perspectivas

Segunda-feira, 3 Outubro 2011

A eterna revolução em um manicómio ideológico

A política da chamada “Terceira Via”, anunciada com pompa e circunstância por Tony Blair em meados da década de 90 do século passado, foi defendida pela primeira vez pelo marxista Merleau-Ponty em 1956, no seu livro “As Aventuras da Dialéctica” (Paris, Gallimard). Foram precisos quarenta anos para que as ideias da “Terceira Via” de Merleau-Ponty fossem oficialmente assumidas na política europeia; e depois de Tony Blair, seguiram-se uma série de idiotas úteis: Zapatero, José Sócrates, Lula da Silva, e até o Obama nos Estados Unidos.

Através do seu livro supracitado e do seu conceito de “Terceira Via”, Merleau-Ponty afastou-se definitivamente da ortodoxia leninista e adoptou, embora de forma ambígua, o marxismo cultural da Escola de Francoforte. Os seus discípulos Claude Lefort, Cornelius Castoriadis, e principalmente Alain Touraine, já antes de Maio’68 em Paris mas sob o signo deste movimento, abraçaram definitivamente uma mistura ideológica entre o marxismo cultural e o estruturalismo francês, adoptando não só o conceito político de “Terceira Via”, mas também considerando que o movimento de proletarização terminou, e classificando a classe operária como “esclerosada”.

O que verificámos é que o meios-objecto da revolução se foram alterando sucessivamente de um “meio-objecto revolucionário” para outro, mas esses ideólogos não desistiram do conceito de revolução.

Nos seus escritos de ainda antes de Maio’68, Alain Touraine foi muito claro: os interesses de classe já não são predominantes nas lutas pelo controlo da mudança social e da acção histórica (o proletariado está esclerosado), e agora os meios e objectos da revolução passam a ser as mulheres, os jovens, o estudante, o antinuclear, o regionalista e, segundo o marxista Alain Touraine, mais tarde virão novos meios/objecto da revolução: os ecologistas e os homossexuais. Ei-los aí.

Foram precisos trinta anos para que as ideias de Alain Touraine, e seus camaradas marxistas, fossem oficialmente assumidas pela política europeia — e mais grave: assumidas pelos conservadores europeus! Criou-se, assim, um mito segundo o qual a Esquerda prevê o futuro (os novos profetas), mesmo que esse futuro revolucionário se revele, na prática, catastrófico para a sociedade. As profecias dos novos profetas marxistas têm que ser, mais tarde ou cedo, inexoravelmente adoptadas sob pena de se incorrer em crime de heresia.

O mais perverso, nos novos marxistas culturais, é que não têm problema nenhum em introduzir (enviesando-as) nas suas ideias revolucionárias, as ideias de conservadores como, por exemplo, Tocqueville, e assumi-las como suas. Para o marxismo cultural, vale tudo, e os fins da revolução justificam todos os meios. E como o proletariado se tornou obsoleto para a revolução, qualquer bicho-careta serve de meio-objecto para a revolução: a mulher, o jovem ou o homossexual, são apenas meios-objecto, instrumentos de uma visão utópica do mundo segundo a qual é possível construir um paraíso na Terra através de engenharias sociais construídas através do divórcio entre Direito (o justo) e ética (o bem).

Quando a mulher, o jovem ou o homossexual passarem a ser “objectos revolucionários esclerosados” (como aconteceu com o “proletariado obsoleto”), os revolucionários concentrarão as suas atenções reviralhas na libertação de dominação, por exemplo, em relação aos imigrantes, à ameba, ao pardal e aos animais domésticos. Quiçá, as crianças precisem também de ser libertadas da dominação sexual da merda da cultura ocidental e, assim, a pedofilia seja legalizada. O que é preciso é um eterno e indiferenciado meio-objecto revolucionário para que a revolução nunca acabe.

“Los problemas no se resuelven, meramente pasan de moda.” — Nicolás Gómez Dávila

Quarta-feira, 3 Agosto 2011

Jean-Pierre Olieu e o “casamento” gay

O que se passa hoje é uma tentativa escandalosa da classe política, na sua maioria influenciada pelo movimento revolucionário, de se servir do pacto social que lhes garante o poder político para impôr coercivamente ao povo o conceito de “progresso da opinião pública”, “progresso” esse que coincide totalmente com uma visão elitista e desenraizada da realidade da sociedade.
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Domingo, 19 Junho 2011

O choque de culturas na Europa e a liberdade

Uma das características da cultura política europeia a partir do chamado pós-modernismo é a confusão ideológica, assumida pelas elites culturais e políticas, entre o melting-pot americano (ou a miscigenação brasileira), por um lado, e o multiculturalismo, por outro lado. O erro é grave. Tanto no Brasil como nos Estados Unidos, a assimilação cultural foi feita a partir de princípios culturais que se definiram a priori como sendo universais e inquestionáveis — o que não aconteceu com o multiculturalismo europeu.
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Sexta-feira, 3 Junho 2011

O sistema de Hayek e a axiologia humana

Filed under: filosofia — O. Braga @ 10:20 pm
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Normalmente, tende-se a meter no mesmo saco Hayek e von Mises; e há mesmo quem diga que Hayek segue a tradição de Edmund Burke — o que é tão evidentemente absurdo que até a Wikipédia o desmente. Da obra de Hayek não resulta apenas uma teoria económica, mas um sistema entendido como a exposição de um conjunto de teorias (que não são só estritamente económicas, mas filosóficas) que se transformou, a partir do Nobel de Hayek, em doutrina pelos seus discípulos e críticos, e evoluiu para um dogma a partir da queda do muro de Berlim.
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Terça-feira, 24 Maio 2011

Hungria: o exemplo que Portugal deveria seguir

Ainda até há pouco tempo, a Hungria era vista como “a Suécia do Leste” — isto no pior sentido. Um marialva português que se prezasse, não poderia deixar de visitar dois países da Europa: a Suécia e a Hungria.
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Sábado, 21 Maio 2011

O novo tipo de analfabeto funcional

Acontece hoje um fenómeno novo de pessoas consideradas “cultas” já não terem acesso aos processos de pensamento fundamentais da nossa história de pensamento. E se alguém escapa à norma e tem uma mínima noção desses processos de pensamento através do estudo da história das ideias, corre sério risco de se tornar ininteligível e mesmo de ser ostracizado.

Porém, o pior acontece com aquelas raríssimas pessoas que se especializaram na história do pensamento europeu: a maioria delas raramente dá opinião pública, porque uma opinião avalizada pode significar até, para este tipo de pessoas, colocar a sua vida profissional — e mesmo a integridade física — em risco.

Hoje, vivemos na era dos chamados “técnicos”, que estudaram — por vezes de uma forma incipiente — uma ínfima parte da realidade empírica e convenceram-se, por doutrinação ideológica proveniente do nosso sistema de ensino, que a sua visão do mundo é a única legítima. Porém, como se sabe, o empirismo apenas fornece explicações empíricas. Na esmagadora maior parte dos casos, este tipo de gente tem uma enorme dificuldade de raciocínio lógico para além da área estrita que foi objecto dos seus estudos.

O novo tipo de analfabeto funcional é doutor e engenheiro; tem um alvará de inteligência lavrado pelo sistema de ensino politicamente correcto que pretende abolir tudo aquilo que diga respeito ao passado — incluindo a língua portuguesa e a história das ideias.

Quinta-feira, 19 Maio 2011

O “Partido dos Animais” (PAN)

Talvez o que mais me incomoda nos movimentos políticos pró-animais, é a sistemática comparação entre a vida de um animal qualquer, e a vida humana.
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Quarta-feira, 20 Abril 2011

O determinismo protestante e a liberdade católica (3)

Antero de Quental atacou a Igreja Católica com violência e brutalidade inauditas, responsabilizando o catolicismo por aquilo a que ele chamou de “atraso” por parte da Europa do sul em relação à Europa do norte. Deveria ser permitido a Quental ver a Europa actual, e verificar que os eventuais avanços em algumas áreas da sociedade implicaram necessariamente o retrocesso em outras áreas. Sob ponto de vista humano, a Europa retrocedeu e muito; a Europa sacrificou o valor das relações humanas em favor do chamado “progresso protestante do dever social” que evoluiu paulatinamente, e desde a Reforma, para uma espécie de “Estado do Sol” de Campanella.
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Segunda-feira, 18 Abril 2011

O determinismo protestante e a liberdade católica (2)

Filed under: cultura,filosofia — O. Braga @ 5:26 pm
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No postal anterior falei do determinismo protestante que ditou grande parte da clivagem cultural a que assistimos hoje entre a Europa do sul, por um lado, e a Europa no norte, por outro lado — e isto a propósito da teoria da “cultura feminina” dos povos católicos, segundo o Pedro Arroja. Uma análise ou teoria que se pretenda minimamente “científica”, tem que ter em consideração as causas e não só os efeitos; uma teoria que só se debruça sobre os efeitos de um determinado fenómeno, não é científica.

