perspectivas

Sábado, 4 Agosto 2012

A filosofia irracional e contraditória de Espinoza

Filed under: filosofia,Geral — orlando braga @ 6:43 pm
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“Uma pedra lançada ao ar, se pudesse tornar-se consciente como um ser humano, imaginaria que se movia por sua própria vontade, embora isso não fosse verdade.”

via O determinismo de Espinosa.

Esta história supra, acerca do determinismo de Espinoza, está mal contada. A filosofia de Espinoza é contraditória na sua essência — no seu âmago —, para além de podermos, mais ou menos subjectivamente, considerar que os princípios de que partiu Espinoza para montar todo o seu esquema de pensamento, estão errados. E se os princípios estão errados, a teoria está errada.

Atentemos a três pontos-chave:

1) as concepções da ética e do direito natural de Espinoza entroncam em Hobbes.

2) as premissas metafisicas de Espinoza, entendidas hoje à luz da filosofia quântica, estão erradas.

3) o conceito de liberdade total do indivíduo, segundo o direito natural de Espinoza, por um lado; e o seu [dele] conceito ético de determinismo do indivíduo, por outro lado, são essencial e profundamente contraditórios.
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Segunda-feira, 16 Julho 2012

O Relativismo Activo do “Livro do Desassossego”

«O meu hábito vital de descrença em tudo, especialmente no instintivo, e a minha atitude natural de insinceridade, são a negação de obstáculos em que eu faço isto constantemente.

No fundo, o que acontece é que eu faço dos outros o meu sonho, dobrando-me às opiniões deles para, expandindo-as pelo meu raciocínio e a minha intuição, as tornar minhas e (eu, não tendo opinião, posso ter a deles, como quaisquer outras) para as dobrar a meu gosto e fazer das suas personalidades coisas aparentadas com os meus sonhos.

De tal modo anteponho o sonho à vida que consigo, no trato verbal (outro não tenho), continuar sonhando, e persistir, através das opiniões alheias e dos sentimentos dos outros, na linha fluída da vida individualmente amorfa.

Cada outro é um canal ou uma calha por onde a água do mar só corre a gosto deles, marcado, com as cintilações da água ao sol, o curso turvo da sua orientação mais realmente do que a secura deles o poderia fazer.

Parecendo, às vezes, à minha análise rápida parasitar os outros, na realidade o que acontece é que os obrigo a ser parasitas da minha posterior emoção. Hábito de viver as cascas das suas individualidades. Decalco as suas passadas em argila do meu espírito e assim mais do que eles, tomando-as para dentro da minha consciência, eu tenho dado os seus passos e andando no seu caminho».

— “Livro do Desassossego”, de Bernardo Soares [aka, Fernando Pessoa]

Quando lemos o “Livro do Desassossego” devemos fazê-lo analiticamente, de outra forma correndo o risco de entrarmos em depressão psíquica. Das duas uma: ou não compreendemos minimamente o que está lá escrito — o que é óptimo para uma mente sadia —, ou compreendendo alguma coisa teremos sempre que manter um espírito crítico e impessoal, semelhante ao do médico que analisa cientificamente uma metástase.
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Quarta-feira, 29 Fevereiro 2012

A mentira ‘segura e profunda’ de Espinoza

Filed under: ética,filosofia — orlando braga @ 3:06 pm
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Ainda em relação a um postal anterior sobre a ética de Espinoza:

Podemos aplicar à ética de Espinoza o princípio do poeta Aleixo exarado nesta quadra: “P’rá mentira ser segura / e atingir profundidade / tem que trazer à mistura / qualquer coisa de verdade”. Espinoza é perigoso porque a sua “mentira é segura” porque transporta consigo algumas verdades empíricas.

Vamos dar aqui um pequeno exemplo da mentira segura e profunda de Espinoza.

“O bom é o que nós sabemos com certeza ser útil.” — Espinoza, “Ética”, IV

Vamos fazer de conta de que não existe nesta proposição de Espinoza um sofisma naturalista, e passar adiante: o que significa “sabemos com certeza”? Como é possível “saber com certeza”?

Simplesmente, não é possível ter a “certeza de saber”, porque o saber — no sentido de “conhecimento racional” — não é compatível com a certeza. Um cientista [naturalista] não pode dizer, por exemplo: “eu tenho a certeza de que não existe o Bosão de Higgs”; ou “eu tenho a certeza de que a idade do universo é de cerca de 14 mil milhões de anos-luz”. Como é que, em termos estritamente racionais — repito: em termos estritamente racionais —, se pode ter a certeza de alguma coisa?!

Toda a ética de Espinoza parte de princípios irracionais como o deste exemplo e, surpreendentemente, em nome da razão…! É nesta “razão irracional” de Espinoza que reside a “mentira segura e profunda”, porque a “mentira” espinoseana transporta consigo uma qualquer verdade empírica [nota: uma “verdade empírica” não é uma “certeza”]; e é, neste caso, a partir dessa verdade empírica — que não é uma certeza — que Espinoza constrói a “certeza do conhecimento” daquilo que é “útil”, e portanto, “bom”.


