perspectivas

Sábado, 10 Novembro 2007

Complementando Kierkegaard

Diz-se que Kierkegaard foi o filósofo da existência, mas não devemos confundir o existencialismo cristão kierkegaardeano com o existencialismo materialista de Sartre. Sören Kierkegaard nasceu em Copenhaga em 1813 e foi contemporâneo de Schelling, Fichte e Hegel, entre outros.

A liberdade

O problema existencial de Kierkegaard esteve relacionado com o livre-arbítrio do ser humano, ou com a ausência dele. Segundo Kierkegaard, o ser humano não dispunha propriamente de livre arbítrio ou de liberdade de acção, estando condicionado pela sua própria existência; perante qualquer alternativa, Kierkegaard fica paralisado, afirmando-se ser “uma cobaia de experiências da existência”.
A filosofia de Kierkegaard é bastante subjectiva e literária (à semelhança de Fernando Pessoa), na medida em que é uma filosofia com um intimismo característico da poesia. Kierkegaard “culpa” a existência de encarcerar o homem num mundo de nulidade e de incerteza, de manter o Homem condicionado.
Todos nós já ouvimos a frase de que “viver é decidir”. Kierkegaard considera que a vida é um equilíbrio instável entre as alternativas opostas (em matéria de decisão) que se abrem a qualquer possibilidade, chamando Sören Kierkegaard à indeterminação permanente da decisão de “ponto zero”. O Homem vive permanentemente no “ponto zero”, porque a existência o condiciona de tal forma que o transforma em Nada, o que corresponde ao conceito pessoano de “absurdo”.
Na minha opinião, Kierkegaard tinha algum desdobramento de personalidade, como aconteceu com o nosso Fernando Pessoa, e como, potencialmente, existe em todo o ser humano.
O Homem é colocado constantemente sob a pressão da escolha que tem origem na causalidade, mas Kierkegaard não podia escolher, porque preferia a contemplação poética que desenvolveu com a adopção de vários pseudónimos (tal como aconteceu com Fernando Pessoa), de forma a distanciar-se da realidade objectiva. Contudo, e ao contrário de Fernando Pessoa, Kierkegaard refugiou-se no cristianismo que considerou uma doutrina da existência que oferecia a ajuda sobrenatural da fé como forma de aliviar o peso de uma escolha existencial demasiado penosa. Kierkegaard pode ser considerado como a antítese do super-homem de Nietzsche, e constituiu-se ele próprio a antítese da visão dialéctica de Hegel (mais tarde transformada por Engels e adulterada por Marx), na medida em que recusa a existência de um único processo dialéctico da compenetração dos opostos, porque a única realidade é a unidade da Razão consigo própria.
Complementando Kierkegaard, parece-me certo que o livre-arbítrio do Homem está condicionado pelo Espaço-tempo, mas dentro da nossa dimensão, existe inquestionavelmente.
Fundamentalmente, Kierkegaard retoma Fichte no conceito de evolução do Saber em direcção ao saber absoluto, sendo que a unidade da Razão consigo própria faz parte dessa evolução do Saber. Contudo, Kierkegaard afasta-se de Fichte quando diz o Homem é absorvido e dissolvido pela Razão (mais uma coincidência com Fernando Pessoa), quando para Fichte o Eu Infinito existia independentemente do Saber e não se confundia com a Razão.

“A verdade, só é verdade quando é uma verdade para mim” – Kierkegaard (diário pessoal)

A verdade, para Kierkegaard, é uma espécie de propriedade privada do pensamento. O pensamento não procura a verdade, apropria-se da verdade, constrói a verdade e adopta-a, e só a partir do momento em que a verdade passa a ser propriedade do pensamento, é que passa a ser A Verdade.

