perspectivas

Quarta-feira, 7 Novembro 2007

Complementando Marx

Filed under: Religare — O. Braga @ 2:51 pm
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Quando me referi a Hegel, “disse” que este foi o melhor amigo que o antropocentrismo materialista filosófico poderia ter tido; toda a filosofia materialista que surgiu depois de Hegel foi, em muitos aspectos, derivada do seu raciocínio. O próprio Karl Marx, numa primeira fase da sua vida, foi um fã entusiasta de Hegel e daquilo a que se convencionou chamar de “Esquerda Hegeliana”. Mais tarde, enquanto Hegel pretendia justificar a realidade e os factos consumados a partir do “Absoluto” e da ideia de Finito e de Infinito, Karl Marx propõe uma filosofia que pretende transformar a realidade a partir do Homem como sendo o centro de tudo o que existe no Universo (megalomania e água benta, para cada um a que quiser).

“A filosofia e o estudo do mundo real estão entre si em relação, como estão o onanismo e o amor sexual” – Karl Marx (Ideologia Alemã)

Esta frase define Marx como sendo um “filósofo” que menosprezava a filosofia e defendia a acção e a prática revolucionária em vez da contemplação (teoria) e análise filosóficas; para Marx, o estudo da realidade material nada tem a ver com o mundo das ideias, ainda que a teoria de Marx não possa prescindir da elaboração de conceitos ideológicos, isto é, Marx colocava a acção em primeiro plano e a filosofia depois, mas na sua prática não fez outra coisa senão colocar a teoria como motor da acção. Eu diria que “a filosofia e Karl Marx estão entre si em relação, como está uma pessoa que valoriza a sopa que lhe deram e outra que cospe na própria sopa”.

Marx pegou em toda a filosofia pensada depois do racionalismo cartesiano e pretendeu “apagá-la”, retomando a história da filosofia da partir de Hegel e Nietzsche; para Marx, existiu um hiato na história da filosofia: depois de Descarte e Pascal, existiram três séculos em que não se passou nada até à visão Hegeliana do que “o que é real é racional, e o é racional é real”.
Por tudo isto, não considero Karl Marx como sendo um filósofo propriamente dito (embora tivesse formação em filosofia), mas um antropólogo que desenvolveu uma teoria da História e uma teoria da Sociedade que reduz a própria sociedade à sua estrutura económica, sendo, por isso, uma teoria económica e não propriamente uma contemplação filosófica.
O marxismo (como neoliberalismo de Hayek) não é uma filosofia mas uma teoria antropológica e económica, no sentido da ideologia política; ninguém vê na filosofia de Kant uma ideologia política; ninguém vislumbra uma ideologia política vinda de Espinosa. Kant e Espinosa sempre estiveram abertos à discussão das suas teorias, e não deram as suas ideias como definitivas e indiscutíveis. Em contraponto, Marx engendrou uma ideologia política, e como todas as ideologias políticas, tende a impor os seus valores sem admitir discussão, rumo a uma ditadura política e ideológica.

Uma das razões porque não simpatizo com Karl Marx é que este se comporta como um médico especialista numa determinada área, que despreza os seus colegas médicos especialistas em outras áreas. Quando um médico especialista nos diagnostica uma determinada maleita, o seu tratamento é, normalmente, multidisciplinar; uma doença no fígado pode necessitar até de apoio não médico, como o de um nutricionista. Karl Marx nega qualquer outra visão da realidade que não seja a sua, e anunciou o Fim da História, à boa maneira de Hegel, depois do seu “Manifesto”. Para Marx, a história da filosofia resumiu-se à sua teoria, e até o próprio Engels teve que se sujeitar, nas suas teorias filosóficas, às “guidelines” ideológicas de Marx; nem Jesus Cristo chegou a tanto, porque o Fim da História (Julgamento Final), segundo Jesus, seria coisa do futuro e não do presente.

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Há que dizer que Engels, que está sempre associado a Marx, foi o verdadeiro filósofo da Dialéctica. Engels foi buscar o princípio dialéctico ao panteísmo racionalista de Diderot e a Feuerbach, e ao racionalismo dogmático cartesiano.
Karl Marx, por seu lado, ignorou Feuerbach, os “idealistas” e os “românticos”, e pretendeu introduzir o Materialismo Histórico como sendo um novo tipo de materialismo, através do qual a interpretação do Homem (em sentido geral, e perdoem-me as feministas) e do seu mundo fosse um compromisso de transformação e, portanto, uma acção revolucionária. Com isto, Marx eliminou a essência determinável do Homem, essência inerente às suas relações privadas consigo próprio, a sua interioridade e a sua consciência, porque através de Marx, o Homem só se descobre nas suas relações exteriores com os outros Homens e com a natureza que supre a sua subsistência. A essência determinável do Homem definida pelos seus contemporâneos alemães (Kant, Fichte, Schopenhauer, Kierkegaard, Schelling, etc.) é substituída por uma essência individual indeterminável, na medida em que, para Marx, a essência do Homem depende exclusivamente das formas de trabalho e de produção. O Homem só existe nas suas relações de trabalho e resume-se a isso.

