perspectivas

Sexta-feira, 2 Novembro 2007

Complementando Fichte (2)

Filed under: Religare — O. Braga @ 1:38 pm
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Diz-se que a filosofia de Fichte é a filosofia do “infinito”. Eu penso que a filosofia de Fichte é a filosofia do “Absoluto”, e “Infinito” é coisa diferente.
O “Infinito” distingue-se do “Finito” e do “Absoluto”. O “Finito” caracteriza a vida e o mundo da criatura limitada pelo Espaço-tempo. As realidades finitas podem não ter fim, mas têm concerteza um princípio, pois são criadas. O “Infinito” caracteriza objectos ou sujeitos sem princípio nem fim, mas que não sendo criados, são derivados do Absoluto (consubstanciais ao Absoluto), e que têm a capacidade de transcendência sobre o Espaço-tempo, embora não existam necessariamente alheados (fora) do Espaço-tempo. O “Absoluto” não tem princípio nem fim, e está totalmente fora e alheado do Espaço-tempo (ver post anterior).

Estou mais de sintonizado com Fichte do que com Schelling, quando o primeiro distingue o “Absoluto” do “Saber Absoluto” (a Razão Infinita), sendo que o saber absoluto é derivado (consubstancial) do Absoluto e pertence à dimensão “infinita” da existência, sendo que a Natureza é a imagem “finita”, a “sombra” ou Ersatz do Absoluto – enquanto que Schelling integra a Razão e a Natureza no Absoluto. Este conceito fichteano da Natureza como “sombra” do Absoluto é corroborado mais tarde pelo físico inglês Arthur Stanley Eddington (1882 – 1944), através de uma gnoseologia (1) idealista que se baseava no facto de a ciência física moderna reconhecer que trabalha “num mundo de sombras”, perante o qual a única realidade sólida é a que o homem tem à sua disposição através da sua consciência.

A visão de Schelling (como a de Hegel) é uma visão panteísta racionalista (materialismo de Diderot e o romantismo de Feuerbach unidos no mesmo conceito) de um Infinito (Absoluto) que incorpora o Finito (formando o Todo), e por isso, para Schelling, tudo o que existe faz parte integrante do Absoluto. Não concordo com quem diz que o tipo de panteísmo de Schelling ou de Hegel é o mesmo do de Espinosa, porque Espinosa recorre várias vezes nos seus escritos à fórmula “Deus sive natura” (Deus ou a Natureza), enquanto que Schelling tende a incluir a Natureza no conceito de deidade (Absoluto) e Hegel inclui definitivamente o Finito (a Natureza) no Infinito (Absoluto).

A preocupação filosófica de Schelling está relacionada com a Arte. Fichte tem uma visão de inutilidade da Natureza (de que eu discordo), e Schelling pretende fazer vincar a importância da Natureza e da Arte. O que Schelling fez em relação a Fichte, foi “deitar fora o bebé com a água do banho”. Schelling incompatibilizou-se pessoalmente com Hegel e com Fichte, o que revela uma falta de flexibilidade argumentativa.
A Arte, a Estética, a Ética, a Moral, etc., são projecções do Absoluto que nos chegam tanto pela via do Eu (Infinito), como por via do Não-eu (Finito). O niilismo existencialista de Fichte resulta de uma subjectividade que não condiciona a sua visão dualista do saber absoluto e do Absoluto.

Schelling estabelece a “forma absoluta de todo o saber” em torno do Eu que é incondicionado, enquanto que o Não-eu é condicionado, sendo que tudo o que é condicionado é determinado pelo incondicionado.
Schelling talvez misture o conceito de “Eu infinito” com o “Eu Absoluto”; o “Eu infinito” é condicionável por si próprio, é auto-condicionado, enquanto que o “Eu Absoluto”, este sim, é incondicionável. O “Eu infinito”, não criado, existe como derivação do “Eu Absoluto”, é consubstancial ao Absoluto, e as limitações que o “Eu infinito” tem são as que impõe a si próprio.
O Eu de Fichte e o Absoluto de Schelling tem ambos actividade infinita. Fichte atribui actividade infinita ao Eu, distinguindo, contudo, o “Eu” do “Absoluto”; Schelling atribui actividade infinita ao Absoluto, quando Fichte atribui ao Absoluto a Estaticidade Intemporal própria do Absoluto. Fichte distingue, pelo menos implicitamente, o “Infinito” do “Absoluto”.

