Do livro de Sofia Reimão (ver nota em rodapé), talvez o mais interessante seja o capítulo 2 com o título genérico “Morte e Modernidade”, na medida em que aborda um pouco mais a área do problema ético da morte.
« (i)O facto de a morte ser frequentemente anónima, em clínicas e hospitais, mostra que existem efeitos secundários antropológicos e éticos, muito profundos. A natureza pública do acontecimento com que termina a vida não é a única vertente a desaparecer; de facto, o doente terminal é separado do seu ambiente familiar e as pessoas emocionalmente envolvidas ocultam os seus verdadeiros sentimentos. (ii) De acordo com Gadamer, esta separação introduz a morte no ciclo tecnológico da produção industrial.
(iii)O progresso técnico-cientifico, em conjunto com o individualismo típico dos dias de hoje, marcam profundamente a experiência contemporânea da morte e afastam-na para longe da sociedade, privatizando-a. (iv) Há quem afirme que é devido a este contexto que a eutanásia se torna compreensível para muitos: esta “morte secreta” revela que o homem moderno conseguiu tomar posse da morte dos outros, considerando-a como algo de seu. (v) O suicídio, como recusa dos outros, surge, também, neste contexto; (vi) por outro lado, aumentam as situações em que doentes terminais se sentem realmente sós, no pressuposto de que as pessoas que os rodeiam pensam eles já não são importantes. »
A ética preponderante hoje — sublinho: hoje, no Ocidente — é essencialmente uma ética semelhante à da escola cirenaica, e não, como erroneamente se diz, uma ética epicurista — porque para os epicuristas, o prazer obtém-se por eliminação do hedonismo, enquanto que para os cirenaicos, o “bem soberano” (prazer) é o próprio hedonismo. Porém, a ética actual predominante e institucionalizada segue algumas influências secundárias e laterais do epicurismo, em dois aspectos: 1) o isolamento do indivíduo face à cidade (a sociedade), e 2) o cálculo da amizade.
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