perspectivas

Quarta-feira, 15 Maio 2013

Fernando Pessoa: ‘só existem nações, não existe humanidade’

Filed under: Portugal — O. Braga @ 1:29 am
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“A humanidade não existe sociologicamente, não existe perante a civilização.

Considerar a humanidade como um todo é, virtualmente, considerá-la como nação; mas uma nação que deixe de ser nação passa a ser absolutamente o seu próprio meio. Ora um corpo que passa a ser absolutamente do meio onde vive é um corpo morto.

A morte é isso — a absoluta entrega de si próprio ao exterior, a absoluta absorção no que o cerca. Por isso, o humanitarismo e o internacionalismo são conceitos de morte, só cérebros saudosos do inorgânico o podem agradavelmente conceber.

Todo o internacionalista deveria ser fuzilado para que obtenha o que quer: a integração verdadeira no meio a que tende a pertencer. Só existem nações, não existe humanidade.”

— Fernando Pessoa, Obras em Prosa, Textos Filosóficos e Esotéricos

Como a esmagadora maioria dos membros da nossa classe política é internacionalista, talvez seja por aí que devamos começar, integrando-a no meio a que tende a pertencer.

Segunda-feira, 15 Abril 2013

Manifesto Anti-Europa, por Fernando Pessoa (adaptado)

Filed under: Europa,Ut Edita — O. Braga @ 6:00 pm
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Ai! Que fazes tu da celebridade, Angela Merkel, canhota maneta do braço esquerdo, Bismarck sem tampa a estorvar o lume?!

Quem és tu, tu da juba socialista, Durão Barroso, bobo de barrete frígio feito de Union Jacks?

E todos os chefes de estado, incompetentes ao léu, barris de lixo virados para baixo à porta da Insuficiência da Época!
Tirem isso tudo da minha frente!
Arranjem feixes de palha e ponham-nos a fingir gente que seja outra!
Tudo daqui para fora! Tudo daqui para fora!
Se não querem sair, fiquem e lavem-se.

Tu, ambição italiana, cão de colo chamado César.
Tu, “esforço francês”, galo depenado com a pele pintada de penas! (não lhe dêem muita corda senão parte-se!).
Tu, cultura alemã, Esparta podre com azeite de marxismo e vinagre de nietzschização, colmeia de lata, transbordamento imperialóide de servilismo engatado!
Tu, Von Bélgica, heróica à força, limpa a mão à parede que foste!
Ponham-me o pano por cima de tudo isso!
Fechem-me isso à chave e deitem a chave fora!
Onde estão os antigos, as forças, os homens, os guias, os guardas?
Vão aos cemitérios, que hoje são só nomes nas lápides!

Proclamem bem alto que ninguém combate pela Liberdade ou pelo Direito! Todos combatem por medo dos outros! Não tem mais metros que estes milímetros a estatura das suas direcções!

Sentina europeia de Os Mesmos em cisão balofa!
Quem acredita neles?
Quem acredita nos outros?
Façam a barba aos poilus!
Descasquetem o rebanho inteiro!
Mandem isso tudo pra casa descascar batatas simbólicas!
Lavem essa celha de mixórdia inconsciente!
Ponham uma coleira a isso e vão exibi-lo para a China!

Homens, nações, intuitos, está tudo nulo!
Falência de tudo por causa de todos!
Falência de todos por causa de tudo!
De um modo completo, de um modo total, de um modo integral: merda!

Domingo, 14 Abril 2013

A eficiência ineficiente dos nossos dias

Filed under: Sociedade — O. Braga @ 3:56 pm
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“A eficiência é menos complexa nos nossos dias. Por isso, a ineficiência pode passar facilmente por eficiência, e ser efectivamente, eficiente.” — Fernando Pessoa, “Erostratus”

Sábado, 13 Abril 2013

Fernando Pessoa e o bárbaro moderno

«Outro elemento da notoriedade chamada fama é ser-se bárbaro. Por ser bárbaro, quero dizer, chegar à civilização vindo de fora dela; pertence-lhe pelo número da porta mas sem alma para compreender porque se fizeram as ruas e se puseram números na antiga tradição das portas separadas.

(…)

fernando pessoa corpo inteiro webA característica moral definida dos segundos [os bárbaros] é a sua amoralidade; tanto Shakespeare como Whitman eram indiferentes aos valores morais, excepto na medida em que estes eram susceptíveis de serem convertidos pela emoção temporária em valores estéticos. Diga-se de passagem que ambos eram pederastas…

O facto essencial do bárbaro é que é completamente moderno; é do seu tempo porque a raça, a que pertence, não tem tempos civilizacionais anteriores.