O cristianismo e a existência

Hegel foi o filósofo do regime prussiano porque defendeu a ideia da supremacia do género humano sobre a individualidade humana, isto é, o povo prussiano, como género global, era mais importante do que qualquer indivíduo que o compunha. Para Hegel, o Homem era um género animal, e só nas espécies animais o género é superior ao singular. Uma formiga isolada é inferior a um formigueiro, um lobo isolado é inferior a uma alcateia, etc. Esta ideia de Hegel deu nas aberrações antropocêntricas de Marx, porque sabemos que o homem se distingue dos outros animais também pelo simples facto de o indivíduo poder destacar-se do género, superiorizando-se ao género.
Segundo Kierkegaard, e estou de acordo com ele e em total desacordo com Hegel, Engels e Marx, é esta capacidade do ser humano de se distinguir do colectivo, a capacidade do Homem de se demarcar das atitudes colectivas do género humano, que marca o cristianismo.

Paradoxalmente, a ideia de superiorização do indivíduo perante o género levou aos excessos de Nietzsche e à ideia de super-homem anticristão, mas a diferença entre Kierkegaard e Nietzsche é a que de a superiorização do indivíduo sobre o género faz-se, no caso de Kierkegaard, a nível pessoal, interior e intimista, enquanto que para Nietzsche, essa superiorização do singular perante o género é realizada para o exterior e para a realidade objectiva, actuando sobre a sociedade. Tanto Nietzsche como Kierkegaard contestaram a visão Hegeliana, sendo que Kierkegaard era um intimista e subjectivista, e Nietzsche compartilhava com Hegel uma visão objectiva da realidade.

Kierkegaard divide a existência em dois estádios: a vida estética e a vida moral. O ser humano ou é um esteta ou um ético – não existe simultaneidade ou justaposição dos dois estádios ou modus vivendi.
O esteta é o artista, que vive de imaginação e reflexão, dispõe da sensibilidade poética, desconhece a rotina, mas vive no desespero porque não se satisfaz com realidade. O esteta procura uma vida diferente, vinda da sua imaginação e que se projecta como um alternativa possível; para alcançar essa alternativa, o esteta precisa de se lançar no desespero.

“Escolhe portanto o desespero, o próprio desespero é uma escolha. Quem desespera, escolhe de novo e escolhe-se a si próprio, não na sua imediatidade, como indivíduo acidental, mas escolhe-se a si próprio dentro da própria validade eterna” -– Kierkegaard (Entweder-Oder)

A vida ética implica uma estabilidade e uma continuidade que a vida estética exclui, porque o esteta busca constantemente a variedade instável. A vida ética é o domínio da reafirmação de si, do dever e da fidelidade a si próprio: o domínio da liberdade pela qual o homem se afirma.

“O elemento estético é aquele que é; o elemento ético é aquele para o qual o Homem se transforma no que transforma.” –- Kierkegaard (Ib.)

Na vida ética, o Homem recusa-se à excepcionalidade e integra-se no universal. Por exemplo, a vida estética é encarnada pelo sedutor, e a vida ética é encarnada pelo marido – o matrimónio é a expressão típica da eticidade, segundo Kierkegaard. Para além da vida ética, Kierkegaard refere-se à vida religiosa, que difere da vida ética. A afirmação do princípio religioso suspende inteiramente a acção do princípio moral, porque o religioso coloca Deus acima da própria moral. Como homem religioso, Kierkegaard dá o exemplo de Abraão que não hesitou em sacrificar o seu próprio filho por ordem de Iavé. O homem religioso sabe que foi eleito pela deidade através da “angústia da incerteza”; para Kierkegaard, a angústia da incerteza é a fé, a angústia que se torna certa em si e de uma relação oculta com Deus. (2)

O desespero

Para Kierkegaard, a angústia é condição existencial do Homem em relação ao mundo, e o desespero é a condição existencial do Homem em relação a si próprio. O desespero caracteriza as relações do Eu consigo próprio. Se o Eu quer ser ele próprio – “ele próprio” no sentido e de acordo com as limitações da finitude do “Eu material” – jamais alcançará o equilíbrio e o repouso. Se o Eu (material, a personalidade) não quer ser ele próprio, procura quebrar as relações constitutivas consigo próprio, e debate-se igualmente com uma impossibilidade fundamental: o desespero, presente num e noutro caso.

