perspectivas

Quarta-feira, 31 Outubro 2007

Complementando Fichte (1)

Filed under: Religare — O. Braga @ 12:37 pm
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É bem provável que o Universo que analisamos hoje através da ciência seja apenas um dos muitos universos habitados possíveis e existentes, e com características semelhantes mas não iguais. Para além dos múltiplos universos habitados por criaturas em evolução, existe a probabilidade da existência de um “espaço exterior”, onde novos universos embrionários, à espera do Big Bang, se preparam para cumprir a Vontade do Absoluto. Sobre a filosofia quântica falaremos mais adiante; é essencial que falemos primeiro em Fichte.

Para Fichte, a libertação do Homem do domínio do mundo natural processa-se através da ciência e da passagem da ciência à fé. A minha tese da “fé racional” reside, em parte, neste conceito de Fichte. O cristianismo percebeu esta ideia, assimilou-a e interiorizou-a, ao contrário do islamismo. A ciência é o caminho da libertação do homem – mas quando me refiro aqui à “Ciência”, não significo o “dogmatismo racionalista”, nem tão pouco à “Técnica”: refiro-me à Natureza como repositório do Saber e como “sombra” do Absoluto.

“O Absoluto é absolutamente aquilo que é, repousa sobre e em si mesmo absolutamente, sem mutação nem oscilação, firme, completo e fechado em si próprio. O Absoluto é, por outro lado, aquilo que é absolutamente porque é por si próprio, sem qualquer influência exterior estranha; porque ao lado do Absoluto nada permanece estranho, uma vez que tudo o que não é absoluto desaparece” – Fichte, “Wissenschaft”, 1801

A minha ideia de Absoluto difere um pouco da de Fichte, aproximando-se de Schelling na capacidade volitiva do Absoluto. Contudo, discordo de Schelling no que respeita à ideia da unicidade do sujeito e objecto no Absoluto, porque o Absoluto caracteriza-se pela unidade (factual ou potencial) mas somente em todos os níveis supra-materiais da realidade, e não na Natureza que percepcionamos; o Uno Absoluto é composto e tem vários níveis ou “princípios”, funciona a níveis pessoais, pré-pessoais e supra-pessoais. Contudo, concordo com a ideia de Fichte de que o Absoluto “é absolutamente aquilo que é e repousa em si mesmo” – aquilo a que chamo de “princípio da Estaticidade”: o Absoluto contido em si próprio e existente em si. Mas, na minha opinião, em oposição à imutabilidade do Absoluto preconizada por Fichte, existe o “princípio Evolucionário” do Absoluto, que revela o Absoluto expansivo por si próprio e identificado com as criaturas dos diversos universos. Por outro lado, em oposição ao conceito de Fichte de “Absoluto fechado em si próprio”, defendo o “princípio Potencial” do Absoluto, que caracteriza a capacidade da Vontade do Absoluto em si próprio e com propósito em si. No fundo, quando Schopenhauer se refere à Vontade, refere-se à Vontade emanada do Absoluto, ao “princípio Potencial”. O “princípio Último” revela o Absoluto que se projecta a si próprio, transcendendo o Espaço-tempo. Seria maçador estar aqui a esmiuçar este raciocínio, e por isso, passemos adiante.

Na sequência do seu conceito de Absoluto, Fichte defende a ideia de que a doutrina da ciência, sendo uma doutrina do Saber, não pode, contudo, actuar para além de qualquer saber possível; por isso, a ciência parte primeiro do saber absoluto (“origem primária”, em contraponto à “origem absoluta”), e não do Absoluto. Porém, o Saber, sendo absoluto, é inerente à sua origem, isto é, ao Absoluto; a origem absoluta do Saber não é o saber, mas o próprio Absoluto. Seguindo este raciocínio, chegamos à ideia de que o Saber é saber da própria origem – é um Saber com própria origem no Absoluto, isto é, da criação que o Absoluto faz do Saber.
Distingo aqui Saber com maiúscula (substantivo) de saber com minúscula (verbo substantivado), para tornar inteligível a diferença de conceitos.

