perspectivas

Quinta-feira, 20 Junho 2013

Precisamos de compromissos, e não de reformas

“Revolucionário ou reformador – o erro é o mesmo. Impotente para dominar e reformar a sua própria atitude para com a vida, que é tudo, ou o próprio ser, que é quase tudo, o homem foge para querer modificar os outros e o mundo externo. Todo o revolucionário, todo o reformador, é um evadido. Combater é não ser capaz de combater-se. Reformar é não ter emenda possível.” – Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

Seria bom que, em vez de ouvirmos os políticos dizer que “precisamos de reformas”, dissessem que “precisamos de compromissos”. A reforma, tal qual entendida pela política, não é compromisso.

Uma reforma é uma acção revolucionária embora faseada e prolongada no tempo. E as revoluções podem ser de esquerda ou de direita – também existem revolucionários de direita, como por exemplo, Hayek.
Karl Marx – ao contrário do que foi, mais tarde, feito pelos bolcheviques – defendeu a ideia segundo a qual a implantação do comunismo poderia demorar séculos e mediante reformas. O que está acontecer hoje na área de educação e ensino é uma reforma de Passos Coelho — que já vem de José Sócrates — no sentido em que a escola é vista como “uma empresa cujo objectivo social é dar lucro”.

O que está a acontecer, hoje, em Portugal na área do ensino e educação é o confronto entre duas estirpes de reformadores: uns que querem transformar o ensino de crianças em uma actividade essencialmente comercial e lucrativa, e outros que querem transformar a escola e as crianças em um instrumento de implantação de um totalitarismo neomarxista. Nos dois casos, a escola é vista como um meio e não como um fim em si mesma.

A reforma é sempre imposta por uma elite de auto-iluminados que quer “modificar os outros” sem se modificar a si mesma, e sem negociação séria com a sociedade civil. A reforma – seja de esquerda ou de direita – não tem respeito pela família, que é a instituição de base da sociedade, e por isso não respeita a pessoa reduzindo-a ao indivíduo.

Vamos eliminar a palavra “reforma” do léxico político, e substituí-la pela palavra “compromisso”. Queremos fazer compromissos, e não reformas.

Quarta-feira, 19 Junho 2013

A redução da realidade à economia

Quando lemos alguns escritos bovinotécnicos (*), dá-nos a sensação de que eles pensam de que o “mercado” surgiu com Adam Smith; ou seja, antes deste não existia mercado. O mercado terá sido alegadamente uma invenção do liberalismo. E, portanto, toda a realidade é reduzida ao fantástico mercado (que não existia entre os selvagens anteriores ao surgimento espontâneo do mercado) e à economia.

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Com a quântica, o Iluminismo chegou ao fim (4)

Das descobertas da física quântica decorrem algumas consequências para a teoria do conhecimento, o mesmo quer dizer, para a forma como vemos o mundo.

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Com a quântica, o Iluminismo chegou ao fim (3)

Sócrates: Ainda bem que o encontro, amigo Kant!, pois acabam de me dizer que você foi o precursor do Positivismo de Augusto Comte e do neopositivimo do Círculo de Viena. O que é que você tem a dizer acerca disso?

Kant: Sobre a identificação de Comte comigo não estou nada de acordo, porque ele defendeu ideias opostas às minhas: sempre fui contra o dogmatismo religioso e contra o fideísmo ideológico (Ler “A Paz Perpétua”), e defendi a ideia segundo a qual os limites do conhecimento e da ciência que são incompatíveis com o cientismo do Positivismo.

Já no que diz respeito ao neopositivimo, é um pouco diferente. O neopositivimo, tal como eu, defendeu que aquilo que não é do domínio da ciência é ilusão ou produto da imaginação. Mas, em contraponto, eu sublinhei a importância da subjectividade no processo de conhecimento, ao passo que o neopositivimo baniu completamente a subjectividade da teoria do conhecimento. Portanto, não considero que quem lhe disse isso tenha totalmente razão.

