perspectivas

Sexta-feira, 2 Novembro 2007

Divagações sobre a Ética (Bertrand Russell)

Filed under: ética,Religare,Ut Edita — O. Braga @ 1:41 pm
Tags: , , ,

Bertrand Russell diz que a Ética se resume ao “desejo individual” transferido para a dimensão colectiva. Quando eu digo: “José Sócrates é um engenheiro da treta”, acreditando eu no que eu digo ou não, sendo na minha opinião, verdade ou não, eu “desejo” que todos “desejem” acreditar no que eu digo. E se todos ou a maioria acreditarem no que eu digo, passa a fazer parte da Ética a ideia de que José Sócrates é um engenheiro da treta. Isto é o resumo da visão de Russell sobre a Ética.

“A ética não contém asserções verdadeiras ou falsas, mas afirmações que traduzem desejos de um certo tipo geral, a saber, daquele que se refere aos desejos da humanidade em geral e dos deuses, anjos ou diabos, se existirem. A ciência pode discutir a causa dos desejos e os meios para actuar sobre eles, mas não pode conter nenhum juízo genuinamente ético, dado que se refere aquilo que é verdadeiro ou falso” – Bertrand Russell (Religião e Ciência)

Russell resume a Ética a uma componente da Política – diria mesmo que, para Russell, a Ética e a Política são a mesma coisa.
Porque – seguindo o raciocínio de Russell – a Ética não é verdadeira ou falsa (“não contém asserções verdadeiras ou falsas”), é tão legítima a Ética de Hitler, que “desejou” a morte de milhões de pessoas, e que “desejou” e convenceu milhões de alemães a “desejar” matar milhões de não-alemães, como a Ética de Jesus Cristo, que “desejou” a paz entre os homens. Para Russell, a Ética de Hitler e a Ética de Jesus Cristo são equivalentemente irracionais e por isso, igualmente legítimas.

Russell entende que a Moral, que como sabemos é decorrente da Ética, “deve procurar apenas alterar os desejos dos homens de modo a diminuir o número de ocasiões de conflito, tornando possível a realização dos respectivos desejos” (sic, “Religião e Ciência” – Bertrand Russell). Seguindo o raciocínio de Russell, se os ‘desejos’ de uma parte dos homens que compõem a nossa sociedade fosse o de matar pretos, a Moral tanto podia procurar alterar os ‘desejos’ desses homens que ‘desejam’ matar pretos, como poderia procurar alterar os ‘desejos’ dos homens que não ‘desejam’ matar pretos, tendo como objectivo último diminuir as ocasiões de conflito e tornando possível a realização dos respectivos ‘desejos’ da sociedade em geral. Para Russell, o facto de se matarem pretos. ou não. é um detalhe despiciendo e de importância relativa; o importante para Russell não é que se matem pretos ou deixem de os matar; o importante é que a sociedade esteja de acordo, através do seu conceito de Moral, em matar pretos ou não, de forma a evitar conflitos e tornando possível a realização dos “desejos” individuais traduzidos na vontade colectiva. A pergunta que eu faço é a seguinte: como é que um professor de Filosofia deve ensinar a Ética de Russell a alunos de 16, 17 e 18 anos?

Russell diz que “a ciência não pode conter nenhum juízo ético” porque a ciência se refere “àquilo que é verdadeiro ou falso”. Esta sentença de Russell demonstra a sua imensa estupidez e que a probabilidade de um cientista ou filósofo ser estúpido é a mesma da de um analfabeto – e só porque os cientistas e filósofos estão em minoria em relação aos analfabetos, nota-se-lhes menos a estupidez em circulação. Numa altura em que se sabia já que o determinismo científico estava morto, através dos escritos de Niels Bohr, Werner Heisenberg e de Albert Einstein, em que a esmagadora maioria dos cientistas quânticos punham já em questão a causalidade científica, Russell escreve esta pérola sobre a “verdade” e “falsidade” da ciência. Russell não coloca aqui, sequer, a possibilidade da ciência estar errada em determinado estádio da sua evolução, o que vai contra os princípios das divisões fundamentais da sua própria teoria sobre a Lógica. Russell, para além de estúpido, era incoerente, e porque a maioria dos estúpidos são coerentemente estúpidos, acumulando a estupidez à incoerência, Russell era um pedante (estupidez + incoerência = pedantismo).

É inexplicável que um filósofo que defende o primado da Lógica sobre tudo o que existe defenda simultaneamente uma ideia de Ética como sendo a soma aritmética dos “desejos” individuais subjectivos, sendo que o “desejo” é, para além de subjectivo, essencialmente irracional (à luz da Lógica racionalista). O que Russell quis dizer é que a Ética é irracional, o que prova a existência de um imenso problema pessoal que Russell sempre teve com a Ética e com a Moral ao longo da sua vida.