Não tem antepassados fora da biologia. O traço comum de Lenine e Shaw é o de quando apelam para algo fora deles próprios, apelam a coisas como a humanidade, que é a expressão comum para a espécie animal que tem a forma humana, e inexistente fora da zoologia ou da ciência, e que não tem nada a ver com o espírito humano excepto ser por ele produzida, mas não para ele.

O negro usa sempre a última moda. O canibal, se aqui estivesse, mandaria vir sempre os pratos mais modernos. Ambos, por motivos óbvios, se sentem, por vezes, pessimistas.»

— Fernando Pessoa, “Erostratus”

Sexta-feira, 12 Abril 2013

José Saramago segundo Fernando Pessoa

Filed under: cultura,Ut Edita — O. Braga @ 10:55 am
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Passado algum tempo depois da morte de José Saramago, e se olharmos ao que se publica nos blogues e na comunicação social acerca dele e da sua obra, resta pouco. Não tarda nada, cai no esquecimento. E a razão para esse esquecimento é a de que, apesar do Nobel da literatura, Saramago foi aquilo a que Fernando Pessoa chamou de “um génio do seu tempo”, que não é propriamente génio, mas antes “talento sem espírito”:

“O espírito divide-se em três tipos — espírito propriamente dito, raciocínio e crítica; o talento em dois tipos — capacidade construtiva e capacidade filosófica; o génio é de um só tipo — originalidade.” — Fernando Pessoa, “Erostratus”

Tem mais génio e espírito Mia Couto, por exemplo, que nunca recebeu um prémio literário português nem é Nobel, do que José Saramago.

jose samago vintage 221 webNa década de 1980 comprei e li o livro de Saramago “Viagem a Portugal”. Ali havia talento, mas não génio nem espírito. O talento de José Saramago residia na sua capacidade construtiva e menos na capacidade filosófica que era sofrível; o seu conteúdo não era original, porque era, no fundo, uma narrativa descritiva das viagens de José Saramago em Portugal, e porque o estilo da escrita não era original porque emulava, de certa forma, os escritores realistas portugueses. Ali havia talento na construção mas não no raciocínio, e havia a “vontade firme de um pedante” (Fernando Pessoa).

Na obra de Saramago da década 1990 não há propriamente originalidade. A única obra de facto com algum vislumbre de originalidade ideológico é o “Ensaio sobre a Cegueira” — porque a ideia da “Jangada de Pedra” não é nova e remonta aos iberistas do século XIX —, mas o estilo propriamente dito não tem nada de original e positivo. Quando Saramago elimina a pontuação, não se trata de originalidade de estilo — porque a originalidade obedece a regras básicas de racionalidade e de respeito pela língua — mas de pedantismo ditado por uma firme vontade.

Tem mais génio e espírito Mia Couto, por exemplo, que nunca recebeu um prémio literário português nem é Nobel, do que José Saramago.

Quinta-feira, 11 Abril 2013

Fernando Pessoa e o antídoto da aristocratização

«A nossa civilização corre o risco de ficar submersa como a Grécia (Atenas) sob a extensão da democracia, de cair inteiramente nas mãos dos escravos, ou então de ficar como Roma, não nas mãos de imperadores filhos do acaso e da decadência, mas de grupos financeiros sem pátria, sem lar na inteligência, sem escrúpulos intelectuais e sem causa em Deus.

O único antídoto para isto é uma lenta aristocratização.»

— Fernando Pessoa, 1920.

A aristocratização que nos fala Fernando Pessoa é a criação de uma elite digna desse nome ou propriamente dita, que já existiu em Portugal no século XX mas que nas últimas três décadas tem vindo paulatinamente a desaparecer com o surgimento dos “trabalhadores da undécima hora”.


O mestre Adriano Moreira, no seu livro “Tempo de Véspera”, escreveu o seguinte:

“(…) os trabalhadores da undécima hora só prosperam quando as batalhas forem ganhas, os tempos cumpridos, os sonhos realizados. Não são os que ficaram silenciosos, os que participaram na acção, que fizeram o mundo em que vivemos. Acontece que estão lá na época da colheita. Os que fazem o mundo são os outros, são os que transformam as ideias em palavras e as palavras em acção.
(…)
É porque os velhos lutadores estiveram nos debates, responderam à chamada para o combate, participaram nas carências, correram todos os riscos, que chega algum dia em que batem as pancadas da undécima hora. Os construtores do mundo, de uso não têm mais do que dez horas para viver. A colheita em regra não lhes pertence.
(…)
O grande destino que lhes coube e cumpriram foi o de preparar a vinda da undécima hora.”