Sócrates: Mas você delimitou a possibilidade do conhecimento humano numa época em que o espaço e o tempo eram considerados absolutos, ao passo que hoje, através das inferências retiradas de observações, sabemos que o espaço e o tempo tiveram um princípio com o Big Bang…

Kant: De qualquer forma, mesmo segundo os conceitos actuais de espaço e tempo, a possibilidade de conhecimento humano mantém-se limitada negativamente, em função da própria finitude do universo e, por isso, da finitude do espaço e do tempo. Se eu tivesse vivido hoje, seria ainda mais fácil defender a tese do limite negativo da possibilidade do conhecimento, porque se o próprio universo tem um limite existencial, é razoável que o ser humano esteja limitado pelos limites do próprio universo. O limite da finitude do universo é a condição da possibilidade do conhecimento finito do ser humano.

Sócrates: mas a ciência também descobriu os quanta, seja através do formalismo matemático, seja mediante experiências em laboratório. Qual é a sua opinião acerca da quântica?

Kant: Pois é: os quanta vieram baralhar a minha teoria toda, embora eu já tivesse defendido, na minha crítica da razão pura, o princípio objectivamente válido segundo o qual toda a quantidade é composta por partes e, por isso, a matemática é assim justificada como pertencendo ao domínio da experiência.

O meu erro foi considerar que o conhecimento diz respeito apenas e só a uma realidade objectiva e material. As leis da natureza que formulamos hoje, através da quântica, em relação às partículas elementares já não tratam das partículas elementares em si mesmas, mas antes do nosso conhecimento acerca das partículas elementares. Portanto, a ideia da realidade objectiva das partículas elementares desapareceu de uma maneira estranha…

Paradoxalmente, parece que Leibniz tinha alguma razão com o seu conceito de “mónada”, ou que voltamos ao tempo de Demócrito, só que desta vez essas teorias são sustentadas pelo formalismo matemático e por experiências laboratoriais que confirmam o desaparecimento da realidade objectiva das partículas elementares… confesso que estou confuso.

Sócrates: Você nunca foi “grande espingarda” em metafísica, e os quanta já entram pela metafísica adentro. Salvou-se, na sua teoria, uma lógica esplêndida, uma psicologia notável e uma ética razoável. Portanto, penso que o seu tempo de vida não foi perdido. Até depois, Kant!

Kant: Adeus, Sócrates!

Terça-feira, 18 Junho 2013

O dualismo céptico e radical de Kant

Se perguntarem a um céptico radical que se encontre em Lisboa, se às 11 da manhã de hoje haverá transeuntes na Avenida da Liberdade no Porto, a provável resposta será esta: “Não sei. Pode haver transeuntes ou não. A única forma de ter a certeza é ir ao local, àquela hora, verificar se há ou não”.

Um realista (de Realismo como corrente filosófica) em Lisboa dirá o seguinte: “Ao longo de séculos sempre houve transeuntes na Avenida da Liberdade do Porto às 11 horas da manhã. Por isso, baseando-nos na nossa experiência multissecular, podemos dizer que não só é provável mas até verdadeiro que existam transeuntes a essa hora e nessa avenida”.

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Segunda-feira, 17 Junho 2013

Nem sábios, nem Esquerda, nem esta Direita

«Um sábio, que não seja bacharel, recebe esse grau de uma universidade, e os de licenciado e doutor, para poder entrar nessa universidade, que é hábil e competente para o fazer, por ter capacidade de saber, e por ser devido apenas a circunstâncias especiais que o sábio não possuía nenhum diploma científico oficial. Mas, sem dúvida, pareceria muito paradoxal, e até muito ridículo, que um grupo de indivíduos sem diplomas universitários conferissem a alguém, por exemplo, o grau de doutor em matemática. A competência por colação dos incompetentes não tem certamente senso comum.»A competência por colação

Um grau de uma universidade não produz necessariamente mais competência. Por isso é que Marinho Pinto (e muito bem!) exige um exame da Ordem dos Advogados para os novos licenciados em Direito. Um grau de uma universidade pode conceder a alguém um estatuto social que possibilite exactamente essa competência por colação de que nos fala a citação supra, por um lado, e por outro lado, o grau de uma universidade pode produzir alvarás de inteligência. Acontece que a concessão de um alvará de inteligência a um cidadão, por uma universidade, não tem senso-comum, porque a inteligência não é coisa que se compre, se venda, ou que se concessione à exploração comercial por alguns anos.

