perspectivas

O ‘homo signaleticus’

O cientismo e os seus intérpretes na praça pública constituem o principal obstáculo para uma possível redenção da civilização na Europa.

Imaginem um indivíduo [ou um grupo de indivíduos] que nasceu, sempre viveu e foi educado numa grande cidade, e que nunca de lá saiu senão em muito breves ocasiões. Para ele, a “província” — como se diz em Lisboa — é uma realidade estranha, quase alienígena, se bem que matizada por um certo romantismo que transforma o conceito de “província” em algo de significado exótico; hiperbolizando um pouco: para esse indivíduo, a “província” é uma espécie de “Papua Nova Guiné aqui ao lado”.

Para esse indivíduo, a tourada, por exemplo, não pode fazer sentido, porque os símbolos da linguagem da “província” já não existem nele; perderam o seu significado primordial: os símbolos da linguagem do homem citadino separaram-se das suas raízes experienciais universais e históricas.

A tradição transmontana e beirã de matar o porco em casa, por exemplo, é assumida por ele como uma monstruosidade; na realidade, ele não sabe muito bem, sequer, o que é um porco, senão através de documentários de TV e das reuniões do partido político ecologista lá da sua megalópole. A matança do porco da “província” foi, nele, desligada das suas raízes antropológicas primordiais, porque o citadino come a carne comprada no talho do seu bairro, desligando assim o simbolismo da morte do porco, por um lado, do acto de comer a sua carne, por outro lado [dissonância cognitiva].

Podemos dizer que esse indivíduo, citadino por excelência, é culturalmente alienado e sofre de uma dissonância cognitiva em relação às raízes da sua cultura — na medida em que continua a utilizar uma linguagem que é comum ao do homem da “província”, mas atribuindo-lhe um significado diferente e alienado devido à falta de experiência acerca daquilo que esses símbolos significam realmente, e às raízes culturais desses símbolos. De certa forma, dou razão a Mao Tsé-Tung quando obrigou os citadinos chineses a fazer uns “estágios” na “província”, durante a revolução cultural.


Na realidade, aquilo que para o homem da “província”, arreigado à terra e às tradições, são símbolos, para o nosso indivíduo citadino alienado, passaram a ser simples sinais — porque se retirarmos a um símbolo aquilo que é por ele representado, este deixa de ser um símbolo, passando a ser um sinal cujo significado é arbitrário.

O símbolo tem um conteúdo, em que é simbolizado o representado, enquanto que os sinais são escolhidos arbitrariamente. O símbolo, para além do significado cultural que o sinal também pode ter, tem um significado espiritual (relativo à experiência humana subjectiva que adquire uma dimensão de experiência intersubjectiva e universal) que o sinal não tem. Um sinal só passa a ser um símbolo quando passa a ter um conteúdo com relação a um representado, o que lhe retira a arbitrariedade previamente existente. Um símbolo nunca se muda, porque isso resultaria também na dissolução do seu significado; em contraponto, um sinal pode ser mudado mantendo-se o seu significado anterior.


O drama maior do homem moderno é o que resulta de ter transformado, mediante o racionalismo, os símbolos que formataram a civilização, em meros sinais.

Um fenómeno semelhante a esse do citadino em relação à “província”, passou-se com o homem moderno em relação às suas raízes culturais antropológicas. O homem moderno dissociou os símbolos da linguagem, das raízes experienciais da humanidade. O drama maior do homem moderno é o que resulta de ter transformado, mediante o racionalismo [que é coisa diferente de “racionalidade”], os símbolos que formataram a civilização, em meros sinais que são sistematicamente mudados ao sabor do Zeitgeist. O homem moderno já não é o homo simbolicus que Ernst Cassirer tinha classificado: antes, o homem moderno e actual é o homo signaleticus. O homo simbolicus era o que existia até ao Iluminismo — e é, também, o homem da “província” da nossa história, em contraposição ao homo signaleticus citadino da desenraizada megalópole moderna.

A religião positivista (ou cientismo) dissociou os símbolos da experiência humana universal, por um lado, das suas representações, por outro lado, criando uma deformação espiritual no Homem. A “religião” positivista não é mais do que uma entre as muitas “religiões políticas” produzidas por essa deformação espiritual do racionalismo, que separou os símbolos da linguagem, das suas raízes experienciais universais e comuns ao Homem Universal.

Do ponto de vista da História e da filosofia, o cientismo (ou a religião positivista) é uma deformação da realidade, é a expressão afirmativa de um estado de logofobia, e é parte de um movimento histórico que contribuiu decisivamente para a perda da consciência espiritual e transcendental no Homem. Ao contrário do que muita gente da direita política pensa — e face ao relativismo do pós-modernismo —, a afirmação da verdade cientificista, por parte do cientismo, não é uma solução para o relativismo da pós-modernidade: antes, o cientismo faz parte do problema do pós-modernismo e agrava-o.

Numa época de relativismo generalizado decorrente do pós-modernismo, o tipo de “verdade” cientificista agrava o estado deplorável da nossa cultura coeva — na medida em que o cientismo ajoelha-se perante as ideias segundo as quais 1) as ciências que seguem o método científico matematizado são intrinsecamente superiores a todas as outras; 2) que o sucesso das ciências da natureza deve ser mimetizado e estendido a todas as outras ciências; e que 3) o método científico matematizado constituiu o único válido padrão de importância teórica em todas as áreas da ciência e da cultura.

As consequências sociais e políticas da logofobia positivista e/ou da religião cientificista, é a destruição, na consciência humana, da noção [clara e distinguível] de Bem, depreciando a relação existente entre a ordem da alma individual e moral, por um lado, e, por outro lado, a ordem da sociedade e da comunidade política — o que significa que a política perde o seu fundamento transcendente e, por isso, a ética torna-se em uma impossibilidade objectiva. Falar em ética, neste contexto, é um autêntico exercício do absurdo.

O cientismo e os seus intérpretes na praça pública — como, por exemplo, o blogue Rerum Natura — constituem o principal obstáculo para uma possível redenção da civilização na Europa.

2012-06-03

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