perspectivas

Quarta-feira, 8 Agosto 2007

O exibicionismo mercantilista

Filed under: Sociedade — O. Braga @ 9:17 pm

Não vai muito tempo, quando passava alguns dias de férias numa aldeia de Trás-os-Montes, percebi a função da coscuvilhice como sendo uma válvula de escape social. Uma comadre mexericava sobre a outra, a vítima apercebia-se da coscuvilhice e rebentava a bomba:“Ó badalhoca! Andas a dizer mal de mim, sua porca?” E num instante, toda a aldeia ficava a saber parte do “segredo”. Só parte dele, porque outra parte substancial do “segredo” só a sabia a vítima e a coscuvilheira, fazia parte da “détente” na guerra-fria entre as duas. Estes episódios da coscuvilhice e da peixeirada inevitável que se seguia ao mexerico, revelavam também uma preocupação pela preservação da vida privada. Este fenómeno acabou, pelo menos nas zonas urbanas de vida em rede social sujeitas à “economia do mercado em constante expansão”.

Hoje, uma figura pública tem que ser mexericada. Já imaginaram a Cinha Jardim sem os mexericos das colunas sociais à volta dela? Pobrezinha, mergulhava no anonimato, porque não lhe restava mais nada. E quando não é alvo de mexericos, a figura pública “auto-mexerica-se”, fala da sua vida intimíssima na TV e nos jornais, lança mesmo boatos sobre si própria, e outras vezes, revela nos mídia mesmo as verdades mais intimistas da sua vida privada, sabendo que não será levada a sério – ainda estou para saber porque é que José Sócrates não processou por devassa da vida privada (ou mesmo por difamação) o jornal brasileiro que denunciou a sua “amizade íntima” com Diogo Infante; juridicamente, seria possível. Neste caso concreto, e perante o silêncio de José Sócrates, a hipótese de “auto-mexerico” para auto-promoção pessoal numa sociedade com valores “cuscos” é tão válida como a de difamação por parte do jornal.

A cultura da auto-promoção através do mexerico já chegou à Alta Política. Os políticos passam a ser figurantes de uma telenovela com enredo trágico-cómico, envolvendo o sentimento de compaixão do público em relação às vítimas e o ódio em relação aos vilões, e é neste quadro que se movimenta a Política Oficial do Mexerico Politicamente Correcto. A “vítima” passou a ser a heroína de quem se fala pelos motivos mais abstrusos e os vilões descem em popularidade nas sondagens.

A figura pública passou a ser o bobo da festa. Naquela aldeia de Trás-os-Montes, divertiam-se os aldeões ao serão de sábado, no café, pagando uns copos a um indivíduo com um pequeno atraso mental, que aproveitando-se da bebida “à borla”, ia fazendo figuras cómicas, proferindo dixotes e revelando factos da sua vida privada que provocavam o riso geral. Era o bobo da festa. Hoje, o bobo da festa é a figura pública. Assistimos a entrevistas na TV a pessoas que se abrem na sua intimidade como nunca seria possível na aldeia de Trás-os-Montes onde as comadres sempre se conheceram.

Qual é a causa primeira deste fenómeno? O mercado. O mercado tornou-se de tal forma avassalador das nossas vidas, que a maioria só se desliga dele para ir dormir umas horas.

Porém, da coscuvilhice institucionalizada como um valor social de “elite”, já se passou ao exibicionismo. Fui testemunha de um episódio risível: estava sentado numa mesa de um Café na companhia de um tio meu com perto dos 80 anos, e na mesa ao lado estava um jovem casal em pleno “beijo francês” prolongadíssimo. Às tantas, o meu tio levantou-se, e com uma voz melodiosa e num tom delicadíssimo, dirigiu-se ao jovem senhor – apontando para a rapariga: “Dá-me licença? Será que também eu posso? Não sei o que me deu, mas estou mesmo tentado…será que a senhorita se importava?” Os jovens sorriram e compreenderam que o que se faz em público (e em sítios públicos) é implicitamente de direito comunitário. Por vezes, há quem confunda “local público” com “local púbico”.

O exibicionismo tange a aberração. Por exemplo, a distintíssima Fundação de Serralves (Porto) exibiu uma exposição de fotografias subordinada ao tema “O Olho do Cu”. Uma série de fotografias do olho-do-cu de alguém – com elevado detalhe em pixéis – foi exposta numa das galerias da Fundação de Serralves como sendo insigne obra de arte. Não se trata aqui de uma exposição iluminista da Harmonia do Nu; nunca ocorreria a um pintor renascentista pintar tão só o olho-do-cu de alguém. Trata-se da exploração exibicionista de um local tão privado que fica escondido entre as nádegas. E quando nada é privado, nada é escandaloso, vale tudo. E a ideia de quem promoveu esta exposição fotográfica é exactamente de que passe a valer tudo.

O exibicionismo gay socialmente orquestrado é evidente. Em cada três programas recreativos que passam nas televisões, dois deles não vivem sem o exibicionismo gay dos maneirismos, do “Ai credo! Lagarto, lagarto! Deus queira que empatem!”, da mãozinha de “bandeja de criado-de-mesa”; nada disto é natural, é exibicionismo puro. Por exemplo, o endémico travestismo de Herman José nos seus programas de televisão, embora com o pretexto inteligente de “crítica social”, tem tudo a ver com a cultura do exibicionismo gay.