“Podemos distinguir o Homem dos animais pela consciência, pela religião, por aquilo que se quiser; mas os homens começaram a distinguir-se dos animais quando começaram a produzir os seus meios de subsistência, um progresso que foi condicionado pela sua organização física. Produzindo os seus meios de subsistência, os homens produzem indirectamente a sua própria vida material.” – Karl Marx (Ideologia Alemã)

Karl Marx diz que “os homens começaram a distinguir-se dos animais quando começaram a produzir os seus meios de subsistência”. O problema é saber quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha? Isto é, qual foi o factor decisivo e determinante: se o homem começou a produzir os seus meios de subsistência depois de ganhar consciência de si próprio, ou se ganhou consciência de si próprio (autoconsciência) depois de começar a produzir os seus meios de subsistência. Karl Marx defende aqui, clara e implicitamente, que o homem não tinha autoconsciência antes de começar a produzir os seus meios de subsistência, e que essa autoconsciência é consequência directa e exclusiva da “organização física” do Homem na sociedade que começou a produzir os seus meios de subsistência.
Cingindo-me a uma visão materialista da história humana, de certa forma, Marx nega Darwin e o próprio conceito dialéctico de Engels, na medida em que nega que “evoluções qualitativas” tenham dado origem a novas estirpes genéticas desenvolvidas a nível individual através de milhares de gerações, que poderiam ter condicionado o aparecimento da autoconsciência, antes sequer que os ancestrais do Homo Sapiens soubessem necessariamente manipular e moldar ou transformar os objectos naturais à sua disposição. O Homo Sapiens apareceu por mutações genéticas a partir de uma subespécie humanóide, e as mutações genéticas acontecem sempre em indivíduos que marcam geneticamente a sua prole, e não simultaneamente em todo um grupo de animais. A soma multigeracional de diversas mutações genéticas individuais condicionou a evolução de toda uma espécie humanóide que deu origem ao Homo Sapiens.
Marx era um radical, e como todos os radicais, nega, muitas vezes, o óbvio. É óbvio que o Homem começou a “produzir os seus meios de subsistência” à medida em que se foi tornando autoconsciente por mutações genéticas individuais que condicionaram a reprodução dos humanóides que lhe deram origem – e não o contrário. Primeiro, a autoconsciência progressiva e multigeracional, e em consequência, a manipulação cada vez mais sofisticada de objectos; isto parece-me óbvio, mas para Marx não era assim tanto, porque ele desvaloriza claramente a consciência do Eu filosófico em favor do primado exclusivo da produção de meios de subsistência e das relações de trabalho.

Para Marx, o ser humano é o que é na sua exterioridade, na relação com a natureza e com a sociedade que se resume ao trabalho e à produção de bens materiais – e a autoconsciência é decorrente da sua relação com o trabalho e com os outros seres humanos no processo de produção de bens materiais. Marx escreve mesmo que a autoconsciência humana é o reflexo exclusivo da actividade produtiva do Homem; isto não lembra ao diabo.
Portanto, o trabalho é, segundo Marx, a única manifestação da liberdade e da capacidade humana de criar uma forma de existência específica. Segundo Fichte, a essência humana é o “Eu infinito” (alma, ou espírito); para Marx, a essência humana é o “trabalho finito”, porque sendo o trabalho relacionado com as condições materiais e com as necessidades já criadas na sociedade numa determinada época da História Humana, a liberdade do trabalho como essência humana é sempre finita, limitada. Em nome de uma pretensa liberdade para os servos, Marx decretou a servidão eterna da Essência do ser humano. Não haveria outra e melhor forma de libertar os servos da Revolução Industrial?

Extrapolando, em modo irónico: para Marx, os macacos não têm autoconsciência porque não produzem; se os macacos produzissem, ganhavam autoconsciência e seriam humanos. Por isso é que os Tios da ex-URSS (amigos de Marx), da China (que também simpatizou com Marx), e dos EUA (inimigos de Marx), estiveram sempre e apesar de muitas divergências, todos de acordo com Marx ao consideraram o ser humano como sendo um macaco que necessita de ganhar consciência por via do trabalho forçado. Se não obrigarmos os macacos humanos a trabalhar por tuta-e-meia nas fábricas, ou de borla nos Gulag, como é que eles ganham autoconsciência?
Por outro lado, para Marx, Jesus Cristo inventou uma filosofia religiosa que é o “ópio do povo” (ao contrário do marxismo, que é o “ópio das elites”), porque esse tal Jesus nunca produziu nada de bens materiais e andou toda a sua vida a pedir esmola a uns e a outros; segundo Marx, Jesus era um macacão que não gostava de trabalhar e que inventou aquela estória do “nem só de pão vive o homem” para disfarçar a preguiceira e convencer o pessoal a dar uma moeda. Para Marx, Jesus era uma espécie de arrumador dos carros de luxo dos manguelas da trilateral Bilderberg, do G7 e do Bill Gates.

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Resumindo:

1) Para Marx, não existe uma essência ou natureza humana em geral; o Homem é um animal desprovido de alma, que só se distingue do macaco ou doutro animal irracional, porque exerce o “trabalho produtivo” (falta saber se as formigas não trabalham de forma produtiva, transformando a Natureza e servindo-se, para tal, das suas leis físicas).
2) O Homem é sempre condicionado pelas relações de trabalho com os seus semelhantes e com a natureza (Só?)
3) As relações de trabalho condicionam o indivíduo, mas os indivíduos, em consequência, e só em consequência das relações de trabalho, condicionam-se a si próprios promovendo a sua transformação ou o seu desenvolvimento.
4) O Homem é um ser social – tal como as formigas e as abelhas; a diferença está na autoconsciência (alguém já perguntou a uma formiga a opinião dela?)

[continua]

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2 comentários »

  1. É sempre um gosto lê-lo, meu amigo.

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    Comentar por Victor Rosa de Freitas — Quinta-feira, 8 Novembro 2007 @ 10:34 pm | Responder

  2. Muito boa essa sua explicação sobre a obra de karl marx!!!!

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    Comentar por alguem — Domingo, 2 Março 2008 @ 1:02 pm | Responder


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