perspectivas

Sexta-feira, 26 Outubro 2007

A nova religião

Hoje ouvi o Fernando Alves na TSF a falar fervorosamente a favor da luta contra o “Aquecimento Global” e, naturalmente e como não podia deixar de ser, contra o Bush “ultra-conservador” e enaltecendo o Al Gore “libertário”.

Eu também não gosto do Bush pelas mesmas razões de que não gosto de Al Gore: não gosto que me façam de parvo.

Porém, quando Bush recebeu o Dalai Lama (que Sócrates se recusou a receber) reclamando direitos de cidadania e de autonomia para o Tibete, não ouvi o Fernando Alves – talvez porque a metafísica é tabu. Quando a religião defende os direitos humanos, a Esquerda politicamente correcta faz vista grossa.

Fernando Alves é o protótipo do votante no PS “ala esquerda” intermitindo com o Bloco de Esquerda. O Fernando Alves encarna, como poucos nos me®dia, o espírito do marxismo cultural. Será que Fernando Alves poderia defender a luta contra o “Aquecimento Global” sem falar em Bush? Não creio. E se Bush não existisse, falaria noutro “demónio” qualquer, porque segundo a cartilha do marxismo cultural, tudo o que vem da Esquerda é bom, e por isso, há sempre a necessidade de encontrar um mau da fita que não pertença ao clube.

O grande problema cultural da Esquerda é a questão da substituição da religião como suporte da Ética e como condutor do combustível moral da sociedade. Eliminando Deus, a Esquerda elimina a religião; como a religião faz parte da essência e substância do ser humano – na medida em que a religiosidade é um “noumeno” (1) decorrente da Razão Pura de Kant –, para a Esquerda, a eliminação da religião constitui um problema de difícil solução. Os grandes insucessos sociais da Esquerda a nível mundial residem na recorrente tentativa de erradicação da religião, contrariando a natureza humana. Não se pode ter sucesso junto dos homens quando contrariamos os conceitos “a priori” da “subjectividade transcendental” humana, tão bem explicados por Kant. (2)

A solução que a nova Esquerda marxista cultural pensa ter encontrado para o problema da religião é velha como o nazismo: a tentativa de criação sucessiva de “Ersatze” religiosos, tentando a “canalização” da religiosidade humana para fenómenos mais ou menos reais, mas desprovidos de qualquer tentação metafísica. Desta feita, se a temperatura média da Terra aumentou um grau ou dois no último século, os adoradores do “Aquecimento Global” rezam terços e novenas, fazem profecias de fim do mundo, sobem aos minaretes encarnando os almuadens da fé alternativa, diabolizam os “Bushes” deste mundo, fazem apelo a um Utilitarismo malthusiano, e dos púlpitos dos me®dia anunciam a boa nova da esperança de um novo Deus que ordena que voltemos a andar de burro e que o Terceiro Mundo não pode recorrer ao petróleo para se desenvolver.

Entretanto, quando a actividade cíclica do nosso Sol naturalmente decrescer e a temperatura global baixar, já ninguém se lembrará do que o Fernando Alves disse hoje, porque a nova religião é feita para durar o tempo necessário para permitir manter o esforço da fé de não ter fé.


1) Do grego “noumenon”, que significa “coisa pensada”, em oposição ao “phainoumenon” (fenómeno) que resulta da Razão Prática. Para Kant, o “noumeno” é a essência da Razão Pura, o objecto da Razão que um indivíduo dotado de intuição intelectual pode conhecer. Através da Razão Pura, o humano conhece Deus; através da Razão Prática, os fenómenos da Natureza são empiricamente verificados e racionalmente dogmatizados.

2) Na minha opinião, o político português de Esquerda mais inteligente (concomitantemente, mais honesto) foi António Guterres; não teve uma maioria absoluta no segundo mandato pelo PS, em parte devido à acção inteligente de Marcelo Rebelo de Sousa, então Presidente do PSD, e pela “novidade política” que constituiu o facto de passar a existir um Paulo Portas à frente do CDS.

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3 comentários »

  1. Caro Orlando, como sempre me pareceu bastante certeiro…

    Se calhar só num ponto se terá equivocado(?): ao falar de “um novo Deus que ordena que voltemos a andar de burro e que o Terceiro Mundo não pode recorrer ao petróleo para se desenvolver”.

    [É que, segundo o que me parece, esta Nova Religião é mesmo um cobertor tão curto que mais destapa de sentido que cobre com transcendência.]
    Quando ponderadas a obssessão ecologista e a doutrina globalista, nem a primeira resiste.
    Contrariamente ao que diz, as restrições ecológicas levantadas às “nações emergentes” do desenvolvimento são poucas se não nenhumas.
    Enquanto os malandros dos americanos e os autoflagelados europeus são convidados a engolir sem pestanejar as “normas” dos senhores do Bom Ambiente, a China, a Índia e outros monstros poluidores são isentados desta ronda de redução de produção de lixo.

    Tudo porque, coitados, têm direito a ascender ao patamar dos países já “desenvolvidos”, pelo que têm direito a emporcalhar a Terra com o dobro do impacto, em nome libertário do seu aburguesante conforto.

    …E quando a cereja do bolo é o sacrifício do ecologismo ao materialismo consumista, estamos mesmo falados.

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    Comentar por Pedro_Nunes_no_Mundo — Domingo, 28 Outubro 2007 @ 1:49 pm | Responder

  2. Os novos profetas chegaram e cheios de visões apocalípticas. 😉

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    Comentar por Henrique — Domingo, 4 Novembro 2007 @ 6:42 pm | Responder

  3. […] a China atravessa o pior inverno dos últimos 100 anos. Ao mesmo tempo, os me®dia internacionais e nacionais não se cansam de falar no “aquecimento […]

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    Pingback por O aquecimento global e o inverno chinês « perspectivas — Quarta-feira, 6 Fevereiro 2008 @ 5:06 pm | Responder


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