perspectivas

Segunda-feira, 9 Junho 2014

O secularismo, a sociedade de consumo, e a decadência cultural

Filed under: cultura — orlando braga @ 7:33 am
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É inevitável uma analogia entre o Ocidente actual e os últimos séculos do império romano, no que diz respeito ao efeito que a religião tem na política e na cultura. A república romana começou por ter a sua própria religião comum e oficial dos “deuses dos lares”, e com a absorção da Grécia e da cultura grega, passou a adoptar oficialmente uma emulação romana dos deuses gregos do Olimpo. Estávamos na fase do início do império.

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Quinta-feira, 8 Maio 2014

As religiões políticas modernas são ctónicas

Filed under: cultura,religiões políticas — orlando braga @ 4:34 pm
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Alguém comentou aqui:

Segundo T. S. Eliot:

“A primeira afirmação importante é que nenhuma cultura apareceu ou se desenvolveu a não ser em conjunto com uma religião; segundo o ponto de vista do observador,a cultura parecerá ser o produto da religião; ou a religião, o produto da cultura. [...] Digo apenas que, até onde vão minhas observações, é improvável que haja uma civilização de alto nível onde estejam ausentes tais condições.”


1/ Saber quem surgiu primeiro, se a religião se a cultura, é como procurar saber se a galinha nasceu primeiro que o ovo. O Homem é o único ser que tem cultura, e não existe cultura sem religião.

2/ o marxismo é uma forma de religião, como demonstrou Eric Voegelin. E o Aquecimentismo é outra forma de religião — ambas são religiões ctónicas e imanentes, tal como as religiões do neolítico eram ctónicas e imanentes.

As grandes civilizações surgiram quando o Homem começou a olhar para o Céu, procurando a transcendência, deixando de olhar para a Terra e para a imanência. Quando o Homem começou a olhar o Céu, as divindades terrestres e imanentes foram sendo abandonadas, e foi então que surgiram as grandes civilizações no Egipto, na Babilónia, ou entre os Maias e Aztecas.

3/ o marxismo (e o aquecimentismo) são formas de religião que se caracterizam por uma espécie de retorno moderno ao neolítico inferior (porque no neolítico superior começaram a surgir as civilizações que “olhavam o Céu”) — embora a História não se repita de forma exacta, há certos padrões históricos que se podem repetir.

Estas duas formas de religião (o marxismo e o aquecimentismo) são ctónicas, isto é, viradas para a Terra e em detrimento do Céu (em detrimento do Cosmos, do universo): nas religiões políticas modernas, o Céu, ou é colocado em segundo plano, ou é mesmo esquecido.

Sexta-feira, 2 Maio 2014

Epistemologia da religião

Filed under: filosofia — orlando braga @ 7:57 pm
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O Desidério Murcho fala aqui da diferença entre “epistemologia da religião”, por um lado, e da “metafísica da religião”, por outro  lado. Desde logo devemos saber o significa “epistemologia”, porque este termo tem hoje dois significados ligeiramente diferentes.
Na Europa continental — sobretudo em França —, “epistemologia” significa a análise do “espírito científico”: estudo dos métodos, das crises, da História das Ciências Modernas, ou o estudo de uma ciência em particular: por exemplo, epistemologia da matemática, epistemologia da História, etc..
No mundo anglo-saxónico, “epistemologia” mantém ainda um significado semelhante ao de “gnoseologia”, isto é, a análise ou estudo dos processos evolutivos gerais do conhecimento. Desidério Murcho escreve o seguinte:

“O tema central da epistemologia da religião é a adequação da crença em divindades.”

Devemos, dentro do possível, simplificar a nossa linguagem, por forma a evitarmos ambiguidades e/ou anfibolias. “Adequação” significa, neste caso, “correspondência racional”.

Desidério Murcho poderia ter escrito o seguinte: “o tema central da epistemologia da religião é a correspondência racional das crenças religiosas em relação às respectivas divindades”, o que significa que, neste sentido, a “epistemologia da religião” aborda, não o processo evolutivo geral das religiões ao longo do tempo (pré-história e história), mas antes dedica-se à análise lógica e racional da relação entre as diversas religiões (independentemente da sua posição no continuum temporal), por um lado, e as respectivas divindades ou divindade, por outro  lado.

Portanto, estamos em presença do conceito de “epistemologia” como estudo de um método segundo o qual a religião faz corresponder logicamente a sua filosofia, por um lado, com as suas divindades, por outro  lado. Ou seja, aplica-se aqui a noção francesa de “epistemologia”.  E por isso é que ele escreve:

“Do simples facto de existir uma divindade não se segue que seja epistemicamente adequado acreditar na sua existência, e do simples facto de ser epistemicamente adequado acreditar na existência de uma divindade não se segue que essa divindade existe.”

Quando o facto de se acreditar na existência (“existência” no sentido de “realidade”, e não necessariamente como “objecto”) de uma divindade depende de uma análise lógica (“epistemicamente adequado”), estamos então perante o conceito científico (francês) de “epistemologia”, por um lado, e por outro  lado, o facto de não ser epistemicamente (no sentido francês) adequado acreditar na existência de uma divindade, isso não significa que essa adequação não possa vir a surgir no futuro (em função de novas diferenciações culturais e mesmo com o contributo de descobertas da ciência), ou seja, que no futuro uma determinada inadequação lógica e racional entre uma determinada crença religiosa e as suas actuais divindades, não se possa transformar em uma adequação, e em função de novas diferenciações culturais, e de novos dados acerca da realidade que podem provir de novos fenómenos metafísicos ou mesmo da evolução da ciência.

Em suma, e em última análise, é a noção anglo-saxónica de “epistemologia” que se aplica ao estudo das religiões (o racionalismo e a lógica aplicáveis ao estudo das religiões estão sempre colocados entre parêntesis).

Sábado, 19 Abril 2014

A Ressurreição de Jesus Cristo e a prova científica

Filed under: Ciência,Igreja Católica — orlando braga @ 11:58 am
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O Padre Gonçalo  Portocarrero de Almada escreveu um texto que pode ser lido aqui (e aqui, em ficheiro PDF), e que pretende conciliar a “ciência dos factos”, por um lado, com a ressurreição de Jesus Cristo.

Antes de mais nada: ¿o que é um “facto”? É algo que adquiriu uma estrutura na nossa consciência.

“Facto” vem do latim “facere”, que significa “fazer”. Ou seja, um facto é “algo que é feito por nós”. Uma imagem que nós vemos não é mais nem menos o resultado das nossas acções quando comparada com uma imagem que pintamos, um trabalho que fazemos, ou um texto que escrevemos.

A realidade do nosso mundo é um “facto”; mas nós não inventamos os dados (da realidade do mundo) que são interpretados pela nossa mente: esses dados existem por si mesmos — constituem a “realidade em si” — em contraponto à nossa interpretação desses dados que constitui a “realidade para nós”. E, como dizia S. Tomás de Aquino, “a verdade é a adequação do pensamento à realidade”, ou dito por outras palavras, a verdade é a adequação da “verdade para nós”, por um lado, à “realidade em si”, por outro  lado.  No fundo, é esta “adequação” que a ciência vem procurando fazer.

Mas um “facto” não é só apenas aquilo que podemos medir experimentalmente. Por exemplo, os axiomas da lógica não são físicos, e não deixam, por isso, de constituírem “factos”.

E o que é a “prova”? Em primeiro lugar, a prova é intersubjectiva: só existe “prova” se for testemunhada e corroborada. Em segundo lugar, qualquer verificação científica de uma prova é sempre baseada na experiência do passado; e se dissermos que “o método científico se prova a si mesmo”, estamos perante uma tautologia.

Na medida em que o nosso cérebro interpreta a realidade — ou seja, a realidade é construída pela nossa mente —, segue-se que a ciência (que é humana) também não tem autoridade para fazer afirmações sobre “a realidade em si”: a ciência só se pode pronunciar acerca de casos concretos que não foram ainda refutados. E se reduzirmos toda a “realidade comprovada”, aos casos concretos que ainda não foram refutados pela ciência, reduzimos o conceito de realidade a uma condição paupérrima.

Com todo o respeito pela ciência, temos que admitir que o método científico não se prova a si mesmo. E temos que admitir que a Realidade não se reduz aos casos concretos que ainda não foram refutados pela ciência. Portanto, não vejo necessidade de justificar ou provar cientificamente a ressurreição de Jesus Cristo: a distância entre o finito e o infinito é infinita, e a realidade não se pode resumir ao método da ciência. E, se pensarmos assim, e só assim, poderemos conciliar a ciência com a Realidade. Ou ainda, como escreveu Einstein 1:


«¿Acha estranho que se considere a compreensibilidade do mundo como milagre ou como mistério eterno?

einstein webNa realidade, a priori, deveria esperar-se um mundo caótico que não se pode compreender, de maneira alguma, através do pensamento. Poderia (aliás, deveria) esperar-se que o mundo se manifeste como determinado apenas na medida em que intervimos, estabelecendo ordem. Seria uma ordem como a ordem alfabética das palavras de uma língua. Pelo contrário, a ordem criada, por exemplo, pela teoria da gravidade de Newton, é de uma natureza absolutamente diferente. Mesmo que os axiomas da teoria sejam formulados pelo ser humano, o sucesso de um tal empreendimento pressupõe uma elevada ordem do mundo objectivo 2, que, objectivamente, não se poderia esperar, de maneira alguma. Aqui está o milagre que se reforça cada vez mais com o desenvolvimento dos nossos conhecimentos 3. Aqui está o ponto fraco para os positivistas e os ateus profissionais.

A ciência só pode ser feita por pessoas que estão completamente possuídas pelo desejo de verdade e compreensão. No entanto, esta base sentimental tem a sua origem na esfera religiosa. Isto inclui também a confiança na possibilidade de que as regularidades que valem no mundo existente sejam razoáveis, isto é, compreensíveis à razão. Não posso imaginar um investigador sem esta fé profunda.

É possível exprimir o estado de coisas através de uma imagem: a ciência sem religião é paralítica, a religião sem ciência é cega.»


Portanto, a ciência não deve insistir na sua pretensão de exclusividade na aproximação à verdade. O conhecimento científico é apenas um aspecto do Absoluto. Reduzir a toda a realidade, à ciência e à prova empírica, é a maior estupidez que o Iluminismo nos trouxe.

Notas
1. “Worte in Zeit und Raum”
2. a tal “realidade em si
3. conhecimentos científicos

Segunda-feira, 31 Março 2014

Os "católicos fervorosos" e a perseguição dos católicos na Crimeia

Filed under: Igreja Católica — orlando braga @ 4:56 pm
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A Igreja Católica Grega da Ucrânia não é a mesma coisa que Igreja Católica Apostólica Romana.

A Igreja Católica Grega da Ucrânia é uma Igreja sui juris que está em comunhão com a Igreja Católica Apostólica Romana — assim como, por exemplo, a Igreja Copta do Egipto é uma Igreja sui juris  que está em comunhão com a Igreja Católica Apostólica Romana.

Afirmar que a Igreja Católica Grega da Ucrânia é a mesma coisa que a Igreja Católica Apostólica Romana, é falso — inclusivamente, os ritos são diferentes! A Igreja Católica Grega da Ucrânia é uma Igreja nacional, ao passo que a Igreja Católica Apostólica Romana é uma Igreja universal.

Sendo uma Igreja estritamente nacional e nacionalista, a Igreja Católica Grega da Ucrânia acaba por ter conexões políticas acentuadas em relação à esfera do nacionalismo político ucraniano. E é neste contexto nacionalista e político que caracteriza a Igreja Católica Grega da Ucrânia1 que se verificam as alegadas perseguições à Igreja Católica Grega da Ucrânia, na Crimeia.

Portanto, quando alguns católicos fervorosos vêm dizer que “os católicos estão a ser perseguidos na Crimeia”, estão a confundir a Igreja Católica Grega da Ucrânia, que é uma Igreja nacionalista ucraniana, por um lado, e a Igreja Católica Apostólica Romana, que é, por longa tradição, uma Igreja que existe acima ou para além das nacionalidades.

Qualquer perseguição religiosa é condenável — incluindo a perseguição religiosa encapotada, em relação à Igreja Católica Apostólica Romana, que acontece nos países europeus ditos “democráticos”, como por exemplo, a Inglaterra, a Bélgica e os países nórdicos. Por exemplo, a Igreja Católica Apostólica Romana teve recentemente que abandonar a actividade de infantários e de adopção de crianças em Inglaterra, porque recusou a adopção de crianças por pares de invertidos imposta por lei.

Impôr a uma religião, de uma forma coerciva e utilizando a força bruta do Estado, uma lei que contrarie os princípios dessa religião, também é uma forma de perseguição religiosa.

Nota
1. nacionalismo que a Igreja Católica Apostólica Romana não tem, porque existe o Estado do Vaticano que elimina as múltiplas “nacionalidades católicas”, e por isso é que este papa é criticável por não assumir o passaporte do Vaticano.

Sexta-feira, 21 Fevereiro 2014

Para quem diz que Albert Einstein foi ateu

Filed under: curiosidades — orlando braga @ 4:43 pm
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“¿Acha estranho que se considere a compreensibilidade do mundo como milagre ou como mistério eterno? Na realidade, a priori, deveria esperar-se um mundo caótico que não se pode compreender, de maneira alguma, através do pensamento. Poderia (aliás, deveria) esperar-se que o mundo se manifeste como determinado apenas na medida em que intervimos, estabelecendo ordem. Seria uma ordem como a ordem alfabética das palavras de uma língua. Pelo contrário, a ordem criada, por exemplo, pela teoria da gravidade, de Newton, é de uma natureza absolutamente diferente. Mesmo que os axiomas da teoria sejam formulados pelo ser humano, o sucesso de um tal empreendimento pressupõe uma ordem elevada do mundo objectivo, que, objectivamente, não se podia esperar, de maneira alguma.

Aqui está o “milagre” que se reforça cada vez mais com o desenvolvimento dos nossos conhecimentos. Aqui está o ponto fraco para os positivistas e os ateus profissionais.”

(Albert Einstein — “Worte in Zeit und Raum”)

“A ciência só pode ser feita por pessoas que estão completamente possuídas pelo desejo de verdade e compreensão. No entanto, esta base sentimental tem a sua origem na esfera religiosa. Isto inclui também a confiança na possibilidade de que as regularidades que valem no mundo do existente sejam razoáveis, isto é, compreensíveis à razão. Não posso imaginar um investigador sem esta fé profunda. É possível exprimir o estado das coisas através de uma imagem: a ciência sem religião é paralítica, a religião sem ciência é cega” (ibidem)

Terça-feira, 18 Fevereiro 2014

Uma sociedade sem o conceito de “milagre” é uma sociedade destruída

Filed under: A vida custa,cultura,filosofia,Sociedade — orlando braga @ 8:39 am
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No fim de cada tentativa de fundamentação da realidade, surge apenas aquilo que foi introduzido nela no início. Fazendo uma analogia: se introduzirmos carne em uma picadora de carne, obtemos carne picada com o resultado da nossa acção — e não outra coisa qualquer.

Assim, em uma sociedade fundamentada no materialismo não pode haver lugar para um Deus imaterial, porque a própria hipótese de um mundo exclusivamente material implica a não existência de Deus. O pensamento humano é circular e contraditório, por natureza.

Em uma sociedade em que não há lugar para um Deus imaterial, também não há lugar para os milagres — mesmo que eles aconteçam a cada momento. No fim da tentativa da fundamentação materialista da realidade, surge apenas materialismo e nada mais do que isto. E, em uma sociedade materialista, o ser humano não consegue ver nada senão matéria, e é por isso que os milagres deixam de existir, porque ninguém os vê.