Se quiserem, podem substituir o termo “Absoluto” por “Deus”; seria uma forma de vingança em relação a uma professora de Filosofia que tive a seguir ao 25 de Abril de 1974, que fazendo-me perguntas em torno do Materialismo Dialéctico (que estava então na moda), deu-me quatro valores no terceiro trimestre do meu 7º Ano, obrigando-me a ir a exame – tudo porque eu disse, a certa altura e no meio de uma resposta, que acreditava na “existência do Absoluto”. “Do Absoluto?!” – Perguntou a professora, intrigada e marxista. “Sim. O Absoluto é Deus.” – Respondi. “Pode sentar-se; está chumbado!” – retorquiu sem qualquer hesitação ou dúvida dialéctica.

Sendo que o Saber é saber da própria origem (o Absoluto), é também o saber da própria origem do Absoluto, isto é, a ciência faz parte do saber que deu origem ao próprio Absoluto, na medida em que a ciência é uma criação que o Absoluto faz do saber. Quando o Saber tenta perscrutar a sua própria origem, o Saber é saber e mais que saber, isto é, é o Saber em conjunção com o Absoluto. Esta união do Saber com Absoluto não significa “fusão”, porque os dois termos permanecem alheados – o Saber não é o Absoluto, e o Absoluto não é o Saber).

“Se o subjectivo – isto é, o Saber – e o objectivo – o Absoluto – fossem originariamente indiferentes, com poderiam ser diferentes no mundo?” – Fichte, Ib.

Fichte explica a passagem da substância (noumeno) aos acidentes (fenómenos) – o que Espinosa não conseguiu fazer. Fichte atribui essa passagem através da forma fundamental do Saber: a Reflexão. A Reflexão é um acto de liberdade que separa o Saber do (Ser) Absoluto, mas que simultaneamente faz o Saber derivar do (Ser) Absoluto.

“Se se pergunta qual é o carácter da doutrina da ciência nos confrontos do unitarismo e do dualismo, a resposta é esta: é do unitarismo no sentido ideal porque sabe que, como fundamento de todo o saber, e para além de todo o saber, existe o eterno Uno; é o dualismo em sentido real, em relação ao saber, na medida em que ele é realmente colocado. Com efeito, existem dois princípios fundamentais: a absoluta liberdade e o absoluto ser; e sabe-se que o absoluto Uno não se pode alcançar em nenhum saber real ou de facto, mas apenas pensando.” – Fichte, Ib.

Sendo que o Saber Absoluto e o Absoluto estão diferenciados, o nosso mundo surge ligado ao Saber, e segundo Fichte, o mundo é uma manifestação ou uma cópia (“Ersatz”) do Absoluto. Assim, o mundo aparece desprovido de realidade própria, mas uma derivação do Absoluto (o Saber que, como vimos, também “deriva” do Absoluto, é inerente ao Absoluto).

“Se se fala do “mundo melhor” e dos caracteres da divindade que se encontram neste mundo a resposta é esta: o mundo é o pior de todos os possíveis porque ele, em si próprio, não tem qualquer sentido.” — Fichte, Ib.

Perpassa aqui, em Fichte, um niilismo que contudo é radicalmente diferente do niilismo de Nietzsche e se assemelha mais ao existencialismo de Kierkegaard. Fichte tem uma noção do “Absurdo” do mundo, mas é um absurdo “pessoano”, ligado ao Absoluto e ao Saber Absoluto. Fichte conclui que, em presença do Absurdo do mundo, face à nulidade intrínseca do mundo, resulta a possibilidade de libertar-se dele. Sendo que a Reflexão é um acto de liberdade que condiciona o mundo, o mundo pode ser superado pela Reflexão e encarado como um meio de libertação.
Aqui, não estou totalmente de acordo com Fichte: penso que só faz sentido a Reflexão quando não existe o Absurdo, quando existe algum sentido na Natureza. A Reflexão do Absurdo resulta em Absurdo. Aquilo que consideramos “Absurdo” faz parte do processo evolutivo do Saber. O Absurdo é uma manifestação ideológica resultante da incompreensão da Realidade.

