perspectivas

O absurdo do ateísmo

Uma das mais importantes reivindicações dos evolucionistas é a de que toda a vida na Terra (e no Universo) evoluiu ao longo dos tempos como resultado de uma série de acontecimentos casuísticos. O Neo-darwinismo é a “teoria do acaso evolutivo”, do caos universal. Se o que os Neo-darwinistas reclamam fosse a verdade, toda a vida na Terra, do maior animal à mais minúscula bactéria, seria resultante de uma longa cadeia de acidentes improváveis, e assim sendo, teríamos poucas razões para crer que existisse uma entidade superior a nível universal, a que poderíamos chamar de Deus, e sobretudo, passaríamos a dar um significado menor ao conceito de Vida.

Contudo, devemos estar gratos a Neo-darwinistas dogmáticos como Will Provine, Richard Dawkins e Daniel Dennett (entre outros): ao retirarem conclusões ateístas da teoria de Darwin, introduziram um indispensável elemento de clarificação no debate. O problema-chave passou a ser o de se saber se o Darwinismo é credível e verdadeiro, se baseado na Ciência pura e dura se numa filosofia materialista.

Os apoiantes do Neo-darwinismo ofereceram aos espiritualistas, no mínimo, um argumento extra: Deus não tinha que desaparecer, porque é sempre possível dizer-se que o Seu “modus operandi” criativo estaria em cada patamar da evolução que agora a Ciência reclamava ter descoberto. Nos últimos séculos, a ausência do “último elo” que uniria o ser humano aos seus ancestrais, foi base de sustentação de alguns eclesiásticos: Deus existia, apesar de Darwin. Deus, actuando nos bastidores, teria permitido que a vida se desenvolvesse de acordo com os princípios darwinistas, em vez de se dar ao trabalho de “criar” a vida de uma forma directa e pessoal. Em geral, quanto mais intelectualizados eram os teólogos, mais rapidamente adoptavam os novos dogmas da evolução darwinista e embaraçosamente se desfaziam dos dogmas bíblicos da criação. Esta foi uma forma de defesa em relação ao novo dogma da Ciência e às reivindicações darwinistas feitas em seu nome. Contudo, e em minha opinião, esses teólogos deveriam ter sido mais cautelosos quando passaram da aceitação de um dogma para outro de igual calibre.

As razões para a existência da espiritualidade (lato sensu) derivam da nossa consciência, da Razão, da nossa capacidade de escrutínio, de vislumbrar um desígnio e de apreciar a beleza no mundo que nos rodeia, no livre arbítrio, etc. Se tudo isso tivesse surgido por um acaso cego e inusitado, como tantos cientistas têm reclamado nos últimos cem anos, quais as razões para crer na existência numa Entidade Criadora? Poucas seriam elas, tanto quanto posso constatar. Se a correlação cega de forças fosse a origem de tudo, qual a necessidade da hipótese espiritual? O ensaísta e historiador Thomas Macaulay escreveu em 1840:

“Um filosofo, nos tempos que correm, contempla as mesmas provas sobre o “desenho” da estrutura do universo que os antigos gregos já tinham. Os modernos astrónomos e anatomistas não adicionaram realmente nada à força dos argumentos que uma mente inteligente e reflexiva pôde encontrar em cada animal, pássaro, insecto, peixe, folha, flor ou concha.”

O argumento do “desenho” é naturalmente um argumento a favor da existência de Deus. S. Tomás de Aquino utilizou-o nas suas provas sobre a Sua existência. Hoje, a Summa Theologica estaria por maioria de razão fora de moda. Mas a “Quinta Prova” da existência de Deus de Aquino diz-nos:

“ Todas as coisas agem de uma forma definida e foram manifestamente desenhadas para agir da forma como o fazem. Através da sua natureza (isto é, da sua essência activa) elas são governadas nas suas actividades. Por isso, existe um desenho e um governo no mundo. Por maioria de razão, existe um primeiro desenhador e governador. E dado que o desenho e o governo envolvem e implicam inteligência, terá que existir um governador e um criador (desenhador) que é a primeira e absoluta inteligência. É Deus.”

