perspectivas

Domingo, 12 Outubro 2014

A Nova Teologia marcou e definiu a Teologia da Libertação

 

O Padre Paulo Ricardo escreve aqui sobre a Teologia da Libertação, mas não se referiu ao papel fundamental exercido pelo Existencialismo (Heidegger) e pela Nova Teologia: Bonhoeffer, Karl Bach, Rudolfo Bultmann, etc.. 1

O assunto é complexo, mas foi por aqui que se iniciou a Teologia da Libertação — não na América Latina onde chegou anos mais tarde com a assimilação do marxismo proveniente da revolução cubana, mas no concílio do Vaticano II com aquilo a que se chamou de “protestantização da Igreja Católica”.

Os três homens que citei acima fizeram pior ao Cristianismo em geral, e ao catolicismo em particular, do que todos os marxistas juntos de todos os tempos; e as suas ideias marcaram o Concílio do Vaticano II.

E quando ouvimos o cardeal Bergoglio — aka Francisco I — falar, apercebemo-nos que embora ele rejeite a vertente marxista da Teologia da Libertação, não enjeita a vertente da Nova Teologia que também enformou a Teologia da Libertação no seu início e ainda hoje.

A Teologia da Libertação não é apenas um fenómeno sócio-cultural da América do Sul! Começou na Europa, embora com outro nome: a Nova Teologia.

O que eu pretendo dizer é o seguinte: a influência marxista na Teologia da Libertação surgiu marcadamente na década de 1960, ao passo que a origem ideológica da Teologia da Libertação reside na Nova Teologia que já vem de antes da II Guerra Mundial. A incorporação do marxismo na Teologia da Libertação é apenas uma das duas interpretações possíveis dessa corrente ideológica. Por exemplo, não podemos afirmar com certeza que o Frei Bento Domingues seja marxista, mas podemos dizer acertadamente que ele é um prosélito ou herdeiro ideológico de Bonhoeffer.

Nota
1. Sobre este tema ler o §864 da História da Filosofia de Nicola Abbagnano.

Sexta-feira, 15 Agosto 2014

O Anti-Cristo chegou

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 3:22 pm
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Sexta-feira, 8 Agosto 2014

O homem moderno chama “Acaso” a Deus

Filed under: Ciência,filosofia,Quântica — O. Braga @ 9:58 pm
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“A investigação da Física provou claramente que, pelo menos para a esmagadora maioria do desenrolar dos fenómenos cuja regularidade e constância levaram à formulação do postulado da causalidade universal, a raiz comum da rigorosa regularidade observada é o acaso.”

→ Erwin Schrödingen, Nobel da Física, durante uma lição inaugural na Universidade de Zurique em 1922 1

Ou seja, segundo Schrödinger, os processos que são orientados por leis da natureza surgem de estados que, anteriormente, não estavam sujeitos a regras e eram aleatórios. No referido livro 1 de Manfred Eigen e Ruthild Winkler podemos ler na página 35:

“Designamos como microcosmos o mundo das partículas elementares, dos átomos e das moléculas. Os processos físicos elementares ocorrem todos neste mundo 2. O Acaso tem a sua origem na indeterminação destas ocorrências elementares.”

A regularidade das leis da natureza não é desrespeitada quando Deus intervém no macrocosmos ou no mundo humano/universo. Quando Deus quer intervir num processo natural, fá-lo através do microcosmos e sem perturbar as expectativas de regularidade das leis da natureza. E a própria intervenção de Deus no nosso mundo através do microcosmos surge-nos conforme o princípio da causalidade.

Notas
1. citado por Manfred Eigen e Ruthild Winkler no livro “The Laws of the Game: How The Principles of Nature Govern Chance”, 1987, p. 15
2. mundo do microcosmos

Segunda-feira, 21 Julho 2014

O Talmude e os monoteísmos

Filed under: filosofia — O. Braga @ 3:23 pm
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Ao contrário do que está escrito na Wikipédia tupiniquim, o Mishnah judaico não pertence ao Talmude: O Mishnah, o Midrash e o Talmude são escrituras judaicas distintas entre si.

Um dos “problemas” da Cabala (de origem judaica) é o de se ter afastado radicalmente das fontes das escrituras judaicas Mishnah, Midrash — e principalmente do Talmude: seja o segundo Talmude (alterado e acrescentado a partir do primeiro Talmude) que surgiu depois da destruição do templo de Jerusalém em 70 d.C, seja um Talmude mais antigo que já existia escrito muitos séculos antes do tempo de Jesus Cristo. Vamos chamar a este Talmude mais antigo “primeiro Talmude”.

Na sua educação, e na sua condição de judeu que o era, Jesus Cristo aprendeu desse primeiro Talmude na sua educação enquanto criança.

¿Qual é a súmula ideológica do primeiro Talmude?

Acima foi referido que a Cabala se afastou radicalmente do primeiro Talmude; e por uma principal razão: a Cabala introduziu uma visão religiosa monista no Judaísmo.

No monismo (e também no henoteísmo), o princípio da Unidade (o Uno), é diametralmente diferente do conceito de Unidade do monoteísmo.

No monismo, as formas concretas do divino são plurais, mas o divino-geral — que lhe está subjacente — é Uno. Porém, este divino-geral monista não existe no monoteísmo (neste caso concreto, no Judaísmo). No monoteísmo só existe o divino concreto.

Ou, por outras palavras: o Javé concreto, a “pessoa única” de Javé, possui uma validade universal. Ou, talvez melhor ainda: os monismos chegam à Unidade através da relativização do particular; e os monoteísmos chegam à Unidade através da absolutização e universalização do particular.

Ora, o primeiro Talmude, que é uma escritura base do Judaísmo de depois do exílio, é o suporte ideológico e teórico do monoteísmo judaico. Por isso, de uma forma directa ou indirecta, tanto o Cristianismo como o Islamismo foram beber alguns dos seus fundamentos ao primeiro Talmude.

Conclusão: 1/ O Talmude é antítese da Cabala. O primeiro é a defesa do monoteísmo, ao passo que a Cabala introduz uma mundividência monista no Judaísmo. 2/ Tanto o Cristianismo como o Islamismo, sendo religiões monoteístas, têm alguma base ou fundamento no primeiro Talmude.

Quinta-feira, 22 Maio 2014

O politicamente correcto já é uma forma de populismo

 

O cardeal patriarca de Lisboa, Dom Manuel Clemente, compreendeu (como aliás muitos sacerdotes já compreenderam através da experiência) que a comunidade cristã é hoje aquela comunidade minoritária que parte à conquista da maioria através do exemplo de vida, como aconteceu um pouco assim nos primórdios do Cristianismo. Mas não tenho dúvidas de que essa minoria cristã vai ser politicamente perseguida — aliás, já está a ser perseguida na União Europeia — por uma sociedade culturalmente induzida por uma elite (política, mas não só) moralmente corrupta e que não olha aos meios para atingir os seus fins políticos demagógicos. O politicamente correcto já é uma forma de populismo.

Porém, há a tendência para se afirmar que “a maioria é hoje pagã” — o que é um erro. A maioria é hoje uma massa amorfa que não pode ser comparada com o paganismo da Antiguidade Tardia. O paganismo tinha uma estrutura religiosa; é certo que era imanente e filosoficamente menos elaborada do que o Cristianismo, mas tinha essa estrutura religiosa. Por exemplo, se lermos sobre a polémica de Santo Agostinho contra o neoplatónico Celso (que era pagão), verificamos, por parte deste último, uma argumentação religiosa e soteriológica que o amorfismo cultural actual, nem por sombras, possui 1.

Hoje já não existe cultura propriamente dita: existe um amorfismo cultural que é a negação da própria noção de cultura. É como se a cultura consistisse na negação de si própria, evoluindo em uma espiral de recusa cultural até a um estado em que a negação do racional se transforma em uma concepção do mundo; o irracional passa a ser venerado em nome da razão!. Isto nada tem a ver com o paganismo: é um fenómeno completamente novo, e tem mais analogias com as ideologias dos totalitarismos modernos do que com o paganismo da Antiguidade Tardia. O amorfismo cultural actual tem muito mais a ver com a ética do homossexual David Hume do que com a ética do pagão Celso.

Por outro lado, este artigo fala do conceito grego de “telos” que deu origem à noção de “teleologia”, que consiste no discurso sobre a finalidade das coisas e dos seres entendidos nas suas diferenças ontológicas. É bom sublinhar isto: seres entendidos nas suas diferenças ontológicas. O ser humano tem a sua especificidade natural, e o seu fim (a sua finalidade ontológica) consiste em potenciar as virtudes humanas de acordo com as características de cada indivíduo enquanto inserido na classificação da espécie humana.

Pan-paniscus-bonoboEntre um ser humano e um animal irracional, podemos eventualmente fazer analogias, mas não podemos fazer comparações (como faz a sociobiologia) — porque o “telos” dos dois tipos de seres é diferente.

Por isso não é racional que apelemos à Natureza (falácia do apelo à natureza) para tentar justificar o comportamento humano de acordo com o comportamento de outro animal qualquer, porque o “telos” de um ser humano, por um lado, e de um bonobo, por outro lado e por exemplo, não é idêntico e nem sequer semelhante. O fim (ou seja, a finalidade da sua existência) do ser humano é diferente da finalidade da existência de um bonobo, e a comparação ontológica entre um ser humano e um bonobo é característica da irracionalidade do amorfismo cultural actual marcado pelo cientismo que, no fundo, é uma forma de negação da ciência propriamente dita.

Aquilo que, em um animal irracional, deve ser compreendido no contexto da sua irracionalidade, não serve para tentar justificar o comportamento irracional no homem como sendo razoável — porque estamos a comparar coisas que, à partida, não são racionalmente comparáveis. Ora, o amorfismo cultural actual, imposto através dos me®dia pelas elites corrompidas, não só compara o que não é comparável, como até tende a reduzir o cidadão à condição de um ser irracional. Esta tentativa actual de irracionalização do ser humano só teve paralelo nos totalitarismos do século XX (Hitlerismo e Estalinismo), e por isso podemos inferir que existe uma agenda política esconsa que pretende formatar uma nova forma de totalitarismo de que ainda não temos uma noção clara (conteúdo), embora já possamos pressentir hoje os seus contornos (forma).

Nota
1. Sócrates, Platão e Aristóteles, entre outros, eram pagãos e críticos do comportamento dos sodomitas. “Paganismo” não significava necessariamente “relativismo moral”.

Quarta-feira, 30 Abril 2014

É preciso dizer ao cardeal Bergoglio que o Cristianismo não é uma ideologia política

Filed under: Igreja Católica — O. Braga @ 11:27 am
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Uma coisa é apelar à consciência da sociedade em geral, e dos ricos em particular, não no sentido de instituir a igualdade, porque isso é impossível, mas no sentido de garantir o mínimo de dignidade existencial a toda a gente. O “mínimo de dignidade existencial para toda a gente” significa a possibilidade de acesso aos cuidados de saúde conforme os rendimentos de cada cidadão, o acesso das crianças à educação, e o acesso à dignidade do trabalho.

Twitter-Pontifex-Inequality

Outra coisa, bem diferente, é dizer que “o mal do mundo são os ricos”, como fez o cardeal Bergoglio de uma forma implícita no Twitter. Esta postura, vinda de um papa, é inédita. O próprio Jesus Cristo não condenou directamente dos ricos, mas apenas os ricos avarentos. E, em muitas parábolas, Jesus Cristo utilizou o conceito de meritocracia: por exemplo, na parábola do rendimento dos dons (Lucas, 19,11; Mateus, 25,14).

E mesmo na passagem do homem rico (Lucas, 18,18; Mateus 19,16; Marcos, 10,17), o convite de Jesus ao despojamento material é extensivo a toda a gente, e não apenas aos ricos: “Não há ninguém que tenha deixado casa, mulher, irmãos, pais e filhos, por causa do Reino de Deus, que não receba muito mais no tempo presente e, no tempo que há-de vir, a vida eterna”. Mas Jesus sabe que apenas uma minoria adopta este despojamento, porque, se assim não fosse, não seria possível a continuidade da humanidade (se toda a gente abandonasse a casa, a mulher e os filhos, mesmo que fosse por causa do Reino de Deus, seria uma catástrofe social e a humanidade acabaria).

O cardeal Bergoglio teria a obrigação de saber interpretar as Escrituras. “Teria”, mas parece que não tem qualquer obrigação. Por debaixo de uma falsa e hipócrita humildade, ele sente-se acima das Escrituras e tenta transformar a religião cristã em uma ideologia política.

Sábado, 19 Abril 2014

A Ressurreição de Jesus Cristo e a prova científica

Filed under: Ciência,Igreja Católica — O. Braga @ 11:58 am
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O Padre Gonçalo  Portocarrero de Almada escreveu um texto que pode ser lido aqui (e aqui, em ficheiro PDF), e que pretende conciliar a “ciência dos factos”, por um lado, com a ressurreição de Jesus Cristo.