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Com a quântica, o Iluminismo chegou ao fim (2)

Em aditamento ao verbete anterior sobre este mesmo tema , constatamos que Kant reduziu a metafísica à axiomática, quando definiu a metafísica como “nada mais que uma filosofia sobre os primeiros fundamentos do nosso conhecimento” . Esta definição negava a metafísica medieval ou escolástica que possuía um cariz místico e/ou religioso, e, na maior parte dos casos, na Idade Média a metafísica apontava para uma realidade transcendente (não confundir com o conceito de “transcendental” de Kant, que era, de facto, imanente) à condição humana.

O prémio Nobel da Física, Wolfgang Pauli (*), volta ao misticismo da metafísica da Idade Média:

«O leigo pensa habitualmente que, quando diz “realidade”, fala de algo que é conhecido de forma evidente, enquanto a mim me parece que a tarefa mais importante e mais difícil do nosso tempo consiste em trabalhar na elaboração de uma nova concepção da realidade. É isto que tenho em mente quando sublinho sempre que a ciência e a religião têm de ter alguma coisa a ver uma com a outra.»

O prémio Nobel da Física, Erwin Schrödinger, parecia falar como o monge medieval Mestre Eckhart:

«O mundo observado é apenas uma aparência; na realidade, nem sequer existe. A filosofia dos Vedas tentou ilustrar este seu dogma fundamental através de várias metáforas.»

O físico alemão Hans-Peter Dürr, felizmente ainda vivo, justifica a relação estreita entre a metafísica e a religião:

«A Física e a transcendência designam apenas domínios diferentes da mesma realidade, que vão da camada mais baixa, onde ainda nos é possível objectivar completamente, até uma camada superior, na qual a visão se abre para as partes do mundo sobre as quais só se pode falar em metáforas.»

Poderia passar aqui muito mais tempo a citar físicos do século XX, como por exemplo Louis deBroglie, Max Born, Eddington, David Bohm, Fritjof Capra, Max Planck, Albert Einstein, e muitos outros, que se expressaram de uma forma tal que colocam em causa o conceito kantiano de metafísica. Werner Heisenberg afirmou o seguinte:

«A teoria quântica é um exemplo maravilhoso de que podemos ter entendido os factos com toda a clareza e, apesar disso, ao mesmo tempo, sabemos que só podemos falar sobre eles através de imagens e metáforas. Sabemos que, na religião, se trata necessariamente de uma linguagem em imagens e metáforas que podem representar precisamente aquilo que se pretende dizer. E, neste ponto, o meu conceito de verdade tem ligação com aquilo que as religiões pretendem dizer. Penso que é possível pensar muito melhor todos estes nexos desde que se entendeu a teoria quântica.»

Estamos já muito longe da noção kantiana de metafísica como “nada mais que uma filosofia sobre os primeiros fundamentos do nosso conhecimento”. Segundo estes cientistas actuais e actualizados, ciência e religião entroncam na metafísica. E, no entanto, o mundo ainda não compreendeu a importância desta nova descoberta em relação à realidade: continuamos a ter uma classe política que vive ainda no tempo do Iluminismo, uma comunidade científica que recusa reconhecer publicamente o óbvio muitas vezes por receio da política, um Direito Positivo que continua a negar a importância da lei natural na feitura das leis, partidos políticos que fazem do Positivismo o alicerce da sua ideologia, intelectuais que falam de tudo menos desta nova realidade como o diabo foge da cruz, em suma, andam as elites todas com as respectivas cabeças enfiadas na areia como avestruzes.

(segue um verbete sobre as implicações da quântica na nossa forma de pensar)

(*) citado em “Die andere Hälfte der Waherheit”, Jürgen Audretsch, Munique, 1992.

Com a quântica, o Iluminismo chegou ao fim (1)

«Toda a possibilidade cai não só quando há uma contradição intrínseca, que é o aspecto lógico da impossibilidade, mas também quando não há um material, um dado que se possa pensar.

Que exista uma possibilidade e, contudo, não haja nada real, é contraditório, dado que se não existe nada, não é dado nada que seja pensável, e existe contradição se todavia se pretende que qualquer coisa é possível.» – Emanuel Kant, in “Único Argumento Possível para a Existência de Deus” (1763)

O que é que Kant diz aqui?

Em primeiro lugar, a possibilidade de uma coisa – ou a possibilidade da existência de uma coisa – deixa de fazer sentido quando existe uma contradição intrínseca – segundo o princípio de contradição e o princípio de identidade – que anula essa possibilidade. Por exemplo, uma coisa não pode ser, e não ser, simultaneamente; ou, X não pode ser igual a X e simultaneamente diferente de X. A contradição, segundo Kant, anula a possibilidade.

Em segundo lugar, Kant diz que quando não há um material – ou seja, matéria, ou um dado deduzido da existência material – então não existe nada que seja pensável; e, por isso, o que não é pensável então não é possível. Para Kant, o real, neste contexto, é um dado que se possa pensar: e o pensamento geral do Iluminismo considerava que só se poderia pensar a matéria e os “conceitos sensíveis”. Hegel foi mais ou menos da mesma opinião de Kant (e dos outros iluministas), quando afirmou que “o real é racional, e o racional é real” : nada mais errado, se reduzirmos o “racional” ao princípio da não-contradição aplicada ao mundo do raciocínio humano.

A física quântica destruiu, sem dó nem piedade, o Iluminismo. O Iluminismo – e todo o seu legado cultural até aos nossos dias – está totalmente roto, mas muita gente ainda não se deu conta disso (incluindo a maçonaria).

Ao contrário do que Kant afirmou, a nível quântico, é a contradição intrínseca que permite a possibilidade, ou melhor, é um facto que a contradição intrínseca não só não anula a possibilidade, como é a condição da própria possibilidadenão se trata aqui da contradição extrínseca, ou entre duas entidades (por exemplo, a contradição entre tese e antítese, à moda hegeliana) mas da contradição intrínseca a uma mesma e só entidade.

A nível quântico, a complementaridade do “vector de estado” (ou “função de onda”) é, em si mesma contraditória, porque as partículas elementares aparecem alternada ou simultaneamente (estado misto) em dois estados distintos: ou são partículas/corpúsculos, e portanto têm massa e são propriamente matéria, e/ou aparecem em modo de ondas que não têm massa, e por isso não podem ser consideradas matéria.

E é da própria natureza contraditória da função de onda quântica (ou vector de estado) que surge a possibilidade, não só da ocorrência de eventos, mas também a possibilidade da própria existência da Forma das coisas que, através da força entrópica da gravidade, permitem, por assim dizer, à “matéria organizada”.

A quântica demonstrou que o real não é só o material, porque se assim fosse a onda quântica não seria real. Acontece que a onda quântica, embora não tendo massa, é tão real quanto a partícula que tem massa. Portanto, uma coisa não deixa de ser real por não ser matéria propriamente dita.

Kant – à semelhança de quase todos os iluministas, com poucas excepções como por exemplo Leibniz ou Lambert – reduziu a realidade ao empirismo da condição humana, ou seja, mutilou a visão humana acerca da realidade, fazendo com que os princípios da lógica que regem a vida quotidiana do ser humano – que é apenas uma parte da realidade – se aplicassem à realidade inteira. Seria como se alguém pusesse uns antolhos em cada ser humano, como se faz com os burros.

Naturalmente que segundo a concepção kantiana do mundo, Deus não tem um lugar objectivo (sublinho, para evitar protestos: objectivo). Mas, segundo essa mesma mundividência iluminista, a onda quântica também não tem um lugar objectivo na realidade. E a contradição lógica (porque a onda quântica é uma coisa, e simultaneamente não é essa mesma coisa) intrínseca da função de onda quântica é para Kant, e para o Iluminismo em geral, uma impossibilidade objectiva.

A conclusão que retiramos da autêntica destruição substantiva do Iluminismo pela quântica é a de que não devemos limitar ou reduzir o conceito de realidade a uma noção de realidade. E por isso não podemos afirmar peremptoriamente – como afirmam os positivistas, por exemplo – que um conceito não pode ser absoluto. A possibilidade de um conceito poder ser absoluto está sempre em aberto, desde que não usemos antolhos.

(este verbete segue noutro)

Sexta-feira, 14 Junho 2013

Tocqueville, a democracia e o individualismo

«Sabedores os trezentos, ou quem os dirige, que a civilização europeia, pelos seus fundamentos gregos, é radicalmente individualista; que a civilização moderna é, de per si individualista também, pois que avançou para além da fase corporativista que é característica do início de todas as civilizações e do seu estado semi-bárbaro, viram bem que, convertendo em anti-individualista e corporativista o novo monarquismo, conseguiam um triplo resultado, de três modos servidor dos seus fins: nulificar a acção futura profunda desse monarquismo desadaptando-o do individualismo fundamental da nossa civilização; pô-lo em conflito com o individualismo moderno, nascido do progresso das nações e da multiplicação de entre-relações e culturas; atirar com ele contra os princípios helénicos e clássicos.»

- Fernando Pessoa, o grupo dos 300 e a sua influência cultural na Europa

Quem ler atentamente este blogue verificará nele uma forte influência ideológica de Tocqueville. Eu sou um “tocquevilliano”, entre outras razões porque Tocqueville é hoje muito actual face ao “despotismo democrático” em que vivemos.

Um outro elemento que contraria o “despotismo democrático”, para além das associações, é o Rei. O Rei e as associações de cidadãos livres podem, até certo ponto, sarar as feridas da liberdade, abertas pela erradicação democrática da aristocracia.

O texto de Fernando Pessoa supracitado reflecte o problema central da política, que é a relação entre o indivíduo e a sociedade. Em algumas religiões políticas prevalece o interesse do indivíduo sobre a sociedade e noutras a sociedade sobre o indivíduo. E depois, há nuances entre estes dois extremos, mais ou menos legítimas, mais ou menos falaciosas.

Alguns liberais contemporâneos dizem que Tocqueville era liberal. Nada mais errado. Tocqueville dizia de si mesmo que era “um liberal de uma nova espécie”, e era “demasiado nobre no coração e demasiadamente democrata na razão para poder ser burguês” (1). Ora, um liberal só pode ser burguês, individualista por natureza e essência, que Tocqueville criticou. A crítica de Tocqueville à democracia, ou melhor, a sua crítica à “apatia democrática” e à “patologia da democracia” (para usar expressões de Tocqueville) é dupla: por um lado, é uma crítica à república tal qual existe hoje, por exemplo, em Portugal: uma república que aprisiona a sociedade civil por intermédio do Estado. E, por outro lado, é uma crítica da apatia individualista característica do burguês liberal, e do abandono das virtudes públicas. Por outras palavras, se Tocqueville fosse vivo criticaria as actuais esquerda (estatista) e direita (burguesa e individualista) portuguesas.

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Alexis de Tocqueville

Portugal é hoje um país onde “já não se escreve tragédia e poesia” (seguem-se, entre aspas e/ou em itálico, citações de Tocqueville), onde as pessoas já não se preocupam nem com a metafísica e com a filosofia em geral, nem com a teologia, que transformam a arte em puros actos de subjectivismo egoísta e narcísico, em que a língua empobrece através de um Acordo Ortográfico imposto pelo Brasil a fim de se colocar a língua ao serviço da indústria e do comércio, em que o espírito do cidadão já não se preocupa senão com o utilitarismo e com o finito. Esta sociedade portuguesa encontra-se à beira de se aniquilar em uma “imobilidade chinesa” e perder a “coragem moral” e “o orgulho ligado à independência”.

A partir do momento em que a modernidade (neste caso, a portuguesa) perseguiu a nobreza aristocrática que fundou Portugal, “fez-se à liberdade uma ferida que nunca sarará”. A sociedade regride quando “a ambição de enriquecer a todo o custo, o gosto pelos negócios, o amor do ganho, a busca do bem-estar e dos gozos materiais” se tornam em paixões dominantes que degradam a nação inteira. O diagnóstico de Tocqueville está hoje à vista de quem quiser ver, com a degradação ética, moral e cultural das nações ocidentais.

Perante a dicotomia do estatismo republicano, por um lado, e da apatia democrática protagonizada por uma burguesia acéfala que implanta na sociedade uma anomia patológica, por outro lado, Tocqueville propõe a introdução e valoração, no sistema democrático, de uma espécie de componente não-democrática: a associação da sociedade civil. A associação proposta por Tocqueville não é uma corporação à moda do corporativismo medieval ou do corporativismo fascista: antes, é uma nova componente anti-sistema democrático burguês e/ou estatista. As associações naturais são, em si mesmas, um princípio não-democrático.