Quarta-feira, 10 Abril 2013

Fernando Pessoa, a arte e a moral

Filed under: ética,cultura,Ut Edita — O. Braga @ 11:54 am
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“As épocas têm mais em comum as suas ideias morais que as suas imoralidades. Só nas épocas de decadência é que a moralidade deixou de ser um ideal; e, mesmo nessas, reconhece-se o seu valor ideal.

(…)

Os homens não apreciam só esteticamente, apreciam segundo toda a sua constituição moral. Por isso coisas grosseiras, impuras, lhes desagradam, não na parte estética neles, mas na parte moral que não podem mandar embora de si.”

Fernando Pessoa, “Arte e Moral”, Obras em Prosa, 1975, Tomo II, pág. 154

Nesta citação de Fernando Pessoa, reconhece-se que mesmo em épocas de decadência o valor moral não deixa de ser visto como um ideal; por exemplo, entre o povo mais simples mas já não entre as elites. O factor de decadência cultural de uma época são as elites, e não o povo que é simplesmente arrastado na enxurrada dos valores negativos ou niilistas.

Por outro lado, Fernando Pessoa reconhece que o gosto estético é inseparável dos valores morais. E é por isso que, em épocas de decadência, a arte degrada-se sem que os próprios artistas — que pertencem às elites — se dêem conta dessa degradação, porque quando estes procuram apenas a beleza sem consideração de qualquer valor moral (o que é próprio das épocas de decadência), a própria obra de arte produzida é prejudicada pela ausência do valor moral.

Na mesma página, Fernando Pessoa escreve o seguinte: “Um assunto sexual deve ser tratado em arte de modo que não suscite desejo. Para suscitar desejos, serve melhor uma fotografia pornográfica”.

Portanto, existe uma relação intrínseca entre a arte e a moral. E quando nós vemos hoje uma tendência clara e evidente para separar radicalmente a arte dos valores morais, temos aí a prova insofismável que vivemos numa época de decadência.

Terça-feira, 9 Abril 2013

O metafísico, o moralista e o esteta

Filed under: ética,Tempo de Café — O. Braga @ 9:35 am
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“A cada conceito da vida cabe não só uma metafísica, mas também uma moral.
O que o metafísico não faz porque é falso, e o moralista não faz porque é mau, o esteta não faz porque é feio.”

— Fernando Pessoa, “Aforismos e Fragmentos sobre a Arte”, 1975, pág. 128

Quinta-feira, 4 Abril 2013

Fernando Pessoa não gosta da maçonaria quando associada ao “cristismo”

Filed under: gnosticismo,Maçonaria — O. Braga @ 4:58 pm
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“Se se quiser dar um nome de origem à Maçonaria, o mais que poderá dizer-se é que ela é, quanto à composição dos graus simbólicos, plausivelmente um produto do protestantismo liberal, e, quando à redacção deles, certamente um produto do século dezoito inglês, em toda a sua chateza e banalidade. (…)” — Fernando Pessoa

O contributo judaico da maçonaria segundo Pessoa


«Não sou mação, nem pertenço a qualquer outra Ordem semelhante ou diferente. Não sou porém anti-mação, pois o que sei do assunto me leva a ter uma ideia absolutamente favorável da Ordem Maçónica.»
— Fernando Pessoa, “Associações Secretas”, Obras em Prosa, 1975, III Volume, página 60.

Fernando Pessoa tem dias; é conforme lhe dá na telha. Eu só cito Fernando Pessoa quando tenho a certeza de que o conteúdo ideológico dos textos dele é coerente e lógico, e que se baseia em factos concretos — e não em meros “factos argumentativos”.

Se a Maçonaria especulativa tem alguma coisa a ver com qualquer tipo de Cristianismo — protestante, que seja —, então Fernando Pessoa deprecia a maçonaria por causa do Cristianismo, a que ele chamava de “cristismo”. O alvo é o Cristianismo, e não propriamente a maçonaria.

Na primeira citação, Fernando Pessoa quis atacar o Cristianismo (protestante, neste caso) sem deixar ficar mal o gnosticismo que tanto ele como um certo protestantismo (nem todo!) defendiam (por exemplo, os huguenotes e o famigerado John Theophilus Desaguliers).

Muitas vezes Fernando Pessoa é “encurralado” pelos seus próprios argumentos. Neste caso concreto, ao querer criticar o protestantismo (que, como sabemos, e em algumas correntes, possui um forte matizado gnóstico), acaba por colocar indirectamente em causa o seu (dele) gnosticismo. Mas quando a maçonaria é apresentada sem qualquer relação a qualquer forma de “cristismo”, então Fernando Pessoa defende-a.


Uma coisa é falar-se influência judaica na maçonaria; e outra coisa é falar-se em influência do Judaísmo na maçonaria. São coisas diferentes e é claro que o Judaísmo, enquanto religião, pouco ou nada teve a ver com o fenómeno maçónico. Daniel Béresniak, no seu livro “Judeus e Franco-maçons” (2001), embora talvez sem querer, faz bem essa distinção.

Também é verdade que a Cabala não é uma ferramenta do Judaísmo enquanto religião. E tal como existiram cristãos gnósticos, também existiram judeus gnósticos, embora seja mais difícil encontrar muçulmanos gnósticos, talvez porque o Islamismo é, dos monoteísmos, o mais “blindado”.

O gnosticismo é, em si mesmo, uma religião distinta de qualquer outra, mas não deixa de ser uma religião — embora com a característica de ser uma “religião parasita”, na medida em que se alimenta constantemente das religiões ou mundividências que existem a cada época ou espírito do tempo. O que não muda nunca no gnosticismo de qualquer época é a sua característica fundamental dualista e anticósmica, por um lado, e marcadamente elitista, por outro lado.

Terça-feira, 26 Março 2013

Fernando Pessoa ajuda-nos a compreender a política das engenharias sociais e das fracturas culturais

Fernando Pessoa, nas suas Obras em Prosa coligidas, 1975, Tomo III, páginas 17 e 18, transcreve um trecho do livro “Conservantismo”, da autoria do Lorde Hugh Cecil, filho do marquês de Salisbúria, como segue:

«Tornou-se altamente interessante inquirir onde está o centro do Poder que domina, em última análise, a Casa dos Comuns e a autoridade ilimitada que, pela Constituição, essa Casa exerce. É interessante e importante, porém não é muito fácil. Pode dizer-se que o Poder está no Gabinete, isto é, nos quinze ou vinte homens predominantes do partido em maioria.

Mas isso nem sempre será verdade. Pode às vezes haver discordâncias no Gabinete. ¿Qual é a força que então determina que a decisão seja dada num sentido ou noutro? A melhor resposta é que a autoridade suprema num Partido é em geral exercitada pelos mais activos e enérgicos dos organizadores partidários sob comando de um ou mais dos principais chefes do Partido. Às vezes o chefe nominal do Partido está entre estes homens; outras vezes não está. Mas eles derivam a sua força, não só da sua situação pessoal, mas de que, de um modo ou de outro, influem no que se pode chamar de Guarda Pretoriana do Partido, isto é, os seus elemento mais activos e ardentes.

Se é assim, temos graves razões de receio. A Casa dos Comuns nomeia o executivo e tem domínio absoluto sobre a legislação. O Partido em maioria na Casa dos Comuns domina absolutamente a Casa dos Comuns. Esse Partido é, por sua vez, dominado pelos seus elementos mais ardentes e enérgicos, sob o comando dos políticos a quem esses são mais afectos. Quer isto dizer que a suprema autoridade do Estado está nas mãos de partidários extremos e nas mãos dos estadistas que mais admirados são por esses partidários extremos. É quase impossível conceber uma forma menos satisfatória de governo. Isto, contudo, é que é a realidade.

A aparência é que a Casa dos Comuns representa o povo. Mas, de facto, o povo nem tem a voz dominante na escolha da Casa dos Comuns, nem domínio real sobre ela, uma vez escolhida. O povo tem, na prática, só a liberdade de escolher entre o candidatos partidários que são submetidos à sua escolha. São os partidários ardentes — a Guarda Pretoriana — quem escolhe os candidatos; os eleitores têm somente que determinar se querem ser representados pelo nomeado dos Pretorianos Conservadores ou pelo nomeado dos Pretorianos Liberais, ou, em casos mais raros, podem escolher um candidato, não menos disciplinado, nomeado pelo Partido Trabalhista.