Antes de mais nada: ¿o que é um “facto”? É algo que adquiriu uma estrutura na nossa consciência.

“Facto” vem do latim “facere”, que significa “fazer”. Ou seja, um facto é “algo que é feito por nós”. Uma imagem que nós vemos não é mais nem menos o resultado das nossas acções quando comparada com uma imagem que pintamos, um trabalho que fazemos, ou um texto que escrevemos.

A realidade do nosso mundo é um “facto”; mas nós não inventamos os dados (da realidade do mundo) que são interpretados pela nossa mente: esses dados existem por si mesmos — constituem a “realidade em si” — em contraponto à nossa interpretação desses dados que constitui a “realidade para nós”. E, como dizia S. Tomás de Aquino, “a verdade é a adequação do pensamento à realidade”, ou dito por outras palavras, a verdade é a adequação da “verdade para nós”, por um lado, à “realidade em si”, por outro  lado.  No fundo, é esta “adequação” que a ciência vem procurando fazer.

Mas um “facto” não é só apenas aquilo que podemos medir experimentalmente. Por exemplo, os axiomas da lógica não são físicos, e não deixam, por isso, de constituírem “factos”.

E o que é a “prova”? Em primeiro lugar, a prova é intersubjectiva: só existe “prova” se for testemunhada e corroborada. Em segundo lugar, qualquer verificação científica de uma prova é sempre baseada na experiência do passado; e se dissermos que “o método científico se prova a si mesmo”, estamos perante uma tautologia.

Na medida em que o nosso cérebro interpreta a realidade — ou seja, a realidade é construída pela nossa mente —, segue-se que a ciência (que é humana) também não tem autoridade para fazer afirmações sobre “a realidade em si”: a ciência só se pode pronunciar acerca de casos concretos que não foram ainda refutados. E se reduzirmos toda a “realidade comprovada”, aos casos concretos que ainda não foram refutados pela ciência, reduzimos o conceito de realidade a uma condição paupérrima.

Com todo o respeito pela ciência, temos que admitir que o método científico não se prova a si mesmo. E temos que admitir que a Realidade não se reduz aos casos concretos que ainda não foram refutados pela ciência. Portanto, não vejo necessidade de justificar ou provar cientificamente a ressurreição de Jesus Cristo: a distância entre o finito e o infinito é infinita, e a realidade não se pode resumir ao método da ciência. E, se pensarmos assim, e só assim, poderemos conciliar a ciência com a Realidade. Ou ainda, como escreveu Einstein 1:


«¿Acha estranho que se considere a compreensibilidade do mundo como milagre ou como mistério eterno?

einstein webNa realidade, a priori, deveria esperar-se um mundo caótico que não se pode compreender, de maneira alguma, através do pensamento. Poderia (aliás, deveria) esperar-se que o mundo se manifeste como determinado apenas na medida em que intervimos, estabelecendo ordem. Seria uma ordem como a ordem alfabética das palavras de uma língua. Pelo contrário, a ordem criada, por exemplo, pela teoria da gravidade de Newton, é de uma natureza absolutamente diferente. Mesmo que os axiomas da teoria sejam formulados pelo ser humano, o sucesso de um tal empreendimento pressupõe uma elevada ordem do mundo objectivo 2, que, objectivamente, não se poderia esperar, de maneira alguma. Aqui está o milagre que se reforça cada vez mais com o desenvolvimento dos nossos conhecimentos 3. Aqui está o ponto fraco para os positivistas e os ateus profissionais.

A ciência só pode ser feita por pessoas que estão completamente possuídas pelo desejo de verdade e compreensão. No entanto, esta base sentimental tem a sua origem na esfera religiosa. Isto inclui também a confiança na possibilidade de que as regularidades que valem no mundo existente sejam razoáveis, isto é, compreensíveis à razão. Não posso imaginar um investigador sem esta fé profunda.

É possível exprimir o estado de coisas através de uma imagem: a ciência sem religião é paralítica, a religião sem ciência é cega.»


Portanto, a ciência não deve insistir na sua pretensão de exclusividade na aproximação à verdade. O conhecimento científico é apenas um aspecto do Absoluto. Reduzir a toda a realidade, à ciência e à prova empírica, é a maior estupidez que o Iluminismo nos trouxe.