“Creio firmemente que não será possível fundar novamente, no mundo, uma aristocracia; mas penso que os simples cidadãos, associando-se, podem constituir-se como seres muito opulentos, muito influentes, muito fortes, numa palavra, pessoas aristocráticas” — (Da Democracia na América, volume II).

As associações, segundo Tocqueville, são elementos aristocráticos, e por isso, não-democráticos, que escapam ao controlo do Estado democrático e da acefalia burguesa. A nova aristocracia, da modernidade, são as associações de cidadãos livres, em grande parte independentes do Poder do Estado e do Poder da plutocracia. As associações criam vínculos entre os homens que impedem a absorção da sociedade pelo Estado e a instalação do “despotismo democrático”. As associações propiciam a aparição daquilo a que Tocqueville chama de “liberdade superior” que era característica da aristocracia anterior às revoluções burguesas – uma liberdade para fazer grandes coisas e que repudie qualquer tipo de servidão.

Um outro elemento que contraria o “despotismo democrático”, para além das associações, é o Rei. O Rei e as associações de cidadãos livres podem, até certo ponto, sarar as feridas da liberdade, abertas pela erradicação democrática da aristocracia.

(1) “Tocqueville et les deux démocraties”, Lamberti, 1983

Quarta-feira, 5 Junho 2013

A minha opinião sobre os OVNI’s

Filed under: filosofia,Ut Edita — O. Braga @ 6:59 pm
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OVNI avistado em vulcão mexicano (ler notícia, no SOL)

Sobre o fenómeno OVNI, há que distinguir aquilo que pertence (ou tem origem directa) ao universo, por um lado, e aquilo que transcende o universo, por outro lado. Entende-se por “universo” o conjunto de tudo aquilo que existe no espaço e no tempo mediante a força quântica e a força entrópica da gravidade.

A concepção de “transcendência” em relação ao universo não é só religiosa e/ou cristã: por exemplo, a “teoria de cordas” também concebe uma transcendência em relação ao universo através da ideia de Multiverso ou de “universos paralelos”.

A teoria de cordas tem o mesmo problema que a teoria da panspermia tem em relação ao surgimento da vida na Terra: apenas “atira” o problema do nexo causal para um nexo sem causa. O que me parece é que os cálculos matemáticos que fundamentam a teoria de cordas estão razoavelmente certos: o que não está correcta é a interpretação que a comunidade científica faz desses cálculos matemáticos. Em vez de interpretar o formalismo matemático de modo a subentender a transcendência propriamente dita, a comunidade científica recusa-a por motivos ideológicos e históricos, e prefere interpretar os dados matemáticos inventando o conceito de “universos paralelos”.

Convém que se façam algumas perguntas:

  • É razoável que se pense que em um universo com 13,7 mil milhões de anos-luz de idade, em que a idade da Terra é de cerca de 4 mil milhões de anos (portanto, muito mais jovem do que o Big Bang), só possa existir vida na Terra?

  • Se a resposta à pergunta supracitada for negativa, será razoável que se pense que só no planeta Terra existe vida inteligente?

Eu diria que seria credível dizer que a existência de vida no universo, para além da Terra, é quase uma certeza. Não é apenas uma probabilidade: roça mesmo a certeza. E diria que é verosímil que se afirme que existe vida inteligente fora do nosso planeta – uma vez que outras galáxias se formaram muito antes da Via Láctea.

Porém, há a tendência para considerar todos os fenómenos OVNI como sendo de origem extra-terrestre, no sentido de “fenómenos indígenas do universo” (“universo” entendido no sentido da definição em epígrafe). É possível que alguns desses fenómenos sejam de origem ET, mas outros não: estoutros podem perfeitamente ter origem na transcendência ao próprio universo; e é, este último, em minha opinião, o caso do vídeo publicado no SOL.

No universo macroscópico (em contraponto ao universo quântico), existem alguns limites físicos que não podem ser ultrapassados. Por exemplo, quando um conjunto de átomos “viaja” no universo a velocidades muito superiores à velocidade da luz – quando os átomos ou partículas elementares longevas “viajam” fora do cone de luz -, todas essas partículas violam as leis da força entrópica da gravidade e, por isso, perdem a composição formal original da matéria macroscópica que existia antes da viagem. Ou seja, a desmaterialização, e materialização posterior, de um corpo físico humano ou com vida, é um mito da ficção científica.