Complementando Kierkegaard e para que se entenda: quando Fernando Pessoa assumiu várias personalidades, o seu “Eu material” (alma corpórea) procurou quebrar as relações constitutivas consigo próprio (“Eu infinito”, espírito), debatendo-se igualmente no desespero de outro ser humano que não procure quebrar essas relações intrínsecas do “Eu material” com o seu “Eu infinito”.
Kierkegaard parece fazer a distinção entre o “Eu infinito” e o “Eu próprio” ou “Eu material”. A diferença entre os dois conceitos reside na distinção entre “espírito” e “alma corpórea”. Sendo que a “alma corpórea”é constituída pelo “espírito” e pela materialidade da personalidade, da inteligência cerebral, da experiência, do físico, etc., o Homem pode procurar que a sua “alma corpórea” busque a reunião total com o seu “espírito” — o que é impossível, dada a finitude da “alma corpórea”. Em alternativa, o Homem pode tentar desligar a sua “alma corpórea” do seu “espírito”, procurando quebrar as relações constitutivas consigo próprio, dando azo à existência de várias almas no mesmo espírito (desdobramento). De uma forma ou doutra, o desespero está sempre presente, porque o desespero é inerente à impossibilidade do Homem, em ambas as situações, de se encontrar com a sua verdadeira essência espiritual.

Voltando a Kierkegaard, “o Eu é a síntese da necessidade e da liberdade”, e o desespero nasce da deficiência da necessidade ou da deficiência da liberdade. A deficiência da necessidade é a fuga do Eu para possibilidades que se multiplicam indefinidamente e que jamais se materializam.
Complementando Kierkegaard: o desespero é o que na sociedade moderna se chama de “evasão”, o refúgio em possibilidades fantásticas ilimitadas, que não tomam forma nem se radicam em nada. Nas sociedades actuais, o desespero de Kierkegaard conduz ao vício da droga, por exemplo. O desespero é a deficiência do possível material, e a possibilidade total pertence a Deus. Quando o homem desespera, a existência da possibilidade é o único remédio; dando-lhe uma possibilidade, o desesperado ganha vida, retoma a esperança, reanima-se, porque o homem que vive sem possibilidade é como se lhe faltasse o ar. Através da fantasia humana, ou através do optimismo, o homem inventa a possibilidade, mas só “a Deus tudo é possível” (Entweder-Oder).

Voltando a Kierkegaard: porque a Deus tudo é possível, o crente possui o antídoto contra o desespero; “o facto da vontade de Deus ser possível, faz com que eu possa rezar; mas se só a vontade de Deus fosse necessária, o homem seria essencialmente mudo, como um animal irracional” (Ib.)
A fé é o inverso paradoxal da existência; a fé liga-se à estabilidade do princípio de toda a possibilidade: a Deus.
O desespero é o oposto da fé, o desespero é o pecado. Por isso, o oposto do pecado é a fé e não a virtude.
Complementando Kierkegaard, aqui ele cai na mesma contradição da confusão entre estética e ética. Na minha opinião, a fé sem a preocupação da virtude é uma fé irracional porque se acredita sem procurar entender, e a virtude sem fé é a virtude hipócrita, inconsequente e igualmente irracional, porque se toma a ética sem procurar saber a sua origem.
Voltando a Kierkegaard, a fé consiste na eliminação total do desespero, é a condição em que o homem deixa de se iludir sobre a sua auto-suficiência para reconhecer a sua dependência em relação a Deus. Com fé, a vontade do homem em ser ele próprio não colide com a impossibilidade da auto-suficiência que determina o desespero, porque é uma vontade que se socorre do Poder em cujas mãos o próprio homem se colocou: o Poder de Deus.

O escândalo fundamental do cristianismo que nenhuma especulação poderá destruir, é a realidade isolada do ser humano perante Deus, em que todos os indivíduos, sejam eles poderosos ou escravos, existem igualmente na presença de Deus. Por isso, e neste sentido, todas as vidas se equivalem (2).