Notas
1. “Worte in Zeit und Raum”
2. a tal “realidade em si
3. conhecimentos científicos

Quinta-feira, 27 Março 2014

O Islão, a religião da paz

Filed under: Islamofascismo — O. Braga @ 2:41 pm
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“Al publicar este impresionante documento gráfico en facebook, he pretendido denunciar ante la opinión pública internacional unos hechos monstruosos, absolutamente silenciados por los medios de comunicación de masas; un auténtico genocidio tan monstruoso y bestial como los episodios más abyectos de los campos de exterminio nazis.”

Cristianos quemados vivos en Nigeria: un holocausto monstruoso ante la indiferencia internacional

cristaos quimados vivos na nigeria webCristãos queimados vivos por muçulmanos na Nigéria

Sábado, 22 Fevereiro 2014

Que Maomé era pedófilo, é um facto histórico e não uma mera possibilidade

Filed under: cultura — O. Braga @ 1:48 pm
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“Jesus é, diante de Alá, igual a Adão, que criou do pó.”

— Alcorão, capítulo 3, 59


“É de saudar este interesse de autores muçulmanos por Cristo, mas é estranho o seu silêncio sobre Maomé. Será que a sua religião, ao contrário da cristã, que reconhece liberdade de pensamento e de expressão teológica aos seus fiéis, não lhes permite opinar em termos teológicos? Ou será que este mal disfarçado empenho em desacreditar Jesus de Nazaré é, afinal, uma acção da vanguarda do proselitismo islâmico no ocidente?”

Padre Gonçalo Portocarrero de Almada

Sábado, 11 Janeiro 2014

O Decálogo e a ética

Filed under: ética — O. Braga @ 6:27 pm
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O termo “Decálogo” foi cunhado ou por Clemente de Alexandria (~ 150 – ~ 230), ou Irineu de Lião (~ 130 – ~ 202) : não se tem a certeza de qual dos dois foi o autor do termo. Existem duas versões ligeiramente diferentes do Decálogo: a do Êxodo e a do Deuteronómio. Vamos apenas fazer aqui referência ao Êxodo.

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Sábado, 14 Dezembro 2013

O Padre Gonçalo Portocarrero de Almada diz que Nelson Mandela foi para o Céu

 

Eu não vou discutir aqui o conceito de “Paraíso” que é comum ao Cristianismo e ao Islamismo; nem sequer vou aqui discutir se um ateu pode ou não aceder ao Paraíso. A minha questão, aqui, não é teológica: em vez disso, é ética.

Eu não sou Deus nem Jesus Cristo para saber, com toda a certeza, se o Mandela foi para o Céu; mas o Padre Gonçalo Portocarrero de Almada, que fala directamente com Deus e com Jesus Cristo (o que, aparentemente é vedado ao comum dos mortais), lá terá as suas razões.

Do ponto de vista ético, o problema não é o de saber se Nelson Mandela era católico ou não: a ética não escolhe religiões, embora as religiões tenham influência na (boa) ética. O problema é o de saber se Nelson Mandela foi, ou não, responsável moral pela morte de dezenas de vítimas de atentados bombistas — incluindo uma freira católica assassinada às mãos do ANC dirigido por Nelson Mandela.

O Padre Gonçalo Portocarrero de Almada poderá dizer que “sem ovos não se fazem omeletas”, e que “os fins justificam os meios”; e que o Mandela entendeu que os atentados bombistas que mataram inocentes eram um bom meio para atingir um determinado fim político. O Padre Gonçalo Portocarrero de Almada pode defender o quiser, mas não pode dizer que a sua opinião segundo a qual o Mandela foi para o Céu é eticamente defensável à luz do Cristianismo: está seguramente mais livre de pecado mortal o nosso Álvaro Cunhal do que Nelson Mandela.

Por fim, quando o Mandela defendeu o aborto e aplicou-o na ordem jurídica do seu país, o Padre Gonçalo Portocarrero de Almada deve ter ficado muito feliz — e por isso é que o Padre defende que o Mandela foi para o Céu. Ainda vou ver o Padre fazer campanha a favor do aborto (a tudo se chega, enquanto a vida dura!).

Se julgarmos Mandela do ponto de vista da ética cristã, não é defensável que ele tenha ido para o Céu; mas a teologia do Padre Gonçalo Portocarrero de Almada parece ter em fraca conta a ética católica: parece que, para o Padre, os pecados mortais deixaram de existir. Que lhe faça bom proveito!

Sábado, 23 Novembro 2013

Venerável texto de João César das Neves

 

Excelente texto de João César das Neves no blogue Logos (transcrevo a parte que mais toca a filosofia):

“Porque essa morte, que Ele sofreu por minha causa, durou apenas três dias. Porque Ele, o único a poder dizer que não merece a morte, destruiu a morte com a morte que sofreu por minha causa. Assim não há mais morte, não há mais culpa. Tudo foi levado na enxurrada da ressurreição de Cristo.”

Há assuntos que eu não devo mencionar aqui para não ofender os "católicos fervorosos" que só leram o catecismo da Igreja Católica; mas penso que devo mencionar, por exemplo, que se Deus criou o universo (o mundo e toda a realidade), também criou o devir, a mudança; e se criou o devir, Deus também admite ou permite a existência do negativo — é o Deus absconditus, o Deus que age por toda a parte, no mundo e na realidade, sem que nos demos conta Dele. Sem a acção do Deus absconditus, o universo não poderia existir a cada segundo cósmico, porque a cada segundo cósmico o universo é renovado, como se existisse de novo a cada marcação do tempo cósmico, como se o universo findasse e se renovasse a cada instante cósmico.1

universoO Deus absconditus intervém no macrocosmos através do microcosmo, e sem perturbar as expectativas de regularidade das leis da física (clássica). O princípio da causalidade, que orienta a ciência, “aparece” determinado a partir do microcosmos. Recentemente, teorias no campo da biologia e da bioquímica indicam-nos de que os processos individuais dos seres vivos não são orientados por causas empiricamente comprováveis, mas sim pelo respectivo sistema global mas sem que estas causas resultantes do sistema sejam comprováveis. 2 Sendo assim, por exemplo, o comportamento de uma abelha teria causas comprováveis de ordem genética, mas, para além disso, esse comportamento seria orientado por causas empiricamente não localizáveis do sistema global chamado “colmeia”. Transpondo esta ideia para a ideia de Deus absconditus, podemos fazer uma analogia e dizer que Deus pode intervir nos processos naturais a partir da posição da Totalidade, sem que as leis da natureza sejam infringidas e sem que a Sua intervenção seja comprovável cientificamente.

Sem que o Deus absconditus permitisse o Mal, ou o negativo, não poderia haver a mudança e o negativo que advém do devir. Mas esse Deus absconditus é “periférico”: podemos verificar o Seu Ser na natureza e no universo, no tempo e no espaço, na mudança e no devir, mas não é propriamente o Deus do espírito humano: é o Deus que criou as condições naturais para que os seres vivos pudessem existir.

Porém, Deus tem muitas propriedades: o Deus da Bíblia é também o Deus misericordioso, o Deus de Jesus Cristo. O filósofo Schelling escreveu o seguinte 3 :

“Podemos considerar o primeiro Ser como algo acabado de uma vez por todas e como algo existente sem alterações. Este é o conceito habitual de Deus da chamada “religião racional” e de todos os sistemas abstractos. Porém, quanto mais elaboramos este conceito de Deus, tanto mais Ele perde para nós em vida, tanto menos é possível compreendê-Lo como um ser real, pessoal. Se exigimos um Deus que podemos encarar como um ser vivo e pessoal, temos de O encarar também de maneira completamente humana, temos de admitir que a Sua vida apresenta a maior analogia com o humano, que n’Ele, para além de ser eterno, existe também um devir eterno.” 4 

Ou seja, segundo Schelling, Deus é Ser e Potencialidade que é, por sua vez, a possibilidade de multiplicidade. E Jesus Cristo simboliza esta outra propriedade ou faceta de Deus: o Deus imutável que encarnou no mundo do devir por Ele próprio criado. Jesus, como ser humano, sofre na cruz, no espaço-tempo e sujeito à experiência da condição humana; mas Cristo, como propriedade de Deus, não sofre e abre ao ser humano a esperança do Ser Eterno.


Notas
1. Orígenes escreveu que “o Logos (o Filho) olha constantemente para o Pai, para que o mundo possa continuar a existir”História da Filosofia, de Nicola Abbagnano.
2. Fritjof Capra, The Web of Life, 1996
3. Filosofia da Revelação, 1841, na parte tardia da vida de Schelling e, portanto, menos imanente e mais transcendente.
4. Em 1841 ainda não se sabia da teoria do Big Bang

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