O que Darwin fez foi minar o Argumento do Desenho. Essa foi a grande (e infame) contribuição para o pensamento ocidental. Contudo, não podemos esquecer que Darwin não era um mero agnóstico “desprendido” e “à procura da verdade”, mas um antagonista amargo do Cristianismo.
O “evolucionismo” esteve intimamente ligado à ideia de “progresso” no século 19, mas a partir da segunda guerra mundial, do holocausto e da primeira bomba atómica, o cepticismo sobre a pertinência dessa “ligação” acentuou-se. Mas a crença de que os humanos podem ser “reformados” através da manipulação do seu meio ambiente, seja por legislação, seja por meios laboratoriais, ainda perdura. Mas já não pensamos hoje que, à medida que a História se desenrola, as “coisas” melhoram automaticamente, como acreditavam Hegel, Darwin, Marx e Huxley; a verdade é que as “coisas” não são assim tão simples.

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Nos últimos 20 anos, os cientistas descobriram uma autêntica e espantosa nanotecnologia celular; dentro de minúsculas células descobriram turbinas microscópicas, dispositivos de bombeio, circuitos complexos, sistemas de auto-cópia, motores compostos, todo um complexo sistema que Darwin não fazia a mínima ideia de que existiria e a que resumiu chamando de “glóbulos” e “plasma”. No fundo, os darwinistas foram confrontados com a mesma realidade que o criacionismo bíblico enfrentou com o advento do darwinismo: tornaram-se obsoletos.

Muito desta complexidade celular depende de funções coordenadas de uma multitude de partes – um autêntico puzzle microscópico. Por exemplo, os cientistas descobriram que as células das bactérias são propulsionadas por nano-motores de rotação que funcionam a velocidades da ordem das cem mil rotações por minuto (flagellar motor); a Toyota não faria melhor: os motores tem partes mecânicas distintas (feitas de proteínas) incluindo rotores, vedantes, juntas, tubagem em U, distribuição, etc.

Defender a ideia de que tudo isto apareceu por acaso é tão absurdo como defender a ideia de que o último modelo da Mercedes foi construído depois de um vendaval ter passado por uma sucata. Neste sentido, podemos dizer que o neo-darwinismo é o absurdo sacralizado. Se o criacionismo bíblico é hoje considerado por gente inteligente como uma mera alegoria, um “conto de fadas”, a evolução casuística neo-darwinista pode ser classificada como um atentado à nossa inteligência, a expressão de um fundamentalismo religioso irracional camuflado de “ciência”.

Michael Behe é um bioquímico americano muito conhecido. Felizmente, a Wikipedia dá-nos links para resumos de publicações dele, porque simplesmente não existe nada publicado em Portugal. Nada. Nem convém que exista. A nomenclatura neo-darwinista universitária censura e reprime.

Michael Behe demonstrou que o motor flagellar só funciona com a colaboração de 30 proteínas, que desempenham o papel das partes de um motor. Basta que uma destas partes proteicas motorizadas falte, para que o motor flagellar se torne inoperante. Os cientistas já o fizeram, isto é, já retiraram uma das partes (em laboratório) ao flagellar, e o motor deixou de funcionar. Behe classificou o flagellar como de uma complexidade irreduzível (irreducibly complex). Ora, isto cria um grande problema ao neo-darwinismo:

A Selecção Natural parte do princípio da “vantagem funcional”; se uma mutação aleatória pode ser uma vantagem que ajuda um organismo a sobreviver (como dizem os darwinistas), essa mutação pode ser preservada e transmitida a gerações vindouras. No entanto, o flagellar só funciona com todas as 30 partes montadas, isto é, o motor flagellar, só com 29 partes ou menos, não funciona. Portanto, a Selecção Natural limitou-se a “seleccionar” o flagellar uma só vez, logo que o motor apareceu como um todo em funcionamento, mas nada pôde fazer para construir o motor. O neo-darwinismo não consegue explicar a origem das máquinas moleculares através da teoria da Selecção Natural.