“A fé, ao dar realidade às coisas, impede-as de serem ilusões vãs: nisso consiste a ratificação da ciência.” — Fichte

A Oração recomendada pelas diversas religiões é uma forma de “Reflexão comunicativa” com o Ser Absoluto; as Reflexões filosóficas e científicas, estando ligadas ao Saber e ao saber absoluto, são meios de comunicação com o Absoluto, mesmo que quem reflicta pense que o Absoluto não existe – porque faz parte do Saber (e da sua evolução em direcção ao saber absoluto) a negação do próprio saber absoluto e do Absoluto. A Ignorância é uma forma do Saber, é uma condição constante do Saber que perscruta o saber absoluto; a Não-ignorância é o próprio saber absoluto, é a comunhão ideológica com o Ser Absoluto.

“Elevar acima de todo o saber até ao puro pensamento do Ser Absoluto e da acidentalidade do Saber e enfrentar esse mesmo Ser, tal é o ponto mais alto da Doutrina da Ciência.” – Fichte, Ib

Fichte conclui, assim, que a ciência (Saber) sem ligação ao Ser Absoluto faz parte do Absurdo do mundo, não só porque o Saber está ligado ao saber absoluto, como porque o saber absoluto é inerente ao Ser Absoluto. Eu diria que a ciência sem ligação ao Ser Absoluto é o Saber num estádio incipiente de evolução.

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Progressão metempsicosística do Saber

Quando dizemos “Ciência da Natureza ”, ocorremos num pleonasmo, porque a Ciência e a Natureza são a mesma coisa. Seria o mesmo que dizermos “ciência da ciência”. Sendo que a ciência é inerente ao Saber absoluto, e que a Natureza é imagem do Saber absoluto inerente ao próprio Absoluto, a Natureza é a “ciência condensada”, é o reflexo do Absoluto que contém o próprio saber absoluto. A Natureza é a “sombra” do Absoluto e, simultaneamente, o repositório do saber absoluto (dualismo da Natureza).

“O objectivo da vida da humanidade neste mundo é o de conformar-se livremente à Razão em todas as suas situações” – Fichte

A evolução da ciência entre as criaturas – sendo a ciência o Saber em evolução em direcção ao saber absoluto – é irreversível, salvo no caso de uma catástrofe global que destrua as bases do Saber acumulado. Herdamos hoje o Saber acumulado ao longo de milénios de Humanidade. Fichte divide a História em dois estádios: a “idade da inocência”, em que a Razão é ainda inconsciente, instintiva, e o “Reino dos Fins” (de Kant) em que a Razão assume e domina. A primeira época é a “época do instinto”, em que a Razão governa a vida humana sem a participação da Vontade; esta primeira época corresponde ao que as religiões New Age com inspiração no Budismo chamam hoje de “Plano Astral”. A segunda época é a “época da autoridade” em que o instinto se exprime em personalidades poderosas, em homens superiores, que impõem a Razão a uma humanidade incapaz de segui-la por si própria; as religiões New Age chama a este plano de evolução, o “Plano Mental”. A terceira época é a “época da revolta” contra a autoridade e a época da libertação do instinto, a época em que a humanidade começa a perceber a lei universal da Causa-efeito. Sob o domínio da Reflexão desperta no ser humano o livre arbítrio, mas prevalece a revolta e a crítica negativa a toda a verdade e a toda a regra, a exaltação do individualismo e a predominância do antropocentrismo para lá de qualquer regra e de qualquer coacção; as religiões New Age chamam a este plano, o “Plano Causal”. A quarta época é aquela em que a Reflexão reconhece a sua própria lei e o livre arbítrio aceita uma disciplina universal: é a “época da Moral”; as religiões New Age chamam a este plano, o “Plano Divinal”. A quinta época é aquela em que a Razão deixa de ser um simples ideal para se tornar totalmente real num mundo justificado pela e com a presença do Absoluto; as religiões New Age chama a este plano, o “Plano Deífico” ou “Plano Celestial”.