(1) Aqui faço um parêntesis para complementar o pensamento de Kierkegaard. Na minha opinião, não existe ética verdadeira sem estética. Kierkegaard radicalizou e confundiu o esteta com o libertino, ou no mínimo, com um indivíduo que vive sem regras, e o ético com o autómato que casa, tem filhos, trabalha e não pensa, até que a morte o leve. A definição de “homem religioso” coincide com a compreensão do Homem dos princípios da causalidade definidos por Fichte nos seus “estádios de evolução” da Humanidade, mas em nenhum caso a deidade vai contra princípios éticos que dela provenham; uma das razões porque, sendo eu cristão, não valorizo o Antigo Testamento, é devido a esse fundamentalismo religioso que caracteriza hoje o Islão, e que noutros tempos caracterizou o judaísmo — um fundamentalismo que sacrificou a estética em nome da moral. No caso da estória de Abraão, a deidade impediu-o de sacrificar o seu próprio filho, e tudo não terá passado de um teste de fé, o que indica que a deidade não iria nunca contra os seus próprios princípios.
Quando Kierkegaard cita o exemplo de Abraão como o do “homem religioso”, nada mais faz do que seguir a cultura Apologética que foi introduzida na cristandade desde praticamente o início do cristianismo. Os “apologistas”, cristãos e judeus, tentaram provar ao longo de dois mil anos que o Antigo Testamento preparou o Novo, para assim se estabelecer uma relação de continuidade e de intimidade entre o judaísmo e o cristianismo. Como essência religiosa, o cristianismo nada tem de judaísmo, foi mesmo um corte ideológico com este, e quem diz o contrário disto defende o judaísmo e não o cristianismo. Por exemplo: enquanto o cristianismo sempre produziu arte e beleza, mesmo na Baixa Idade Média mas principalmente a partir da Alta Idade Média, o judaísmo foi e é extremamente parco no que se refere à obra cultural estética. Com o islamismo, aconteceu exactamente o contrário do que com o cristianismo: enquanto a religião era ideologicamente hermética e conduzida pela elite, o islamismo produziu arte; a partir do momento em que a ideologia religiosa se abriu à livre interpretação da populaça, o islamismo sacrificou totalmente a estética a uma moral não ética — porque a ética sem a estética é uma falsa ética.

No fundo, Kierkegaard tem lógica na sua argumentação, mas sua visão é obnubilada e desfocada. Existem vários tipos de estetas; existem estetas éticos, e estetas que ignoram a ética – tudo depende do estádio de evolução espiritual em que o esteta se encontre. Atingindo a compreensão da repercussão da causalidade universal nos seus actos individuais, o espírito humano escolhe assumindo plena e conscientemente as suas responsabilidades perante si mesmo (perante a sua consciência), o que significa exactamente a assumpção de responsabilidades perante a deidade.
A visão judaica e islâmica de que “Deus castiga” não foi propalada por Jesus Cristo, antes foi recuperada do judaísmo pelos apologistas cristãos, da mesma forma que Maomé foi buscar essa ideia ao judaísmo. Cristo sempre insistiu na ideia de que quem castiga o Homem é o próprio Homem que se recusa a reconhecer a Deus — e é esta a visão de Kierkegaard em relação ao cristianismo, quando fala em “desespero”. A grande diferença do cristianismo em relação às outras duas religiões monoteístas consiste na introdução no Ocidente da noção de “livre-arbítrio” como valor em si e a substituição do “Deus castigador” judaico pelo “Pai que ama” cristão. Este é um dos escândalos do cristianismo, e eu nunca poderia seguir o islamismo ou o judaísmo.
Enquanto o espírito humano não compreende as leis da causalidade universal, não consegue detectar as consequências dos seus actos para si e para os outros, vive acorrentado às limitações que impõe a si próprio, porque ainda não compreendeu as leis de Causa-efeito.

Da mesma forma que um artista compreende a arte “com a sua alma”; compreende a arte de uma forma que não consegue expressar por palavras mas antes pela representação da própria arte; entende a arte como algo intrinsecamente ligado ao seu ser mais profundo – compreensão da arte como sendo algo que incorpora o seu ser espiritual —, o espírito humano que compreende a causalidade universal em si mesmo e no âmago mais profundo do seu ser. Assim como o artista compreende a arte e a única forma de expressar essa compreensão é exercendo a própria expressão artística — porque a linguagem humana é parca em vocábulos que exprimam esse sentimento e ideia espiritual da compreensão da arte —, o espírito humano que compreende a causalidade universal encontra na acção responsável e consciente a forma de expressar a sua compreensão das leis universais da Causa-efeito.