Se houve um filósofo sobrestimado pelo mainstream político no nosso tempo, foi Bertrand Russell. Russell esteve preso em 1916 por publicar artigos contra a entrada da Inglaterra na I Guerra Mundial, declarando-se como “objector de consciência”. A verdade é que Russell, filho da nobreza inglesa, era um “Tio” aristocrata e snobe que, com o seu “pacifismo” hipócrita, conseguiu captar a atenção da comunidade intelectual inglesa para sua existência. Antes de ser preso por “pacifismo”, sendo Russell da alta nobreza inglesa, era um ilustre desconhecido como filósofo, apesar de se ter fartado de escrever coisas que ninguém lia; o seu “pacifismo” circunstancial valeu-lhe a notoriedade.
Colocar Russell na sua verdadeira dimensão, é limitá-lo à sua Lógica, às Antinomias e – vamos lá ser benignos, porque a Semiótica de Morris tem coisas muito melhores – à Teoria da Linguagem. Tudo o resto são excrescências subjectivas de uma vida vivida sem regras, e o “desejo” de que a Ética fosse moldada à vontade do freguês.
Na minha muito sincera opinião, Bertrand Russell foi um filósofo mediano que andou toda a vida de chancas, e a quem a Política colocou umas andas para assim tentar justificar uma série de atentados à Ética cristã.

6 comentários »

  1. “Russell diz que “a ciência não pode conter nenhum juízo ético” porque a ciência se refere “àquilo que é verdadeiro ou falso””
    “Numa altura em que se sabia já que o determinismo científico estava morto, através dos escritos de Niels Bohr, Werner Heisenberg e de Albert Einstein, em que a esmagadora maioria dos cientistas quânticos punham já em questão a causalidade científica, Russell escreve esta pérola sobre a “verdade” e “falsidade” da ciência.”

    O livro do qual você extraiu o excerto fora escrito em 1931 (se é que não o pegou na internet). Em 1927, Russell escreve um livro chamado “An out line of philosophy” escrevendo sobre o que a revolução científica da Mecânica Quântica causara no pensamento filosófico até então, descrevendo as teorias de Bohr, Schrodinger e Heisenberg.

    Um livro não se analisa por um excerto isolado, mas pelo contexto da obra e da bibliografia do autor. O que você acabou de cometer fora um sofismo. Se não sabe os princípios de uma análise textual, seria melhor não arriscar passar vergonha na internet, concorda?

    Além do mais, parece-me que você incluiu Einstein na lista dos não “deterministas”, o que é um erro. A famosa frase de Einstein “Deus não joga dados com o Universo” fora uma crítica ao papel atribuído ao acaso pela nova física. Einstein era determinista, mas não conseguiu deter o sucesso da quântica. Toda pessoa que lê algo sobre História da Ciência conhece o famoso debate entre Einstein e Bohr. Você pode ler algo no blog do Marcelo Gleiser:

    http://marcelogleiser.blogspot.com/2001/04/o-debate-einstein-bohr.html

    Além da ignorância sobre Russell (e arrogância) ao pensar que o mesmo não tinha noção da nova física, o que era só pesquisar, ainda por cima apresenta Einstein como não-determinista, o que revela além da ignorância filológica, ignorância científica.

    Sobre a ética defendida por Russell (que em grande parte herdou da tradição de Hume e Mill), Russell nessa época já estava inserido no pensamento moderno, no qual há um relativismo de valores com base em estudos antropológicos. Russell além de matemático, filósofo, sempre demonstrou muito conteúdo cultural em suas obras. E claro, melhor do que ninguém, Russell inferiu “por que não é cristão”, evidenciando que não há qualquer razão para crer-se na fantasia cristã.

    No Brasil e no mundo, vivemos no contexto pós-modernista, mas isso não indica que você deva concordar com tal pensamento, porque, parece-me que você é cristão. Como o Russell logo observou, a palavra “cristão” hoje conota muitos significados, mas, suponho que você acredita em várias superstições, como por exemplo mitos em torno de Jesus (caso tenha existido), à virgindade de maria, à ressurreição, entre outros. Que ignorante você já demonstrou ser, não há dúvidas, mas, ainda por cima consegue ser supersticioso? Os blogs estão realmente perigosos.

    E eu que apenas estava prestes a comentar seus erros (pois encontrei o blog por acaso no google), mas sua falta de senso é evidente. Quem escreve o que não quer, lê o que não quer. Faço a sugestão de estudo ao invés de orar para um Jesus supostamente imaginário antes de escrever bobeiras na internet.