O luteranismo foi a primeira grande religião política da Europa, porque defendeu a submissão absoluta e inegociável da religião — e do povo religioso — em relação ao Estado; em contraponto, a Igreja Católica sempre defendeu a insubmissão da religião em relação aos Estados.
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Domingo, 17 Abril 2011

O determinismo protestante e a liberdade católica (1)

Filed under: cultura,filosofia — O. Braga @ 7:14 pm
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O Pedro Arroja tem vindo a insistir na teoria da “cultura feminina” que alegadamente “infecta” os povos católicos da Europa. No fundo, o que ele tenta fazer é explicar os fenómenos do presente de uma forma tal que a explicação se apresente desligada do passado histórico. Trata-se de uma tentativa de explicação presentista.

A tradição da Igreja Católica, mesmo depois do concílio de Trento (1545 – 1563) que instituiu a denominada Contra-Reforma, seguiu principalmente a filosofia metafísica de S. Tomás de Aquino. E a principal característica da metafísica de Aquino é o conceito de “futuros contingentes”, que concedia ao ser humano o livre-arbítrio (a liberdade de proceder de uma forma, e não de outra).

Este conceito de Aquino, e a sua negação por parte do protestantismo, é essencial para se perceber aquilo a que o Pedro Arroja chama de “cultura feminina” dos povos católicos.

A principal característica dos movimentos protestantes foi a negação da liberdade do Homem (o determinismo). Essa visão do ser humano como sendo destituído de liberdade, evoluiu até hoje através de uma diferenciação cultural que levou à actual corrosão da religião (e mesmo da religiosidade!) nas sociedades ditas “protestantes”, por um lado, e à manutenção de uma cultura do “dever social” que resultou dessa visão protestante e determinística da realidade, por outro lado.

Ou seja, nos países do norte da Europa, o protestantismo e a sua religiosidade já não existem, em termos gerais, na sua essência, mas ainda existem por lá os resquícios da cultura determinística protestante e luterana do “dever social” — estes últimos traduzidos na herança cultural do determinismo do Homem.

É nesta dicotomia cultural e na sua diferenciação ao longo de séculos, entre a visão determinística da condição humana, por um lado, e a visão que concede a liberdade ao ser humano, por outro lado, que devemos situar as diferenças culturais que caracterizam os povos do norte e do sul da Europa. Naturalmente que existem outras variáveis — por exemplo, as diferenças climáticas, ou genéticas; mas estas variáveis não explicam o fenómeno cultural per se.

(segue)

Quarta-feira, 6 Abril 2011

Um exemplo da sociedade monstruosa que estamos a construir

O exemplo do que se quer dizer aqui, ilustra-se através do caso de Nan Maitland, uma senhora de 84 anos que foi “assassinada legalmente” porque sofria de artrite; aparentemente, a senhora não tinha outro problema de saúde que não fosse a artrite própria da sua idade.

Paulo Portas anunciou ontem no FaceBook que estaria hoje em Azeitão, numa campanha a favor dos cuidados paliativos. E este blogue apoia, neste particular, a acção de Paulo Portas.

A defesa da legalização da eutanásia não é só uma bandeira da Esquerda, embora seja predominantemente de Esquerda: é também característica de uma certa Direita liberal que, como escreveu Olavo de Carvalho, com “a firme decisão de submeter tudo aos critérios do mercado, inclusive os valores morais e humanitários” (…), “acaba dissolvendo no mercado a herança da civilização judaico-cristã e o Estado de Direito.”

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Domingo, 27 Março 2011

A barbárie, na Inglaterra politicamente correcta, era inevitável !

Nunca existiu em Inglaterra tamanha violência em manifestações públicas — com a excepção da manifestação dos estudantes, em Londres, há meia dúzia de meses.
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