só faz perder tempo a você e aos outros.

        http://sofos.wikidot.com/falacia-do-espantalho

        Gostar

        Comentar por O. Braga — Quinta-feira, 12 Novembro 2015 @ 7:54 am


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe uma Resposta para angustiadaconsciencia Cancelar resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: