perspectivas

Sábado, 13 Novembro 2010

“Hereafter”, o último filme de Clint Eastwood

O último filme de Clint Eastwood, “Hereafter” (não sei qual é a tradução do título do filme a ser adoptada em Portugal, mas provavelmente será qualquer coisa como “O dia em que o Sol se pôs na Cornualha”) será, pelo que consta, estreado em Portugal a 20 de Janeiro de 2011.

Estive a ler a crítica do filme e soube que o seu tema é a vida espiritual após a morte. É uma história tripla, da experiência “perto-da-morte” de uma jornalista francesa durante um Tsunami, de um rapaz britânico que procura o seu irmão gémeo, e a de um médium espiritualista que contacta o Além-espaço-tempo. Porém, consta que durante todo o filme a palavra “Deus” nunca é pronunciada, ou, seja, o filme versa o tema da vida após a morte mas sem Deus.

Seria interessante analisar a complexidade das razões que leva à criação de um produto cultural (um filme) em que o tema é a vida espiritual após a morte, e em que Deus está completamente ausente. Parece um paradoxo mas existem razões detectáveis para este fenómeno.

Desde logo, o niilismo europeu; o filme também tem que ser vendido na Europa. A coisa funciona mais ou menos assim: as múltiplas experiências humanas “perto-da-morte” impedem até a ciência de fechar os olhos ante o fenómeno; e já que não podemos ignorar a realidade, então vamos encará-la sempre com a margem máxima de niilismo possível. E é assim que se chega à vida espiritual após a morte sem Deus.

Depois, temos as influências negativas de duas ideologias políticas que se combatem mutuamente com uma ferocidade inaudita: o neo-ateísmo e o integrismo islâmico. O filme de Clint Eastwood tentou passar por entre os pingos da chuva, ficando imune às críticas dos neo-ateístas quando não se refere a Deus, e ficando bem na fotografia política quando, não se referindo a Deus, acaba por não se referir a Alá como um símbolo do fundamentalismo religioso.

E por último, a ausência de Deus numa vida após a morte entronca no mito ocidental acerca dos monismos religiosos orientais. A ideia que o ocidente faz do Budismo e o Hinduísmo é totalmente errada. Por exemplo, no Budismo o fervor religioso é comparável ao dos peregrinos portugueses em Fátima que percorrem o perímetro do santuário de joelhos. Ao contrário do que a cultura New Wave ocidental adoptou como certo, o Budismo não é só uma filosofia mas é essencialmente uma religião no sentido puro e duro.

No meio disto tudo, e se alguma coisa terá que mudar na Igreja Católica não é o celibato dos padres ou a extensão do sacerdócio a mulheres. Talvez o que mereça alguma mudança é a adaptação da doutrina católica às experiências humanas, o que significa que a ideia tradicional católica segundo a qual a alma humana não existia antes do ser humano nascer terá que ser revista face às próprias experiências humanas já estudadas pela ciência.

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