    Um abraço, bons estudos.

    Gostar

    Comentar por Garcia — Terça-feira, 3 Junho 2008 @ 8:06 am | Responder

  2. 1. O Livro “Religião e Ciência”, de Russell, pode ser encontrado em qualquer biblioteca pública aqui em Portugal. Inclusive, podemos requisitá-lo e levá-lo para casa (pagando um pequeno valor). Não sei se no seu Brasil é assim, mas aqui podemos ler o que quisermos e quando quisermos. Entendeu?

    2. É impossível, num postal de um blogue, resumir o pensamento total de um filósofo; mas é possível fazer uma crítica a um determinado aspecto do seu pensamento — e foi isso que foi feito: a critica à “ética dos desejos”, de Russell.

    3. Não incluo Einstein na lista dos “não-deterministas” — pelo contrário, Einstein colocou em causa a formula de Heisenberg e a teoria de Bohr (ver); você parte de um principio e de uma presunção totalmente errada acerca do meu raciocínio, para me chamar de “arrogante” a seguir;

    4. Meu caro amigo: não ataque as ideias de alguém, insultando pessoalmente : a isso chama-se “crítica Ad Hominem”;

    5. Eu não acredito em mais superstições do que as em que Vc acredita (que podem ser diferentes das minhas); a diferença é que só que Vc tem o “alvará de inteligente”, garantido pelo cientificismo, que lhe dá a “legitimidade” para criticar as superstições dos outros, e ao mesmo tempo, sacralizar as suas superstições. A História vai julgar gente como Você, e as futuras gerações vão se rir da sua petulância;

    6. A sua perigosidade não deixa dúvidas: imbuído do “pensamento correcto”, classifica as ideias dos outros como “perigosas”, sem uma análise objectiva, tirando apenas conclusões superficiais de uma análise pela rama (como convém a quem não tem argumentos), o que tacitamente implica a ideia da validação do pensamento único conseguível através da limitação da liberdade de pensamento. Vc é extremamente perigoso, e gente da sua laia deve ser denunciada publicamente.

    7. Vc acabou por não fazer nenhuma defesa da “ética do desejo” de Russell; limitou-se a chamar-me de “arrogante” e de “cristão” (“cristão” passa a ser insulto). Foi muito pobre, o seu comentário…!

    8. “Existem duas coisas infinitas: o universo e a estupidez humana — e não estou certo sobre a infinitude do universo” — Einstein. Esta frase aplica-se a si que nem uma luva.

    Evolua. Aprenda. Nietzsche morreu. O mundo já não é marxista. A coisa mudou.

    Gostar

    Comentar por Orlando — Terça-feira, 3 Junho 2008 @ 5:14 pm | Responder

  3. […] recebo este comentário a este postal, que traduz o perigo do pensamento único. Nem de propósito: o pensamento único […]

    Gostar

    Pingback por O Arquipélago de Orwell « perspectivas — Terça-feira, 3 Junho 2008 @ 5:41 pm | Responder

  4. […] na neurobiologia de Damásio, o cientificismo afirma hoje a validade a ética de Russell (ver o que escrevi sobre ela). Entretanto, o físico e matemático francês Roland Omnès, um dos grandes especialistas da […]

    Gostar

    Pingback por O cepticismo do novo cientificismo « perspectivas — Domingo, 19 Abril 2009 @ 12:52 pm | Responder

  5. […] Bom, parece-me que se pretende que a ética seja sujeita a voto, à moda do modelo discursivo de Habermas. Se o povo dito “católico” votar que o aborto é aceitável em determinadas situações, então o clero católico — que o Papa abomina mas que ambígua e simultaneamente representa — poderá demonstrar alguma tolerância em relação ao aborto em nome da “democracia ética”. Parece-me que se pretende aproximar a ética da Igreja Católica da ética de Bertrand Russell. […]

    Gostar

    Pingback por Vem aí mais uma polémica papal: a “ética democrática” à moda de Habermas | perspectivas — Domingo, 3 Novembro 2013 @ 8:13 am | Responder

  6. […] Bom, parece-me que se pretende que a ética seja sujeita a voto, à moda do modelo discursivo de Habermas. Se o povo dito “católico” votar que o aborto é aceitável em determinadas situações, então o clero católico — que o Papa abomina mas que ambígua e simultaneamente representa — poderá demonstrar alguma tolerância em relação ao aborto em nome da “democracia ética”. Parece-me que se pretende aproximar a ética da Igreja Católica da ética de Bertrand Russell. […]

    Gostar

    Pingback por Vem aí mais uma polémica papal: a “ética democrática” à moda de Habermas | Bordoadas — Domingo, 3 Novembro 2013 @ 8:17 am | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: