perspectivas

Quarta-feira, 24 Julho 2013

As elites também se decapitam

No FaceBook encontrei o seguinte trecho:

« O que eu vou dizer poderia dar pano para muitas mangas, mas estou um pouco cansado de falar e de escrever. A principal razão que me levou ao cansaço de escrever é uma espécie de inevitabilidade do mal.

Parece que toda a gente sabe que as coisas estão mal em muitos aspectos da nossa vida, eu por exemplo sei o que vai mal no ensino. Mas fazer alguma coisa contra o sistema parece mal, parece que somos nós os inadaptados, os doentes mentais a quem custa obedecer seja ao que for.

E vamos calando e aceitando com receio que sejamos vistos como anormais, quiçá mesmo esquizofrénicos ou algo que o valha. Sabemos que está mal, que vai ser cada vez pior e vai acabar muito mal, mas sentimo-nos impotentes para evitar o desastre. »

Dois enormes intelectuais do início do século XX, Max Weber e Alexis de Tocqueville (para não falar em outras personalidades mais radicais, como Fernando Pessoa, René Guénon ou Julius Evola, que se opuseram à modernidade), tiveram perspectivas da realidade semelhantes às exaradas no texto supracitado (ler aqui o texto completo em PDF).

Perante a imposição cultural e quase absoluta da mentalidade utilitarista, tanto Weber como Tocqueville estavam convencidos de que a cultura utilitarista produz um tipo de homem decadente – “homem” entendido principalmente como “indivíduo”, e só depois como colectivo -, por um lado, mas por outro lado estavam ambos convencidos que seria totalmente inútil opor-se a uma dinâmica histórica que, segundo os dois, se reveste de um carácter de fatalidade. Ambos se dedicaram a procurar as origens propriamente religiosas desta doutrina utilitarista que nega o valor à religião e à ética axiológica universal. Weber entra num “desencanto em relação ao mundo”, e Tocqueville aceita, mas apenas e só enquanto cristão, este homem moderno.

Este conceito de “homem moderno” a que se refere Weber e Tocqueville obedece a um preconceito evolucionista que foi traduzido, nomeadamente, por Herbert Spencer com que ele explicava as sociedades industriais, e de acordo com o qual todos os fenómenos da natureza – incluindo o ser humano – passam fatalmente de uma “homogeneidade indefinida, incoerente, para uma heterogeneidade definida, coerente” (Spencer, “Primeiros Princípios”, 1862). Ou seja, para Spencer e para os liberais, quanto mais atomizada é uma sociedade, mais evoluída, desenvolvida e moderna ela é; mas quando a atomização das sociedades europeias levou aos totalitarismos do século XX, nunca os liberais colocaram em causa esta teoria, ou sequer admitiram uma qualquer ligação lógica entre a visão liberal spenceriana da evolução da sociedade, por um lado, e os totalitarismos do século XX, por outro lado.

Herbert Spencer (e os liberais, em geral) invertem a finalidade da sociedade. A existência do individuo para a sociedade, que existia antes da imposição cultural utilitarista do modernismo, passou a ser a existência da sociedade para o indivíduo. De um extremo, caiu-se noutro extremo; do oito passou-se ao oitenta.

Parece que existe uma “dinâmica histórica” contra a qual, segundo Weber e Tocqueville, é impossível qualquer oposição. Parece que só nos resta baixar os braços e deixar fluir a “dinâmica histórica” do nosso tempo. Parece que não há nada a fazer contra a “dinâmica histórica”.

Durkheim – que não era, de todo, um conservador, na sua época – contesta esta visão da fatalidade do mundo e de dinâmica histórica fatal. Segundo Durkheim, Spencer engana-se quando subordina o conceito de “organização da sociedade” ao princípio económico de “utilidade”. Da atomização da sociedade não pode surgir nenhum poder regulador, mas antes prevalece apenas o conflito de forças antagónicas e contraditórias, que estabelecem, na sociedade, relações efémeras e instáveis.

Segundo Durkheim, o primado da liberdade negativa na modernidade – que funda a cooperação entre indivíduos ao mesmo tempo que erradica a solidariedade – não é fundamento de unidade social: a luta de interesses particulares passa a ser um fenómeno sem fim e em constante renovação. A cooperação liberal não pode fundar a solidariedade social, porque defender esta tese é tomar o efeito pela causa: o ser humano é, em primeiro lugar, solidário, e só depois, e em função da solidariedade, ele coopera, celebra contratos, troca bens e serviços, etc.. Antes da cooperação entre seres humanos, está a solidariedade orgânica que insere o indivíduo num Todo que o ultrapassa e o transcende.

Portanto, verificamos que a “fatalidade da dinâmica histórica” pode ser explicada por uma imposição das elites – a ruling class – que comanda o Poder político. Ou pode ser explicada por uma determinada mundividência ideológica sintética e sincrética, imposta na cultura antropológica, pelas elites. Mas uma coisa é certa: as elites também se decapitam, como a História bastamente nos tem demonstrado.

Terça-feira, 19 Junho 2012

A religião sacrificial pós-moderna, René Girard [e Fernando Pessoa]

“The contemporary West resembles nothing so much as an archaic society in the full panic of social breakdown, searching desperately for the scapegoats whose immolation will induce the gods to intervene. Whether it is the black-clad “Antifas” in Northern Europe who violently stifle free speech or the “hoody”-wearing vigilantes who have consigned a hapless Florida man to the hell of liberal non-process – the defining agents of the age resemble the implacable crowds of archaic narrative.”

via The Apocalypse of Modernity | The Brussels Journal.