A Humanidade encontra-se na terceira época da sua evolução. A frase vulgar que diz que “somos hoje selvagens actuais” só se aplica porquanto o Saber continua a ser hoje exclusividade de uma minoria e na medida em que o nosso Saber é “desligado”, por essa minoria “cientista”, do Ser Absoluto, porque a humanidade dá os primeiros passos na compreensão da causalidade cósmica.
Mesmo no caso de uma hecatombe que destrua o nosso estádio de Saber, esse Saber acumulado não desaparece, porque enquanto existirem sinais inteligíveis desse Saber (Akasha), este torna-se perceptível e útil. As civilizações dos Maias e dos Aztecas evoluíram isoladas, não comunicaram com outras civilizações, desconheciam a utilidade da roda e construíram observatórios astronómicos; contudo, os vestígios inteligíveis do seu Saber permaneceram, mesmo depois do desaparecimento das suas civilizações.

Temos, portanto, um princípio: o da irreversibilidade do Saber. E outro princípio: o da intemporalidade do Saber. Civilizações nascem, crescem e morrem, mas o Saber permanece e evolui, como que alheio ao destino das civilizações. A cada civilização que morre, sucede outra que herda o Saber e o faz evoluir em direcção ao Saber Absoluto. Neste sentido, a evolução do Saber (ciência) é um imperativo do Ser Absoluto, faz parte do “princípio Potencial” do Absoluto e da sua capacidade volitiva que determina a necessidade das criaturas inteligentes na demanda do próprio saber absoluto, que lhe é inerente.

Chegamos a algumas conclusões: a de que o saber absoluto só pode advir do próprio Ser Absoluto (Deus). A de que a Natureza é a “sombra” do Absoluto, e que, por isso, a nossa autoconsciência é a “sombra da sombra” do Absoluto. A de que a Natureza é o repositório do Saber Absoluto, que emana do Absoluto. A de que é por Vontade do Absoluto, através do “princípio Potencial”, que o Saber evolui irreversivelmente nas criaturas inteligentes, de estádios incipientes em direcção ao saber absoluto. A da utilização do Não-eu (Natureza) como meio e instrumento de evolução da criatura inteligente através do Saber (o Saber como uma dimensão da evolução). Finalmente, a da transmigração do Saber em evolução através do Espaço-tempo, o Saber em progressão metempsicosística de morte e renascimento de criaturas finitas inteligentes organizadas em sociedade.

(A continuar. Deixo uma nota: se a matemática fosse ensinada aos alunos, desde tenra idade, tendo como pano de fundo uma visão matemática do papel do Absoluto na progressão do Saber, existiriam menos negativas a matemática. O problema está, muitas vezes, nos métodos de ensino, que especializando-se numa área, desvalorizam ou ignoram a própria essência do Saber).

2 comentários »

  1. […] “Absoluto” não tem princípio nem fim, e está totalmente fora e alheado do Espaço-tempo (ver post anterior). Estou mais de sintonizado com Fichte do que com Schelling, quando o primeiro distingue o […]

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    Pingback por Complementando Fichte (2) « per-espectivas — Sexta-feira, 2 Novembro 2007 @ 1:38 pm | Responder

  2. Na minha opinião o “Absoluto” tem um principio mais nao um fim, pois nada surge do nada tudo surge de algo preesistente, por logica e estranho se pensar em algo que sempre existiu nao a logica nao ha como tudo se origina de algo…o universo é como um circulo nao um traço pois o traço tem como achar o final de sua ponta o circulo nao, nao tem o final, se andar em cima de uma linha circular voce ira dar voltas e voltas sem encontra a outra ponta q é o final.

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    Comentar por aryane — Sexta-feira, 18 Janeiro 2008 @ 12:33 am | Responder


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