Ao contrário do que Kierkegaard defende, o esteta não tem necessariamente que desconhecer intrinsecamente a causalidade universal. A divisão de Kierkegaard entre “vida estética” e “vida ética” é simplista, se bem que baseada numa realidade existencial. Existe gente que vive “segundo a Ética” em perceber intrinsecamente o seu alcance espiritual, vive a Ética como um autómato que se levanta todos os dias à mesma hora para ir trabalhar, sente a Ética como um reflexo condicionado, de forma instintiva. Os vários estádios de evolução do espírito humano existem independentemente da ética, da estética e da razão, mas em todos eles a ética, a estética e a razão está presente, de uma forma mais ou menos intensa e consciente.

A “angústia” de Kierkegaard é a consequência da incompreensão do sentido da existência por parte de indivíduos que ainda não atingiram níveis superiores de consciência espiritual. A compreensão espiritual está para o espírito humano, como a capacidade artística está para o artista – é algo de intrinsecamente inerente à sensibilidade do ser, dificilmente traduzível por palavras da linguagem humana ideologicamente limitada. A “angústia religiosa” que Kierkegaard traduz como sendo a “fé”, faz parte do caminho espiritual, faz parte da incerteza de quem tem fé sem ter a certeza da fé.

(2) “Equivalência” não é o mesmo que “igualdade”. Um quilo de pêssegos equivale a um 1kg de maçãs, mas não são a mesma coisa. O cristianismo introduziu a noção de “equivalência” entre os seres humanos, em contraponto à utopia igualitária.

5 comentários »

  1. SILÊNCIO CULPADO disse…
    Perante uma grande sacanice que está a ser feita sobre alguns professores que não recebem vencimento,têm horários d e12 horas ou estão a recibos verdes sugere-se que todos os blogues publiquem a notícia que está no http://cegueiralusa.blogspot.com

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    Comentar por carreira — Domingo, 11 Novembro 2007 @ 3:22 am | Responder

  2. Gostaria de informar ,que esta página esta ótima ,muito completa ,
    mas para quem quer ,fazer uma pesquisa rápida ,,não é conselhavel,então sugiro que façam
    uma outra página ,igual a esta ,pórem com uma síntese mais resumida.;

    Obrigado !

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    Comentar por Preta — Sexta-feira, 16 Maio 2008 @ 5:42 pm | Responder

  3. Gostaria de parabenizar pelo texto desta página. Hoje andamos sem rumo dentro de um sistema que não nos concede segurança alguma. Olhamos para o horizonte e nos contentamos. Olhamos para nós mesmo e não vemos nada além da aparência física. Kierkegaard, precisa ser anunciado por sobre os telhados para que está geração praticamente perdida encontre, mesmo que seja no desespero ou na angústia, um lugar ao sol.
    Parabéns novamente pela página.
    “Quem não se desespera não percebe nada da existência” (Kierkegaard. Os pensadores 1979, p. 232)

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    Comentar por Edgar Jardim Bairros — Quarta-feira, 2 Julho 2008 @ 8:54 pm | Responder

  4. “Complementando Kierkegaard, aqui ele cai na mesma contradição da confusão entre estética e ética. Na minha opinião, a fé sem a preocupação da virtude é uma fé irracional porque se acredita sem procurar entender, e a virtude sem fé é a virtude hipócrita, inconsequente e igualmente irracional, porque se toma a ética sem procurar saber a sua origem.”
    a segunda parte de sua afirmação está correta. contudo, afirmar isso em oposição ao pensamento de kierkegaard é bem estranho. o entendimento que acho razoável é o de que, no pensamento de kierkegaard, o compromisso com a reflexão, com vistas à adequada compreensão da vida, da verdade, levado em termos dialéticos, leva o homem ao estádio religioso, caso ele não se contente com os limites do estádio ético. isso porque, do ponto do vista do estádio ético, há um colapso da lógica, se levarmos a sério o compromisso com a reflexão. e tal colapso só será ultrapassado com a escolha, a eleição do absurdo, com a opção pela fé, eis aí o sentido da irracionalidade. assim, o indivíduo pode ser devolvido à racionalidade, ao mundo objetivo (empírico?), para que em novo momento, diante de um novo conflito faça nova escolha.
    não há aqui, na minha opinião, nenhuma oposição entre suas palavras e o que vc diz de kierkegaard cair em contradição.