Como referi anteriormente, “o Finito” não tem, necessariamente, fim, mas tem um princípio, porque foi criado. Para Schelling e Hegel, o “Finito” tinha princípio e tinha que ter um fim. Esta divergência no conceito de Finito faz toda a diferença.

Para Hegel, as criaturas estão incorporadas no Infinito (ou “Total” ou “Absoluto”, que para Hegel era coisa indiferente), fazem parte do Infinito. Hegel diz que o Infinito é a única e exclusiva realidade das coisas, não existe “para além” do Finito, isto é, o Infinito inclui o Finito, supera o Finito e anula-o em si próprio. Hegel diz que o Finito só existe incorporado no Infinito, enquanto Fichte separa a Natureza (o Finito) do Infinito e do Absoluto.

Hegel argumenta que, segundo Fichte, sendo o Infinito a delimitar e a justificar o Finito, o Finito, para se adequar ao Infinito e unir-se a ele, encontra-se projectado num progresso em direcção ao Infinito e que, por isso, jamais alcançará o seu termo (a união com o Infinito). Hegel parte do princípio de que o Finito tem que ter um fim, um termo, e que esse termo é a união com o infinito que nunca ocorrerá, se se tiver em consideração a teoria de Fichte – quando o Finito não tem, necessariamente, que ter um fim, mas tem sempre um princípio. Ademais, só se pode juntar ao Infinito o que tem características e a essência do Infinito: o Eu.
Segundo Hegel, o Infinito não pode ser colocado “ao lado” do Finito, pois neste caso, o Finito seria obstáculo, e o limite do Infinito seria a transformação do Infinito em finito.

Referi aqui o “princípio Evolucionário” do Absoluto, que revela o Absoluto expansivo por si próprio e identificado com o Finito. Toda a realidade finita do Espaço-tempo encontra-se sob o impulso volitivo do Ser Absoluto evolucionário, numa mobilização sempre ascendente e numa unificação perfeccionante das criaturas em todas as fases e valores da realidade finita. Eu diria, ao contrário de Hegel e indo ao encontro de Fichte, que o Infinito não se encontra “ao lado” do Finito como Hegel presume ser ideia de Fichte, nem engloba o Finito como Hegel pretende que seja, mas encontra-se essencialmente alheado (“fora”) do Finito – que é o que realmente Fichte, tal como Espinosa, quis significar. A criatura inteligente finita, limitada pelo Não-eu finito (a Natureza), perscruta o Absoluto a partir do Finito utilizando como instrumento o seu Eu Infinito, enquanto o Ser Absoluto olha o Finito a partir do Absoluto e através o Infinito. O Infinito é, em si próprio, uma dimensão essencial distinta do Finito e do Absoluto.

Segundo Hegel, “o conceito fundamental da filosofia”, o verdadeiro Infinito, deve anular o Finito, reconhecendo e realizando, por detrás das aparências do Finito, a sua própria infinitude. “O infinito é afirmativo e só o finito é superado”. No fundo, Fichte diz exactamente o mesmo, mas com mais propriedade, quando se refere ao Saber Absoluto, à sua derivação do Absoluto e ao conceito de Natureza como criação (imagem) do Absoluto. Hegel não deixa de ter alguma razão quando intui que o Infinito actua no Finito, isto é, influencia o Finito, mas a verdade é que o Finito actua também no Infinito. Fichte intui o mesmo, separando, no entanto, a essência do Infinito da essência do Finito. Porém, Hegel fez o que Fichte não quis fazer: aboliu o Finito.