Sábado, 11 Janeiro 2014

O Decálogo e a ética

Filed under: ética — orlando braga @ 6:27 pm
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O termo “Decálogo” foi cunhado ou por Clemente de Alexandria (~ 150 – ~ 230), ou Irineu de Lião (~ 130 – ~ 202) : não se tem a certeza de qual dos dois foi o autor do termo. Existem duas versões ligeiramente diferentes do Decálogo: a do Êxodo e a do Deuteronómio. Vamos apenas fazer aqui referência ao Êxodo.

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Sexta-feira, 10 Janeiro 2014

A liberdade religiosa está a ser ameaçada pela aliança da direita com a esquerda

 

Este texto dá-nos uma visão breve do processo histórico recente que levou a colocar em causa a liberdade religiosa nos Estados Unidos. Um facto que é de extrema importância, e que eu chamo à vossa atenção, é o da aliança entre a direita neoliberal Goldman Sachs e a esquerda marxista cultural, no sentido da limitação e restrição da liberdade religiosa nos Estados Unidos. Ou seja: por razões diferentes, a direita Goldman Sachs e a esquerda marxista cultural estão de acordo no que respeita à limitação da liberdade religiosa.

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Quinta-feira, 12 Dezembro 2013

A grave doença espiritual das elites

 

O suicídio de Kate Barry (filha de Jane Birkin) chocou-me, como me chocam todos os suicídios. Mas tratando-se de uma figura pública que não vivia propriamente na pobreza, o seu suicídio torna-se ainda mais incompreensível.

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A semelhança entre os ateus e os gays

Filed under: A vida custa,Esta gente vota — orlando braga @ 9:17 am
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«Portugal privilegia a religião e discrimina, através da sua exclusão, os ateístas, os humanistas e os livres-pensadores, conclui um relatório internacional que analisa os direitos dos grupos não religiosos em 198 países.

No relatório “Liberdade de Pensamento 2013: Relatório Global sobre Direitos, Estatuto Legal e Discriminação Contra Humanistas, Ateístas e Não Religiosos”, Portugal é classificado como um país de “discriminação sistémica” em relação a estes grupos.»

Relatório diz que Portugal discrimina ateus e humanistas


“O ateu nunca perdoa a Deus a sua inexistência” — Nicolás Gómez Dávila

O ateu é uma espécie de integralista islâmico sem o Alá.

Para os ateus — e/ou ditos “humanistas”, ou também chamados “livres-pensadores” que de livres têm muito pouco —, não concordar com eles é uma forma de discriminação insustentável e insuportável do ponto de vista ético. É um pouco como acontece com os fanchonos: se a gente lhes diz que não gosta de homens, eles sentem discriminados e ofendidos na sua dignidade. Para que não discriminemos um ateu ou um invertido, temos necessariamente que concordar com o primeiro e “amochar” com o segundo.

E quando as outras pessoas se reúnem em torno de uma qualquer actividade religiosa, os ateus sentem-se automaticamente ofendidos e passam a reclamar não só um “Estado secular”, mas também o desaparecimento da religião da praça pública (laicismo): a simples manifestação pública da religiosidade — que não seja a sua — é um insulto inominável para o ateu que ele não pode, de modo nenhum, admitir. O ateu é uma espécie de integralista islâmico sem o Alá.

De modo idêntico, o fanchono não faz outra coisa senão angariar novos membros para o seu “clube”: o proselitismo invertido, tal como o ateu, transformam-nos nos mais activos da actualidade. E tudo o que vá contra o clube gay ou contra a religião ateísta é considerado uma heresia medonha que tem que ser erradicada a qualquer custo.

Sábado, 23 Novembro 2013

Venerável texto de João César das Neves

 

Excelente texto de João César das Neves no blogue Logos (transcrevo a parte que mais toca a filosofia):

“Porque essa morte, que Ele sofreu por minha causa, durou apenas três dias. Porque Ele, o único a poder dizer que não merece a morte, destruiu a morte com a morte que sofreu por minha causa. Assim não há mais morte, não há mais culpa. Tudo foi levado na enxurrada da ressurreição de Cristo.”