Por vezes, em transportes públicos, ouvimos conversas privadíssimas ao telemóvel e em voz alta: “ainda não me veio o período, ando preocupada”, e coisa do género. E discussões bem audíveis de namorados em arrufo, com insultos à mistura. Discute-se o último negócio para que toda a gente ouça, e faz-se questão de se sublinhar bem alto que se dá ordens pelo telemóvel à secretária particular. Não se trata só de má-criação: as pessoas perderam o sentido de privacidade. Não se trata só de egoísmo de quem se está borrifando para quem está ao lado: é uma forma inconsciente de auto-promoção do Ego através do exibicionismo – as pessoas já não suportam a vulgaridade das suas vidas, como se a esmagadora maioria das vidas não fossem equivalentes e vulgares.

O telemóvel deixou de ser um simples meio de comunicação e passou a ser um meio de exibicionismo inconsciente, um instrumento que serve para que se torne tão público quando possível a vida privada das pessoas – porque se a “elite” dos Jet Set o faz nas pantalhas, inconscientemente procura-se a saída do anonimato dentro de uma carruagem do Metro, na mesa de um Café, através de um blogue, ou expondo o olho-do-cu. Existe aqui uma inversão de valores, uma ilusão da fama e do reconhecimento público através da auto-devassa da vida privada – porque as poucas pessoas excepcionais e que de certa forma, fogem à vulgaridade, são as mais ciosas da sua vida íntima.

Se as figuras públicas se exibem conscientemente, porque o querem fazer e porque ganham dinheiro com isso, uma grande parte dos cidadãos exibe-se inconscientemente, porque não se sabe proteger. Não existe uma cultura da privacidade. É preciso voltar a ensinar nas carteiras da escola o valor da nossa vida privada, e sobretudo, através de legislação apropriada, fazer passar claramente a mensagem de que o mercado é importante mas tem os seus limites.

6 comentários »

  1. “e na mesa ao lado estava um jovem casal em pleno “beijo francês” prolongadíssimo” (…) “será que a senhorita se importava?” Os jovens” (= casal hetero)

    noutra “posta” (de pescada?)
    “colocaram uma mulher a beijar a face de outra, e não o tradicional “french kissing” público e exibicionista típico dos gays.”

    contradição? fraca argumentação? Nada disso. É o Orlando Braga(y?) com os seus looooongos posts sobre aquilo que nao se confessa, mas inveja.

    beijinho bom pra si

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    Comentar por mmmmmmmmmm — Quarta-feira, 22 Agosto 2007 @ 7:17 pm | Responder

  2. A contra-argumentação é ininteligível. Inventa-se a contra-argumentação, desprovida de lógica, a partir do nonsense.

    Quanto à insinuação de “inveja”, este argumento é explicável através de um típico mecanismo de defesa dos gays, que é o de que toda a gente é gay em potência, só que a maioria ainda não “saiu do armário”. Trata-se de um argumento de defesa, puro e duro.

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    Comentar por Orlando — Sexta-feira, 24 Agosto 2007 @ 4:33 pm | Responder

  3. tem toda a lógica, meu caro. Os seus argumentos é que são desprovidos de, já nem digo lógica, pelo menos consistência. Num dia escreve que o french kissing é tipicamente gay, noutro refere um exemplo de um casal não gay nessa prática ao nível publico… hello? Sendo que o que mais vejo são casais hetero nesseas actividades linguísticas, onde fica o seu argumento do exibicionismo gay?
    claro, são pormenores que não lhe devem interessar, porque estragam a sua… “argumentação lógica”

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    Comentar por mmmmmmmmmm — Domingo, 26 Agosto 2007 @ 7:44 pm | Responder

  4. Caro Orlando
    Posso fazer-lhe uma pergunta que neste momento é importante para eu compreender várias coisas.
    No site meter do wordpress, apareceu hoje o link desta página. Não do seu blog, mas desta página específicamente.

    Poderá dizer-me como é que isso acontece?
    É pura e simplesmente porque alguém faz click no A Ilha dos Amores, quando está a ler esta entrada – ou tem outras razões??

    É que frequentemente andoa receber links que acho pelo menos estúpidos (para não dizer pior) no site meter do wordpress, vindos de blogs que têem o meu link, e ainda não percebi porquê…. não sei ainda como funciona.

    Se uma pessoa de fora clicar no meu link ao estar a ler esta entrada, fica lá mo meu site meter este link?

    Portanto ter este link no site-meter tanto pode vir de outra pessoa como do autor do blog, é isto?

    Neste caso foi o Orlando que me colocou lá este link, ou outra pessoa? (Isto mesmo que involutariamente)

    Desculpe a pergunta mas é importante eu perceber esta questão meramente técnica… e agradeço desde já a resposta.

    Saudações

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    Comentar por Terpsichore E.M. — Domingo, 7 Outubro 2007 @ 11:03 am | Responder

  5. Ilha dos Amores: basta que alguém tenha o endereço do teu blogue no seu marcador do browser e vá daqui para o teu blogue para aparecer no sitemeter. Não é necessário um link directo a partir daqui. Basta ter o endereço do teu blogue no browser.

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    Comentar por Orlando — Terça-feira, 9 Outubro 2007 @ 4:17 pm | Responder

  6. ah ok obrigada

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    Comentar por Terpsichore E.M. — Terça-feira, 9 Outubro 2007 @ 10:46 pm | Responder


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