“Aquilo que é racional é real; aquilo que é real é racional” – Hegel

A filosofia quântica e a Física Teórica vieram provar que nem sempre o que é real é racional, pelo menos à luz do Saber disponível. Quando a quântica observa os fenómenos atómicos, opera na fronteira entre o Finito e o Infinito. À escala atómica, demonstrou-se que a observação de um fenómeno quântico modifica-o de uma forma imprevisível. Toda a observação que pretenda determinar a posição de uma partícula atómica, ou modifica a velocidade dessa partícula, ou determinando-se a velocidade, a sua posição modifica-se, porque não é possível determinar simultaneamente a posição e a velocidade de uma partícula quântica. Os cientistas quânticos foram obrigados a incluir na análise dos fenómenos atómicos as próprias modificações que a observação provoca neles, sem eliminar, contudo, a elevada imprevisibilidade dos fenómenos quânticos. O determinismo científico rigoroso, implícito nesta citação de Hegel, deixou de existir. O princípio da causalidade, que sempre foi considerado o fundamento da explicação científica, passou a ser questionado pelos cientistas quânticos, na medida em que o princípio da causalidade inclui o determinismo quando prevê os acontecimentos futuros de uma forma infalível. Os cientistas quânticos deram-se conta de que a observação da realidade na fronteira com o Infinito deve obedecer a uma metodologia diferente da observação do Finito, porque o Infinito e o Finito são realidades essenciais diferentes.

Se a filosofia quântica e a Física Teórica vieram provar que Hegel estava errado, a quântica em nada contradiz Fichte, porque este sempre defendeu a diferença essencial entre o Finito, o Infinito e o Absoluto.

A teoria científica do Big Bang revela que o nosso Universo surgiu a partir do Nada, e se expande a uma velocidade exactamente igual (proporcional) à sua gravidade – porque se assim não fosse, ou se expandiria a uma velocidade tanta que não permitiria a criação das estrelas, ou voltaria ao ponto de partida em pouco tempo. A ideia de Hegel de que este nosso Universo finito faz parte integrante do Infinito – a ideia de que o Finito é idêntico ao Infinito –, para além de ser a negação da teoria científica do Big Bang, na medida em que Hegel inclui o Nada (a “Total Ausência”) no Finito, transforma o Infinito numa criação finita por parte do Absoluto, em vez da noção de “derivação consubstancial” do Infinito por parte do Absoluto, defendida por Fichte.

Se a teoria do Big Bang e a quântica fossem conhecidas no tempo de Hegel, talvez ele mudasse de opinião, e passasse a considerar a Natureza finita como sendo algo distinto do Infinito, o Finito “alheado” do Infinito, e não “ao lado” do Infinito; em contraponto, a teoria do Big Bang não belisca o essencial da teoria de Fichte. Talvez por isso é que Hegel é tão citado pelo Materialismo Filosófico na sua fundamentação, e Fichte é ostensivamente ignorado. Hegel foi o melhor “amigo” do Materialismo Dialéctico e do Existencialismo que surgiram a seguir. Não há curriculum em cadeira de Filosofia que não pretira Fichte e privilegie Hegel, em nome do racionalismo dogmático.

(1) Gnoseologia: termo que designa a disciplina que se aplica ao estudo do Conhecimento. Situa-se na fronteira entre a Lógica e a Psicologia. Foi absorvida pela “Epistemologia”, mas dado o duplo sentido de “epistemologia” – o de Gnoseologia e o de Estudo Histórico – prefiro utilizar o termo antigo.

1 Comentário »

  1. Muito bom obrigado espero que poste mais conhecimento para que o seu eu me modifique obrigado

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    Comentar por Carlos — Domingo, 18 Maio 2008 @ 9:04 pm | Responder


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