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    Comentar por julio gustavo costa — Quinta-feira, 24 Março 2011 @ 3:41 pm | Responder

  5. Não é possível separar a ética da estética da maneira que Kierkegaard fez. O “artista desesperado” e decadente, segundo Kierkegaard, é um esteta. Porém, um monge copista também era um esteta, ou um construtor de catedrais da Alta Idade Média também o era. Esta separação radical entre ética e estética, para mim, não faz sentido. Seria como se separássemos radicalmente o juízo, por um lado, da vontade, por outro lado; a vontade e o juízo, sendo conceitos diferentes, existem de uma forma interdependente.

    A ideia de acreditar (ter fé) para procurar entender, é uma ideia que vem (pelo menos) de Santo Anselmo de Aosta. Esta ideia consta da primeira asserção: «a fé sem a preocupação da virtude é uma fé irracional porque se acredita sem procurar entender».

    A segunda asserção, «a virtude sem fé é a virtude hipócrita, inconsequente e igualmente irracional, porque se toma a ética sem procurar saber a sua origem», parece-me menos complicada de entender.

    ****

    A ética não pode, à partida, ser separada de um qualquer tipo de religiosidade. Pode ser uma religiosidade imanente ou transcendente, mas existe sempre, subjacente a uma qualquer ética, uma qualquer religiosidade (uma qualquer metafísica). Quanto mais não seja, existe uma religião política subjacente a uma ética político-ideológica qualquer.

    A ética cristã (e de outras religiões universais, como o Judaísmo ou o Islamismo) depende da metafísica transcendental, ou seja, a metafísica transcendental é a condição da ética, assim como o é da estética.

    Ler, a propósito, o Estado da Ética em

    https://espectivas.wordpress.com/o-estado-da-etica/

    No caso do humanismo cristão, e portanto, da ética cristã, esta não pode ser verdadeira sem o pressuposto religioso, mesmo que este seja ténue e frágil. Dou o exemplo de C S Lewis, que juntou a ética à estética, acabando por reconhecer (quando se converteu ao catolicismo) que ambas tinham origem na metafísica.

    Portanto, a religião [cristã] é a condição da ética [cristã], e não o contrário disto. A “reflexão” e a tentativa de “compreensão da vida”, por exemplo, no caso de Lewis, é apenas o reconhecimento a posteriori da origem metafísica da ética — e neste sentido não existe nenhum colapso lógico. Podemos não abarcar a realidade transcendental de Deus, mas ao reconhecermos o Ser dessa realidade, estamos a seguir a lógica.

    Dou um exemplo para ilustrar aquilo que digo:

    Quando o positivismo diz que “a significação é a verificação” — ou seja, que só tem sentido racional aquilo que é verificável [pelo experimentalismo], e tudo o resto deve ser remetido ao “silêncio de Wittgenstein” — esta proposição positivista não é, ela própria, verificável, e por isso é totalmente absurda.

    Segue-se (e aqui entra a lógica) que a ciência positivista e o seu método têm a sua raiz / origem na metafísica. O mesmo acontece com a ética e a estética: têm origem na metafísica transcendental.

    O “trabalho individual” com vista à metanóia cristã é apenas um processo através do qual a metafísica é reconhecida (a posteriori) como uma dimensão causal da realidade. Neste sentido, o “estádio religioso” não é um fim de um processo humano de conversão — como se fosse algo que surge depois de findo esse processo (gnose): é antes e apenas o reconhecimento, por parte do Homem, de uma dimensão pré-existente da realidade (o “acordar do sono”, segundo Platão) — e a forma como esse reconhecimento acontece, depende do indivíduo, e não necessariamente (sublinho: necessariamente) de uma qualquer forma de “processo reflexivo” ou de “entendimento da vida”.

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    Comentar por O. Braga — Quinta-feira, 24 Março 2011 @ 9:49 pm | Responder


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