A única teoria aceitável, porque possível – se bem que não seja verosímil -, que permite explicar as viagens inter-galácticas em um curto espaço de tempo universal, é a teoria dos chamados “túneis de minhoca” que são produzidos, alegadamente, pela própria curvatura do espaço-tempo. Da mesma forma que um surfista apanha boleia de uma onda do mar, assim um viajante inter-galáctico apanharia boleia da curvatura do espaço-tempo que forma “túneis” que ligam todo o universo.

Em resumo:

  • É provável, e mesmo quase certo, que exista vida fora da Terra.
  • É verosímil que exista vida inteligente fora da Terra.
  • É falso que se diga que todos os fenómenos OVNI são de origem ET.

Terça-feira, 4 Junho 2013

A ideologia de género, a celebração da patologia e a nova tirania

1/ O Direito não serve apenas para corrigir a lei do mais forte; serve também para impedir a lei do mais fraco. Como escreveu Rousseau, “se bastasse ser o mais forte para ter sempre privilégios, não se faria apelo ao direito”. E por analogia, se bastasse ser o “mais fraco” para ter sempre privilégios, então não faria sentido o apelo ao Direito.

2/ Quando o Direito passa a incorporar e a valorizar em si mesmo as subjectividades dos cidadãos, para além de adequar sistematicamente a norma legal ao facto, deixa de existir diferença entre norma moral e norma legal – porque a norma moral depende da consciência de cada um, ao passo que a norma legal é, por sua própria natureza, repressiva (o Direito Positivo é necessariamente repressivo).

Assim, através da incorporação das subjectividades particulares e individuais no Direito, este passa a substituir a moral; e como o Direito é repressivo, instala-se uma moral repressiva na sociedade. E quando existe uma moral repressiva numa sociedade, estamos perante uma tirania, e senão mesmo em um processo de construção de um novo totalitarismo.

O Direito Positivo começou por separar a natureza, por um lado, da norma jurídica, por outro lado; depois passou a separar a moral, da lei; e agora transforma a lei em norma moral, ao mesmo tempo que repudia a lei natural.

3/ a criação de categorias sociais desligadas daquilo que existe – de facto! – na Natureza em termos de determinismo, e baseadas na pura subjectividade individual, em vez de ser uma forma de inclusão social, é antes um meio de exclusão social – porque a inclusão social é um fenómeno essencialmente antropológico e ético, e não legal ou jurídico.

“People who do not identify as male or female have achieved formal legal recognition in Australia for the first time, after the NSW Court of Appeal overturned a ruling that everyone must be listed as a man or a woman with the Registry of Births Deaths and Marriages.


In a landmark decision with major implications for thousands of intersex, androgynous and neuter people across the country, the court on Friday upheld an appeal by Sydney activist ‘Norrie’ against a decision by the Administrative Decisions Tribunal that people must be officially registered as ‘M’ or ‘F’.”

Legal recognition for those who don’t identify as either ‘M’ or ‘F’

Na Austrália, passaram a existir, na lei, “pessoas sem sexo”, alegadamente porque essas pessoas sentem subjectivamente que não pertencem a nenhum sexo.

Segunda-feira, 3 Junho 2013

O progresso e o mundo melhor

O conceito de “progresso” só faz algum sentido quando aquilo que de positivo (em termos éticos, culturais e/ou históricos) existiu no passado não se perdeu com o processo de devir. O progresso só pode ser acumulação de experiências positivas; e a esta acumulação de experiências positivas chamamos de “civilização”. Tudo o resto é mudança; e a mudança, entendida em si mesma, não é necessariamente “progresso”.

A existir um “mundo melhor” – se é que é possível – tem que ser um “mundo civilizado”. Não há “mundo melhor” sem a valorização positiva do passado – porque, como vimos, um “mundo melhor” não é apenas um “mundo em devir”: é essencialmente a justaposição cultural das experiências positivas do passado e do presente. A diabolização do passado histórico, ético e cultural é anti-progresso.

E é por isso que o “mundo melhor” é incompatível com o “progressismo” actual: defender o “progresso” e ser “progressista” é, hoje, uma contradição em termos.

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