Michael Behe conclui que, baseados no conhecimento que temos sobre o que é preciso para se construírem sistemas integrados “complexos irreduzíveis”, como por exemplo a inteligência, ou um circuito integrado, um chip, ou um motor de combustão – será sempre necessária a intervenção de um qualquer tipo de engenharia. Assim, segundo Behe, o Desenho Inteligente explica a origem das máquinas moleculares celulares; as máquinas moleculares parecem ser desenhadas, porque foram desenhadas.

As respostas aos argumentos de Behe dão-lhe ainda mais razão. Os neo-darwinistas argumentam que os motores moleculares bacterianos evoluíram de um simples subsistema do motor – conhecido como a “seringa”, que se encontra muitas vezes nas bactérias, separada das outras partes do motor flagellar. Recentemente, os neo-darwinistas tiveram mais uma desilusão quando estudos genéticos recentes demonstraram que a “seringa” apareceu depois do motor flagellar, e portanto, não poderia ter participado na “evolução” do flagellar.

Em princípios da década de cinquenta, foi descoberta a dupla espiral do ADN, pelos biólogos – James D. Watson (USA) e Francis H. C. Crick (UK). Como se sabe, a estrutura do ADN tem um código digital, um abecedário de quatro caracteres. Para que as proteínas necessárias à vida e à reprodução das células sejam geradas ou adquiridas, o ADN cria sequências químicas precisas baseadas nesse código de 4 caracteres. Foi Crick que desenvolveu a ideia da “linguagem computorizada”, em que os constituintes químicos do ADN funcionam como letras de um alfabeto ou símbolos de um código de programação de um software. Assim como estas palavras que escrevo (espero que de uma forma inteligível) dependem da disposição das letras (vogais e consoantes), assim os elementos químicos do módulo espinal da molécula do ADN transmitem instruções precisas para a produção de proteínas. A combinação de caracteres determina a função requerida; a linguagem binária dos nossos computadores aproxima-se (muito tenuemente) deste princípio.

Nos anos sessenta, descobriu-se que o ADN e o Ácido Ribonucleico (ARN) são somente parte de um mais complexo sistema de processamento de informação, que inclui nanotecnologia avançada que ultrapassa tudo que possamos imaginar em complexidade, lógica, engenharia e capacidade de armazenamento de informação. De onde nos chega essa imensa informação digital presente na célula? Tudo aponta para um desenho; nenhuma teoria química de evolução indirecta explicou a origem de tamanha quantidade de informação digital necessária para a construção da primeira célula viva – porque a quantidade de informação presente na célula é de tal densidade que não poderia, de forma alguma, pela teoria do surgimento da vida por hipótese aleatória. Seria como se afirmássemos que um jornal apareceu escrito fruto da atracção entre as folhas de papel e a tinta; é assim que os neo-darwinistas explicam “o jornal da vida”: excluindo o trabalho de quem teve de colocar, efectivamente, a tinta no papel. É claro que existe “algo” para além do surgimento da vida por acaso; o que ninguém sabe é o que é esse “algo”. A informação só surge da actividade consciente; quem duvidar disto, não pensa, vegeta.

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O legado do Darwinismo aplicado à sociedade actual é o de que, à semelhança do que acontece com um microrganismo que se tem que se adaptar ao meio-ambiente, assim uma mudança no ambiente político, cultural e legal forçará uma mudança na população humana “teimosa”, “não progressista”. Tudo é passível de ser reformulado e reformado através de uma combinação de boa-vontade e o uso judicioso da força política e da repressão ideológica. Se Deus não existe e os Neo-darwinistas acreditam que de facto Ele não existe, então tudo o que é mecanicamente possível passa a ser moralmente permissível.