As ideias de Nietzsche reflectem, em todos os seus aspectos, o pós-modernismo — incluindo a loucura em que se afundou, tanto Nietzsche como o homem pós-moderno.

Se o pós-modernismo pudesse ser personificado em uma hipostasia, seria certamente em Nietzsche. Nietzsche está para o pós-moderno — com mais ou menos consciência da sua realidade individual —, como Jesus Cristo estava para os primeiros cristãos, o que nos dá uma síntese da actual religião que transmite a aparência ilusória de que é uma ausência da religião. A [ilusão aparente da] ausência de religião é, em si mesma, uma forma de religião, mas desta vez é uma religião das massas atomizadas, e sem critério racional, que não seja a lei do mais forte que nos trouxe Charles Darwin.

O século XIX foi tenebroso. E no século XX, pessoas inteligentes, como por exemplo Fernando Pessoa, cometeram erros crassos de raciocínio porque se fiaram nas verdades ditadas pelas ideias do século XIX. Fernando Pessoa certamente que leu Nietzsche e Darwin, embora nunca os tivesse referido nos seus escritos. E conhecendo minimamente Fernando Pessoa, exactamente porque não os ter referido é sinal de que os tinha em alta consideração. Embora Fernando Pessoa tenha tido alguns raciocínios brilhantes, grande parte das conclusões a que chegou estão erradas — como nos prova, agora, a constatação irrefutável e empírica do que é o pós-modernismo.

O texto em epígrafe diz respeito a uma curta análise das ideias de René Girard acerca da pós-modernidade e, portanto, acerca das ideias de Nietzsche. Vale a pena ler.

A nova religião, que Nietzsche anunciou, é a da substituição de Cristo por Baco [ou Dionísio], o deus pagão greco-romano [que também foi parcialmente defendido, a espaços e conforme os dias, por Fernando Pessoa, quando se referia à “pureza do paganismo”], e reflecte uma inversão do conceito de aristocracia. Para o cristão, o aristocrata é aquele que se coloca ao lado da vítima injustamente condenada à morte; para Nietzsche e para as massas modernas e pós-modernas, o aristocrata é aquele que mata a vítima, afirmando a sua superioridade decorrente da lei do mais forte segundo Darwin. Satanás não é uma personagem: antes é um símbolo desse espírito das massas adequado à selecção natural — Satanás é aquilo a que as Escrituras chamam de “Legião”.

Por exemplo, o fenómeno da liberalização do aborto e a sua aceitação pelas massas, é corroborante, consciente ou inconsciente, desta nova religião pagã e sacrificial, que se orienta pela linha doutrinal de Darwin a Nietzsche, segundo a qual a vítima tem que, ou deve ser morta porque é fraca. E o novo aristocrata é aquele que não só apoia a morte da vítima, como cria as condições para que a vítima seja morta pelas massas ou Legião.

Para que se tenha uma ideia da influência de Darwin, Herbert Spencer e Nietzsche em Fernando Pessoa, transcrevo um breve trecho deste último:

“Todo o organismo é superior na proporção em que a sua unidade essencial é interpretada e realizada por funções diferenciadas. [até aqui, tudo bem]

Quanto mais elevado é um organismo na escala dos seres vivos, mais diferenciados são os órgãos que o compõem, e maior a interdependência das suas funções.” [errado!]

Aqui, Fernando Pessoa valoriza a superioridade do organismo, não qualitativamente [uma qualidade intrínseca ao ser do organismo], mas quantitativamente — à laia de Darwin, Nietzsche e Spencer. Ou melhor: a qualidade do organismo, segundo Fernando Pessoa, advém necessariamente da quantidade da putativa diferenciação dos órgãos que compõem o tal organismo superior. Ora, uma análise da ciência actual à complexidade extrema da célula eucariótica — e mesmo uma complexidade quase absoluta, como no caso do flagelo ou do cílio — por exemplo, mostra que Fernando Pessoa está errado, assim como estão errados Darwin e Spencer e, por inerência, o próprio Nietzsche. Defender, hoje, esta ideia é assumir uma posição, pelo menos, a-científica.

O utilitarismo, que caracteriza a modernidade e principalmente a pós-modernidade, não é a preocupação com o bem-estar da maioria: antes, é a procura do bode-expiatório inconsciente da Legião ou das massas.

E esse bode-expiatório é a vítima inocente, seleccionada arbitrariamente pela Legião. A escolha arbitrária da vítima corresponde à necessidade inconsciente de tentar resolver o problema da polarização dos contrários [da Metaxia, segundo Eric Voegelin] que caracteriza e delimita a existência humana (por exemplo, o bem e o mal); é uma tentativa de fuga à realidade, através do desejo de pacificação, mediante um ritual sacrificial, das forças contrárias que o ser humano se apercebe estarem presentes na sua realidade. O niilismo é mesmo isto: a tentativa [ilusória e delirante] de anulação das diferenças entre o bem e o mal.

A Revelação Bíblica denuncia esse mecanismo de bode-expiatório sacrificial e inconsciente, explicando-o. A Paixão de Jesus Cristo é exactamente a denúncia e a neutralização desse bode-expiatório, na medida em que o próprio Cristo se oferece à morte como vítima arbitrária e inocente.

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