Há assuntos que eu não devo mencionar aqui para não ofender os "católicos fervorosos" que só leram o catecismo da Igreja Católica; mas penso que devo mencionar, por exemplo, que se Deus criou o universo (o mundo e toda a realidade), também criou o devir, a mudança; e se criou o devir, Deus também admite ou permite a existência do negativo — é o Deus absconditus, o Deus que age por toda a parte, no mundo e na realidade, sem que nos demos conta Dele. Sem a acção do Deus absconditus, o universo não poderia existir a cada segundo cósmico, porque a cada segundo cósmico o universo é renovado, como se existisse de novo a cada marcação do tempo cósmico, como se o universo findasse e se renovasse a cada instante cósmico.1

universoO Deus absconditus intervém no macrocosmos através do microcosmo, e sem perturbar as expectativas de regularidade das leis da física (clássica). O princípio da causalidade, que orienta a ciência, “aparece” determinado a partir do microcosmos. Recentemente, teorias no campo da biologia e da bioquímica indicam-nos de que os processos individuais dos seres vivos não são orientados por causas empiricamente comprováveis, mas sim pelo respectivo sistema global mas sem que estas causas resultantes do sistema sejam comprováveis. 2 Sendo assim, por exemplo, o comportamento de uma abelha teria causas comprováveis de ordem genética, mas, para além disso, esse comportamento seria orientado por causas empiricamente não localizáveis do sistema global chamado “colmeia”. Transpondo esta ideia para a ideia de Deus absconditus, podemos fazer uma analogia e dizer que Deus pode intervir nos processos naturais a partir da posição da Totalidade, sem que as leis da natureza sejam infringidas e sem que a Sua intervenção seja comprovável cientificamente.

Sem que o Deus absconditus permitisse o Mal, ou o negativo, não poderia haver a mudança e o negativo que advém do devir. Mas esse Deus absconditus é “periférico”: podemos verificar o Seu Ser na natureza e no universo, no tempo e no espaço, na mudança e no devir, mas não é propriamente o Deus do espírito humano: é o Deus que criou as condições naturais para que os seres vivos pudessem existir.

Porém, Deus tem muitas propriedades: o Deus da Bíblia é também o Deus misericordioso, o Deus de Jesus Cristo. O filósofo Schelling escreveu o seguinte 3 :

“Podemos considerar o primeiro Ser como algo acabado de uma vez por todas e como algo existente sem alterações. Este é o conceito habitual de Deus da chamada “religião racional” e de todos os sistemas abstractos. Porém, quanto mais elaboramos este conceito de Deus, tanto mais Ele perde para nós em vida, tanto menos é possível compreendê-Lo como um ser real, pessoal. Se exigimos um Deus que podemos encarar como um ser vivo e pessoal, temos de O encarar também de maneira completamente humana, temos de admitir que a Sua vida apresenta a maior analogia com o humano, que n’Ele, para além de ser eterno, existe também um devir eterno.” 4 

Ou seja, segundo Schelling, Deus é Ser e Potencialidade que é, por sua vez, a possibilidade de multiplicidade. E Jesus Cristo simboliza esta outra propriedade ou faceta de Deus: o Deus imutável que encarnou no mundo do devir por Ele próprio criado. Jesus, como ser humano, sofre na cruz, no espaço-tempo e sujeito à experiência da condição humana; mas Cristo, como propriedade de Deus, não sofre e abre ao ser humano a esperança do Ser Eterno.


Notas
1. Orígenes escreveu que “o Logos (o Filho) olha constantemente para o Pai, para que o mundo possa continuar a existir”História da Filosofia, de Nicola Abbagnano.
2. Fritjof Capra, The Web of Life, 1996
3. Filosofia da Revelação, 1841, na parte tardia da vida de Schelling e, portanto, menos imanente e mais transcendente.
4. Em 1841 ainda não se sabia da teoria do Big Bang

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