Se a fé Neo-darwinista perdura, teremos todos que estar preparados para horrores num futuro próximo. Esta inquietação é partilhada por cientistas da nova vaga como Michael Behe e por teólogos como Bento XVI. No seu livro “Darwin’s Black Box”, Michael Behe publicou o primeiro manifesto científico anti-Darwin de que há memória.
É importante que os cristãos e espiritualistas em geral compreendam que o que está em causa com a polémica acerca do Neo-darwinismo, não é a primazia da Religião ou a sua supremacia sobre a Ciência, mas a relutância dos evolucionistas em trazerem à discussão o estatuto científico da Teoria da Evolução: alguns dos “evolucionistas” sabem das fraquezas das suas posições.

Com o Papa Bento XVI, esta polémica ira certamente recrudescer. Os Neo-darwinistas sabem que o que está em jogo não é o rigor científico (de que não dispõem) mas a sua visão filosófica da Vida e do Mundo. É o materialismo filosófico, também chamado de naturalismo, o que defendem os Neo-darwinistas. É a presunção de que o universo não é nada mais do que átomos e moléculas em movimento, e onde tudo passa a ser eticamente aceitável.

(Texto escrito aquando da cooptação do Papa Bento XVI - 2005)

10 Comentários »

  1. [...] fui buscar ao baú coisas escritas já há alguns anos noutro blogue, que transcrevo na íntegra. O primeiro texto foi escrito em 2005, aquando da cooptação de Bento XVI. O segundo texto foi em escrito em 19 de [...]

    Pingback por The Dawkins’ God Delusion (1) « per-espectivas — Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007 @ 10:54 am

  2. Ok… Esse motor flagelar existe e é reproduzido, é montado um sem número de vezes. Como é que é isso feito? Montado todo de uma vez? Porque processo? Passa logo a funcionar com 30 partes ou durante o processo de montagem permanece inactivo com 10, 15 ou 20 partes? Talvez o processo de montagem, que agora, completo, é bem sucedido e perpetuado, tenha permanecido nos estádios de 10,15,20 peças durante centenas de milhões de anos. Num caldo oceânico primitivo terá existido a oportunidade de triliões e triliões de combinações e montagens ocorrerem durante 1 bilião de anos… o acaso de 30 peças se unirem de uma forma funcional não parece tão extraordinário se o vermos desta forma. É sabido que a vida permaneceu relativamente simples durante a maior parte da sua existência, que é de cerca de 3 a 4 biliões de anos. Apenas nos ultimos 500 milhões é que as coisas se tornaram mais agitadas, principalmente a partir da explosão do Câmbrico. Durante vários biliões a vida teve oportunidade e o tempo de arrancar do mais básico para as estruturas que possibilitariam formas de vidas mais “complicadas”. O surgimento dos seres pluricelulares e da clorofila certamente tiveram tempo.

    Comentário por Fenéco — Terça-feira, 11 de Dezembro de 2007 @ 1:41 pm

  3. «É o materialismo filosófico, também chamado de naturalismo, o que defendem os Neo-darwinistas. É a presunção de que o universo não é nada mais do que átomos e moléculas em movimento, e onde tudo passa a ser eticamente aceitável.»

    Sempre achei extraordinária a desfaçatez desta falácia repetida ad nauseam quando se quer atacar ateus ou quem não partilhe uma visão religiosa ou espiritual da vida.
    Ou deus(es) ou o caos!
    O que é espantoso é que haja gente inteligente a propagá-la. So pode ser má fé…
    Então não havendo deuses “tudo passa a ser eticamente aceitável”? Tem a certeza desta afirmação?
    Ou está a ter com referência ética a sua pessoa e o comportamento que assumiria caso de repente descobrisse que afinal os ateus têm razão?