Na minha opinião, as obras de Maquiavel, Espinoza, Hume e Nietzsche deveriam ser objecto de edições anotadas [a exemplo das edições anotadas da Constituição Portuguesa], de modo a impedir que incautos leitores fizessem uma interpretação errada desses textos.


A partir de um princípio falacioso [neste caso, como poderia mencionar muitos outros] e, portanto, errado, Espinoza espraia a sua perversidade ética, e em nome da ética…!

Neste caso concreto, Espinoza serve-se da proposição falaciosa supracitada para relativizar “racionalmente” as noções de bem e de mal.

Espinoza diz que “a realidade é perfeita”. Entenda-se aqui “realidade” como sendo “Natureza”. Portanto, segundo Espinoza, a Natureza é perfeita. E porque é que a Natureza é perfeita? Espinoza diz que a Natureza é perfeita porque coincide com a “perfeição divina” [Deus sive Natura]; e quando, por exemplo, dizemos que “Hitler foi um monstro”, a alegada monstruosidade de Hitler explica-se pelas leis universais da Natureza que — segundo Espinoza — coincidem com Deus. Portanto, segundo o “príncipe dos filósofos”, a “putativa” monstruosidade de Hitler faz parte da natureza de Deus.

Segundo Espinoza, o facto de alguém dizer que “Hitler é um monstro” deve-se a uma deficiência de análise que se prende com uma “norma exterior” [ao objecto analisado] que se afasta da realidade [Hitler, neste caso] considerada.

Existe neste conceito de Deus sive Natura um gnosticismo invertido [relativamente ao gnosticismo da antiguidade tardia] que não deixa, por isso, de ser uma forma de gnosticismo. Enquanto que na antiguidade tardia o gnosticismo separava radicalmente a Natureza, por um lado, da transcendência, por outro lado, e reduzia a realidade concreta à imanência — Espinoza também separou radicalmente a Natureza, da transcendência, eliminando radicalmente esta última; e transformou toda a realidade — incluindo Deus — em pura imanência: estava aberto o caminho ideológico para Hume, Nietzsche, Richard Dawkins e Peter Singer.

Segunda-feira, 29 Agosto 2011

A herança ética de Espinoza

“Nós não desejamos uma coisa pelo facto de a julgarmos boa, mas julgamo-la boa porque a desejamos.”
— Espinoza [Ética]

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Quinta-feira, 23 Junho 2011

A essência da modernidade e o preconceito

A maioria dos católicos — e mesmo dos cristãos em geral — critica Kant e com razão: a ética de Kant pretendeu ser um substituto da ética humanista cristã e falhou em toda a linha. Porém, eu insisto sempre na ideia de que não faz sentido concentrarmos as nossas críticas em Kant, pela simples na razão de que — em minha opinião — ele não foi o pior dos modernistas. Incomparavelmente mais nefastos do que Kant foram Espinoza, Hume e Hegel.


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Quarta-feira, 30 Março 2011

O erro de Espinoza (2)

Espinoza foi um homem que viveu e morreu sem grandeza porque não conseguiu ser diferente de uma árvore — não conseguiu vislumbrar a sua condição de miserável.

Quando Stephen Hawking, no seu último livro, afirmou que a causa do universo era o próprio universo, nada mais fez do que seguir, grosso modo, a metafísica de Espinoza. A diferença essencial é a de que Stephen Hawking baseia-se no conceito de Multiverso para justificar a infinitude material do espaço-tempo, enquanto que Espinoza concebia o universo como infinito porque não tinha os meios científicos suficientes para saber que, afinal, o universo teve um princípio e que, por isso, é finito.
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Segunda-feira, 28 Março 2011

O erro de Espinoza

Filed under: filosofia — orlando braga @ 7:14 am
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Espinoza foi o avô do positivismo de Comte e do utilitarismo de Bentham.

Se, em um ensaio de Espinoza, substituíssemos o termo “Deus” por “universo”, teríamos, por exemplo e grosso modo, um ensaio filosófico de Carl Sagan ou de Stephen Hawking, e se substituíssemos o termo “Deus” por “natureza”, teríamos um ensaio filosófico do neurologista António Damásio ou do zoólogo Richard Dawkins.
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Quinta-feira, 23 Dezembro 2010

A teoria das propensões, de Karl Popper (1)

Para qualquer pessoa minimamente actualizada e que se preocupe com a realidade, não é possível ignorar pelo menos três tipos de situações, digamos assim, a ver :

  • as conclusões da física quântica;
  • a teoria das propensões, de Karl Popper;
  • o estatuto e o papel da consciência em conexão com os dois itens anteriores.

No que respeita à física quântica, é possível a qualquer pessoa interessada ter uma noção básica acerca das suas conclusões, e sem entrar na linguagem formal da matemática. A ideia de que a quântica é só entendível pelos físicos não corresponde totalmente à verdade.

A “teoria das propensões” de Karl Popper baseia-se nas conclusões da física quântica, e difere dos positivistas, construtivistas e outros críticos — tradicionalmente defensores de um determinismo da natureza — quando demonstra não só que esse determinismo cientificista não existe, como demonstra que as possibilidades de ocorrência de acontecimentos futuros não são um mero produto subjectivo decorrente de eventuais lacunas do conhecimento humano, mas antes são um fenómeno objectivo e concreto.

O terceiro item — o estatuto e o papel da consciência — não é aflorado por Karl Popper neste contexto, mas foi reconhecido como sendo importante por muitos físicos quânticos, entre eles alguns laureados com o Nobel da física. O que se defende é que a consciência interage a nível quântico e contribui decisivamente para moldar as “possibilidades pesadas” (utilizando a terminologia de Karl Popper) que são aquelas cuja propensão para a actualização ou realização se torna mais forte.
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Terça-feira, 11 Maio 2010

A menina que parou no tempo

Brooke Greenberg é uma menina de 17 anos (à esquerda, na foto, na companhia da sua irmã Carly, com 13 anos e à direita). Com 17 anos, estaria perto da maioridade mas ainda gatinha e não fala, ou seja, tem a idade real de 1 ano. Ver a notícia no Times. Os cientistas não têm certezas sobre a causa do não-envelhecimento de Brooke, atribuindo possíveis e hipotéticas causas à estrutura do ADN; de facto, Brooke manteve-se 17 anos com idade de 1 ano, e com um envelhecimento seja extremamente lento. Ela parou no tempo.
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Sexta-feira, 1 Agosto 2008

Liberdade e necessidade

Baruch Espinosa entrou em várias contradições, e uma delas foi a de defender a liberdade do indivíduo face ao Estado ao mesmo tempo que defendia um Determinismo do universo e a total falta de livre-arbítrio do ser humano. A característica determinante da filosofia de Espinosa é o determinismo que, segundo ele, marca a vida de todo o ser humano inserido num universo panteísta ― um universo que consiste no próprio Deus. Espinosa foi um dos precursores do Naturalismo ateísta contemporâneo.

«Chamo livre, quanto a mim, uma coisa que é e que age através da única necessidade da sua natureza; oprimida, aquela que é obrigada por uma outra coisa a existir e a agir de uma certa maneira. (…) Para tornar isto claro e inteligível, vamos conceber uma coisa muito simples: uma pedra, por exemplo, recebe de uma causa exterior que a empurra, uma certa quantidade de movimento e, ao acabar a impulsão da causa exterior, continuará necessariamente a mover-se. Esta persistência da pedra no movimento é uma imposição, não porque seja necessária, mas porque é definida pela impulsão de uma causa exterior (…) Vamos conceber agora que a pedra, enquanto continua a mover-se, pensa e sabe que faz esforço, tanto quanto pode, para se mover. Esta pedra (…) pensará que é bastante livre e que apenas continua o seu movimento porque assim o quer.» ― Espinosa, Carta 58.

…o
determinismo filosófico
é incompatível com a liberdade…
Portanto, para Espinosa a nossa liberdade é uma ilusão porque ela é determinada por uma causa exterior que a condiciona totalmente, apesar de nós pensarmos que temos liberdade. Não vejo é como se pode defender esta ideia e ao mesmo tempo defender a liberdade do indivíduo em sociedade ― liberdade de expressão incluída. A filosofia de Espinosa, como todo o Naturalismo, é intrínseca e essencialmente totalitária; o determinismo filosófico é incompatível com a ideia de liberdade individual.
Esta ideia foi mais tarde seguida por Kierkegaard e por outros existencialistas (para além dos materialistas). Contudo, Maquiavel dois séculos antes de Espinosa escreveu que o ser humano tem liberdade em 50% do seu comportamento, sendo que os outros 50% são restrições à liberdade devido ao meio-ambiente, condicionalismo de vida, educação, etc. Na minha opinião, Maquiavel estará muito mais próximo da Razão do que Espinosa, e a filosofia quântica veio corroborar isso mesmo.

A Física quântica veio demonstrar que o Determinismo não existe na Natureza, mas apenas a Probabilidade de que algo aconteça (“Princípio da Incerteza”, de Heisenberg). Analisando um fenómeno, podemos concluir sobre as suas probabilidades de ocorrência, mas nunca podemos estar 100% seguros de que ele aconteça. É nessa probabilidade falível que reside a liberdade; pelo facto de um determinado fenómeno ser provável significa que existe uma margem de manobra que possa demonstrar a sua não ocorrência: é provável que algo aconteça de determinada maneira salvo exista uma vontade e uma consciência que decida que essa probabilidade se transforme numa impossibilidade objectiva.
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