Os independentes podem propor-se, e algumas vezes se propõem à eleição. Mas as eleições, nas condições modernas, são a tal ponto matéria de organização e mecanismo que é com grande desigualdade que um independente se pode bater contra os candidatos nomeados pelos partidos. O triunfo de uma candidatura independente é a coisa mais rara deste mundo. A única e verdadeira influência que têm os independentes está no desejo dos chefes partidários de lhes obter os votos. Mas até isto tem na prática um alcance limitado. Há assuntos controversos sobre os quais os partidários ardentes, de um lado e de outro, sentem tão fortemente que quase nada se importam da opinião do público não partidário. E, quando a Casa está eleita, a influência da opinião pública fica semelhantemente limitada.

Alguma coisa se fará para obter apoio na próxima eleição geral; mas, sempre que os homens do Partido do governo realmente se empenhem num assunto, correrão todos os riscos para fazer vingar a sua política. Sobretudo o farão quando o assunto de que se trate envolva o crédito pessoal de um dos chefes da sua confiança. O facto formidável é que a mais alta autoridade do nosso Império imenso e único se encontra alternadamente nas mãos de dois grupos de homens veementes, intolerantes e desequilibrados.»

Mais adiante, no mesmo Tomo, na página 22, Fernando Pessoa escreve o seguinte:

«Um hábito social, isto é, uma tradição, uma vez quebrado, nunca mais se reata, porque é na continuidade que está a substância da tradição. Além de que, não sabendo ninguém o que é a sociedade, nem quais são as leis naturais por que se rege, ninguém sabe se qualquer mudança não irá infringir essas leis. Em igual receio se fundamentam as superstições, que só os tolos não têm — no receio de infringir leis que desconhecemos, e que, como não as conhecemos, não sabemos se não operarão por vias aparentemente absurdas. A tradição é uma superstição. »

No mesmo Tomo, Fernando Pessoa escreve:

«Só pode ser universalmente aplicável o que é universalmente verdadeiro, isto é, um facto científico. Ora, em matéria social não há factos científicos. A única coisa certa em “ciência social” é que não há ciência social. Desconhecemos por completo o que seja uma sociedade; não sabemos como as sociedades se formam, nem como se mantêm nem como declinam. Não há uma única lei social até hoje descoberta; há só teorias e especulações, que, por definição, não são ciência. E onde não há ciência não há universalidade.»

Domingo, 24 Março 2013

A coerência incoerente de Fernando Pessoa

Filed under: filosofia,gnosticismo,Ut Edita — O. Braga @ 9:40 am
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O que interessa em Fernando Pessoa não é a coerência que quase não existe, mas a incoerência provida de lógica porque inteligente. Dizer uma coisa e o seu contrário pode ter pertinência se a antinomia se justificar racionalmente; por exemplo, a antinomia de Kant: “nada escapa ao determinismo natural, ou, o homem é livre, não está sujeito a ele”.

“No fundo, é claro, há um determinismo fatal, que leva as sociedades para certo destino. Mas, pragmaticamente, não podemos pensar nesse fim. Temos que crer na possibilidade do esforço, visto que não conhecemos o futuro.” — Fernando Pessoa, Obras em Prosa, 1975, “Sobre Métodos”.

Como é evidente, esta proposição de Fernando Pessoa é antinómica: se “não conhecemos o futuro”, não podemos afirmar que “existe um determinismo fatal”. Poderíamos dizer — como parece dizer Fernando Pessoa — que esse “determinismo fatal” existe e inclui já o futuro, sem que nós o conheçamos ou possamos sequer conhecer. Ou seja: alegadamente, o futuro inteiro está previamente traçado desde o primeiro momento do universo, e acontece apenas que o desconhecemos. Há aqui um certo “calvinismo” em Fernando Pessoa que decorre de uma visão gnóstica da realidade. (mais…)

Sábado, 23 Março 2013

O Estado não é português

Filed under: Maçonaria,Portugal — O. Braga @ 10:31 pm
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«O Estado não é português, o Estado não é decente, o Estado está, desde 1820, na posse de homens cuja obra é a essência da traição e da falência. Procurar auxílio do Estado é tão absurdo como procurar influenciar os homens que o possuem. Não há neles uma centelha de boa vontade patriótica, nem de lucidez portuguesa. Vivem daquilo, e nem vivem daquilo elegantemente. O esforço revolucionário para os deitar abaixo é um gasto espúrio de energia. ¿Quem é que lhes vai seguir? Não há em Portugal nenhum grupo ou partido, nenhuma reunião de homens duradoura ou ocasional capaz de gerir o país. O que há é péssimo, mas é o que há.» — Fernando Pessoa, Obras em Prosa, “Relatório do Grémio da Cultura Portuguesa”, “Sobre Portugal”.

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