    Comentário por jpc — Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007 @ 3:26 am

  4. «É o materialismo filosófico, também chamado de naturalismo, o que defendem os Neo-darwinistas. É a presunção de que o universo não é nada mais do que átomos e moléculas em movimento, e onde tudo passa a ser eticamente aceitável.»

    “Então não havendo deuses “tudo passa a ser eticamente aceitável”? Tem a certeza desta afirmação?”

    1. A ciência não tem ética, e não poderia ser de outro modo. A ciência não pode ter ética, porque a sua missão não é moral. Penso que estamos de acordo aqui. “Ética científica” é um absurdo.
    2. Se a ciência não tem ética, ela tem-se desenvolvido sob o “controlo” da ética. As experiências de Mengele sobre seres humanos, embora sendo ele nazi, não deixaram de ser “ciência” no mais puro sentido. Por isso, os eticistas criticaram Mengele e continuaram a “controlar” os actos científicos, até aos nossos dias. Também estaremos – eventualmente – de acordo aqui.
    3. O materialismo filosófico rejeita tudo que não tenha por base o empirismo científico – embora saibamos nós todos que o determinismo científico acabou com a Física Quântica; adiante…
    Se o materialismo filosófico rejeita tudo que não tenha por base o empirismo científico, qual o combustível moral que propõe para sociedade? Bem, poderá manter a ética herdada do cristianismo, adoptando parcialmente e adaptando-a; mas por quanto tempo?
    Faz-me lembrar o tipo que diz: “sou europeu”; pois, mas falas português…”Sim, mas sou europeu”, tentando esquecer-se de que antes de ser europeu é português. Com os anos, o neto deste indivíduo terá perdido muitas das raízes culturais que o definiam como português.
    De igual modo, os materialistas filosóficos mantém hoje uma estrutura ética herdada e adaptada do cristianismo, não só através do Direito, que tem origens e valores cristãos indiscutíveis, como através da Tradição e dos Costumes. Dentro de 20 ou 30 anos, qual será o combustível moral a imperar? Será ainda baseado em resquícios culturais do cristianismo? Em que se basearão esses valores? Ou será a moral directamente proveniente da ciência desprovida de ética?

    Conclusão: ou os valores do cristianismo, que imperaram na sociedade europeia, se mantêm, ou com o tempo a sociedade adoptará uma visão estritamente empírica da realidade, em que a ética deixará paulatinamente de ter relevância. Isto não é futurologia: é probabilística.

    Comentário por Orlando — Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007 @ 12:27 pm

  5. Mas quem é que está a falar de ciência? Isso deve ser obsessão… Mas claro que não estamos de acordo, há sim, evidentemente, uma ética científica. A questão é que, como em tudo na vida, há quem exerça a ciência de forma ética e há que não o faça, depende. Veja-se o caso de Mengele, por exemplo. São raros, mas a história da ciência tem infelizmente gente assim. Mas a história da religião tem mais…
    Seja como for, a ciência não tem ética?! Mas que afirmação tão curiosa… E a Medicina, tem ética? E o jornalismo? E inúmeras outras actividades humanas que não têm a moral como missão?
    Outra frase estranha: «o determinismo científico acabou com a Física Quântica». Temos de avisar os físicos que trabalham na área da mecânica quântica, é que se calhar eles ainda não sabem disso…
    E que tem o materialismo filosófico a ver com alguma coisa? Adiante…
    Referia-me apenas ao facto de haver muita gente que não tem uma visão religiosa da vida (ateus, agnósticos, etc.) mas assume uma postura ética, fundada em valores humanistas. Gente que não precisa para nada da caução moral da religião para conviver com os outros e o mundo de forma solidária, pacífica e construtiva, etc.. Gente que não precisa que padres ou gurus lhes expliquem o que é bom e o que é mau, o que se deve ou não deve fazer. Mas olhe, se precisa mesmo de instruções para isso, de algo que o encaminhe num sentido mais ético, se precisa mesmo de “combustivel moral” exterior, pode por exemplo adoptar os princípios da secular Declaração Universal dos Direitos Humanos. Não é preciso Deus para nada, basta viver segundo o que lá está escrito e o planeta será um sítio muito mais simpático.
    O resto da sua argumentação é ainda mais confusa. Ainda mais para mim, que nem sou nacionalista e antes de ser português ou europeu, tenho-me essencialmente como cidadão do mundo a quem calhou em sortes nascer neste cantinho à beira do Atlântico. Depois é assim: os netos estão sempre a perder raízes e referências culturais dos avós. Há milhares de anos que é assim e é assim que o mundo gira a avança, como dizia o poeta. Todas as novas gerações deixam para trás algo das antigas (essa é uma das razões para o chamado “conflito de gerações” ;) e é assim que se cumpre a mudança e revitalização dos tecidos sociais.
    E você a insistir nos materialistas filosóficos… Sim, o cristianismo legou valores adoptados pela sociedade em geral, incluíndo os “materialistas filosóficos”, mas essa é apenas uma das fontes da ética pública europeia. Há mais fontes e mesmo alguns valores ditos cristãos não passam de valores universais que podem e devem ser vividos por todos. Alguns valores promovidos como de origem cristã nem o são, veja lá, como é o caso da chamada “regra de ouro” (não faças aos outros… ;) que é muito mais antiga que o cristianismo.
    Dentro de 20 ou 30 anos esperemos que impere o mesmo combustível moral do presente nas sociedades ocidentais: o humanismo secular.

    Mas esta é a parte mais bizarra: «ou os valores do cristianismo, que imperaram na sociedade europeia, se mantêm, ou com o tempo a sociedade adoptará uma visão estritamente empírica da realidade, em que a ética deixará paulatinamente de ter relevância. Isto não é futurologia: é probabilística»
    Então ainda não percebeu que a ética não é património de ninguém, muito menos de nenhuma religião em particular? Ainda não percebeu que não é algo que emane de deus ou de uma teoria religiosa, mas siom do próprio homem na sua tentativa de harmonização social?
    Porque carga de água é que uma “visão estritamente empírica da realidade” implica a irrelevância da ética? Isso significaria, por exemplo, que eu e outros como eu somos gente desprovida de ética? Somos amorais? Isso quer dizer que como eu tenho uma visão empírica do mundo posso correr o risco de desatinar e desatar a fazer o que me der na real gana na rua?

    Comentário por joaopc — Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007 @ 1:35 pm

  6. Meu caro, não se irrite. Bem sei que os meus argumentos irritam porque incomodam, mas não precisa de fazer ataques Ad Hominem para impor o seu ponto de vista.

    Repito: o materialismo filosófico baseia-se no empirismo científico. Vem daqui falar-se na ciência, e não se trata de obsessão.

    Se existe uma ética científica, agradeço que ma expliquem, porque eu não a conheço. O processo científico puro não tem ética ou moral; quem tem ética ou moral são os cientistas, que são seres humanos.

    O jornalismo não é ciência.

    Por alguma razão se instituiu o juramento de Hipócrates – que o governo “secular” de Sócrates quer retirar da deontologia médica portuguesa – nos médicos formados. Porque será?

    As pessoas não se dão conta que os “valores humanistas” tem origem numa civilização ocidental marcada pelo cristianismo. Vivam um tempinho num país de maioria islâmica, como eu vivi, e notarão a diferença.

    Uma coisa é o anti-clericalismo, outra é ateísmo. Eu não confundo as duas coisas. Só confunde quem não sabe ou quem lhe interessa confundir.

    O Exemplo do “neto” foi um instrumento de retórica. Não faz parte da mensagem principal. Não falamos aqui de integração europeia.

    Naturalmente que o JPC não é amoral, nem ninguém é. Primeiro porque foi educado – quer queira, quer não – numa sociedade de raiz cultural cristã. Em segundo lugar, porque toda gente tem uma moral; Hitler também teve a sua.

    A Ética nasce da filosofia, e para a filosofia Deus é uma hipótese de Unidade. A filosofia e a religião sempre estiveram ligadas. Ou nos convencemos que a religião, a ciência e a filosofia terão que andar de “braços dados”, ou a alternativa é funesta.

    Comentário por Orlando — Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007 @ 5:18 pm

  7. Os seus argumentos incomodam pela sua vacuidade. Agora não tenho tempo, mas volto. Se você quiser, claro, a casa é sua.

    Comentário por joaopc — Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2007 @ 12:42 am

  8. Estou sempre aberto a uma boa discussão, desde que não se insulte ninguém.

    Comentário por Orlando — Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2007 @ 12:26 pm

  9. Joaopc, escreveu: “Porque carga de água é que uma “visão estritamente empírica da realidade” implica a irrelevância da ética? Isso significaria, por exemplo, que eu e outros como eu somos gente desprovida de ética? Somos amorais? Isso quer dizer que como eu tenho uma visão empírica do mundo posso correr o risco de desatinar e desatar a fazer o que me der na real gana na rua?”

    Primeiro, sou céptico em relação a noção deste motor “flagellar” ser prova inequívoca da teoria do Desenho…

    Segundo, das duas uma, ou são estritamente empíricos e desprovidos de ética, ou não são estritamente empíricos como erróneamente se julgam. Eu sou apenas, académicamente falando, um bruto e um simplório, mas já me posso gabar de ter percebido este fatalismo que ameaça cair sobre todos nós, posso é não ser bom a explicá-lo. Vou tentar.

    Se formos estritamente empíricos chegamos à conclusão que somos apenas amálgamas de átomos e que nada temos de superior a outras amálgamas de átomos. Amor, ódio, compaixão, medo, coragem, curiosidade etc… São apenas resultados de processos bioquímicos. Amor não é superior a ódio, é uma reacção de compostos. Não existem reacções “melhores” que outras. Podem ser quantificadas em mais energéticas ou menos energéticas, mais ou menos complexas ou +/- eficientes… Não existe forma empírica absolutamente nenhuma capaz de provar a necessidade de uma imperar sobre a outra, até porque a “necessidade” e a “preferência” são elas próprias processos bioquímicos(causas) que explicam os efeitos(acções).

    Porque “ser humano” é reduzível a aglomerados de moléculas e reacções, pode ser reduzido a equações.

    Talvez isto faça confusão, mas é o fatalismo deste raciocínio empírico que nos possibilitou grandes vôos mas que agora ameaça despenhar-se. Como justificar qualquer moral ou ética? Temos dois factores que nos influenciam, o biológico e o cultural. Se a cultura é a de que os dados empíricos têm primazia, então o biológico, os instintos possuem primazia, porque são “duros” e palpáveis e a cultura volátil. O empiricismo puro leva-nos a completar a o círculo e a voltar ao ponto de partida :lol: (sabem o que isso significa?). Leva-nos ao que os nossos antepassados quadrúpedes já sabiam, ou melhor, sentiam? Que os impulsos inatos têm predominância? A diferença é que para eles era dado adquirido, para nós passa a ser (além disso, que sempre esteve conosco) dado instituído pela nossa formação cultural. Ou seja, que lhes DEVE ser dada prioridade!

    Então nesta era pós-moderna, onde descarnamos a ética e a moral por estas não serem respeitantes do empiricismo, voltamos à selva.

    Então a moral e ética precisam ser defendidas, não com base na razão, mas na fé, porque são passos de fé, actos não racionais. Porque foram a própria supressão de certos irracionalismos por parte de consensos de fé, ou se quiserem outra designação, convergência de outros irracionalismos, que os seres humanos puderam desenvolver as suas civilizações.

    É de facto confuso perceber, que neste mundo onde se apela sempre à razão, que nem todos os actos irracionais são “maus” e nem todos os racionais “bons”. Isto só confirma algo que já deveriamos constatar, que a evolução não é necessariamente um processo contínuo de melhoramento, e que uma continuidade da nossa depende da percepção desta realidade, em vez da militância da hegemonia de um “racionalismo” que parece ir partindo tudo o que o ser humano levou milénios a construir em apenas algumas décadas.

    Adeus, Deus.

    Comentário por fenéco — Sexta-feira, 11 de Abril de 2008 @ 11:28 am

  10. @Feneco :

    1. Eu não disse em parte alguma que o Flagellar era uma prova do ID. O que eu disse é que o Flagellar veio provar que o evolucionismo darwinista tem acumulado “missing links”, e o Flagellar é mais um — e dos grandes. Naturalmente que se o darwinismo é inconsistente, o ID pode ajudar a ciência a ser mais consistente, mas é isso exactamente que o ateísmo científico não aceita.

    2. Não concordo absolutamente que a ética — e consequentemente, a moral — não possam ser defendidas numa base racional. Desde logo, Kant (entre muitos outros filósofos) defendeu a ética de uma forma racional, isto é, utilizando a Razão. Quando utilizamos a Razão, somos racionais; não existe dúvida sobre isto. Só deixamos de ser racionais quando não queremos ouvir a razão dos outros, e passamos a ser dogmáticos, como o Novo Ateísmo é hoje, e a Igreja Católica foi e ainda é em muitas áreas. A questão da necessidade do dogmatismo para afirmação massiva de uma fé levar-nos-ia a um post completo.

    3. Quando dizes que “foram a própria supressão de certos irracionalismos por parte de consensos de fé” (… ;) “que os seres humanos puderam desenvolver as suas civilizações”, queres dizer que, através da fé — que dizes ser irracional, mas eu raciocino a fé como sendo uma “fé racional” — o homem primitivo sublimou o instinto animal, o que significa literalmente que através da fé, o homem primitivo fez prevalecer a Razão sobre o instinto. Parece, pois, uma contradição que a “irracionalidade” da fé no homem primitivo levasse à força da Razão sobre o instinto.

    Com a filosofia grega, a religião que era “irracional” passou a ser racionalizada pela visão cosmológica dos pré-socráticos, isto é, a filosofia racionalizou a religião e sustentou-a pela Razão (Teologia). Este suporte racional às religiões acentuou-se com os filósofos socráticos — principalmente Sócrates, Platão e Aristóteles, sendo que a Ética deste último se adicionou às ideias cristãs vindas da Palestina e moldou o cristianismo contemporâneo.

    Portanto, a ideia de que a ética é algo de irracional, ideia essa que está implícita no teu comentário, é exactamente a ideia da utopia radical pós-modernista e é uma ideia que se pretende propagar contra as religiões — mas é uma ideia que a Razão não sustenta. As razões porque a utopia radical o pretende fazer são conhecidas.

    4. Se “a evolução não é necessariamente um processo contínuo de melhoramento”, esta ideia implica que pode existir o retrocesso, e só nesta instância posso concordar com a ideia. Com a evolução, corremos sempre o risco de retroceder, de se voltar às origens. Temos primeiro que definir o significado de “EVOLUÇÃO”, e é aqui que os Homens divergem. A evolução significa mais Técnica disponível? Será legítimo que o ser humano, que é hoje sustentado pela Técnica, se possa considerar mais evoluído, só por esse facto? Será que mais ciência é sinonimo de mais evolução? A Razão diz-nos que não — e a Fé Racional também.

    Comentário por Orlando — Sexta-feira, 11 de Abril de 2008 @ 5:56 pm

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