perspectivas

Domingo, 12 Maio 2013

É ideologia, estúpido!

Filed under: A vida custa,Esta gente vota,religiões políticas — O. Braga @ 3:33 pm

Uma ideologia é uma doutrina filosófica de tal modo simplificada nos seus conceitos que possa ser entendível por um qualquer idiota.

A definição de ideologia exigiria, por isso, que as nossas crianças começassem muito cedo a aprender a lógica e a história da ética, para além da matemática e do português. A lógica é importante para ensinarmos as nossas crianças a pensar, e a história da ética é essencial para que os futuros adultos saibam lidar racionalmente com as ideologias.

É óbvio que às actuais elites, que detêm o poder político, não interessa que os adultos saibam muitas coisas senão o estritamente necessário para desempenhar uma profissão; mas isso não significa que quem detém o poder tenha razão. O ensino é hoje um processo de lobotomia ideológica, em que até a verdade científica (as verificações da ciência) é escondida ou deturpada da formação das crianças. Em nome da ideologia, as verificações científicas e o realismo do senso-comum são hoje reprimidas e proibidas no ensino.

Uma ideologia distorce a realidade: pega em determinados factos e, de uma forma irracional, transforma esses factos em não-factos, como se esses factos não existissem. E por outro lado, acentua a importância de outros factos que interessam a essa mundividência ideológica. A ideologia é um instrumento de psicose colectiva. Formatado pela ideologia, o indivíduo vê a realidade como que reflectida por um espelho convexo ou côncavo.

Dizia S. Tomás de Aquino que “a verdade é a adequação do intelecto à realidade”. Ora, a missão primeira das ideologias é a de que o intelecto não se adeqúe à realidade. E para conseguir esse objectivo, as elites formatam o ensino de tal forma que os futuros adultos possam estar totalmente vulneráveis à acção nefasta das ideologias. Precisamos de uma revolução no ensino, nem que tenhamos que “exportar” a elite inteira.

“Havia uma tribo no Amazonas que gostava das crianças com a cabeça cúbica e, quando elas eram pequenas, punham-lhes umas talas na cabeça para obrigá-las a crescerem cúbicas.

Afinal de contas, é o que sucede a todos nós, pois no fundo, a nossa cabeça é cúbica, visto as circunstâncias externas obrigarem a isso. Mas quando a sociedade não nos colocar as suas talas, para nos impedir o crescimento normal, será possível que cheguemos ao mais pleno de nós próprios.” — Agostinho da Silva, “Conversas com Agostinho da Silva”, Victor Mendanha, 1998, página 108

Sexta-feira, 10 Maio 2013

A racionalidade da História e da Vida

José Pacheco Pereira faz aqui uma confusão entre racionalidade (da História) e racionalismo (da História).

“Eu não tenho a certeza que a história não seja fundamentalmente irracional, até por outras razões. Basta que se abandone qualquer transcendência (*), qualquer destino manifesto, qualquer variante hegeliana da História com H grande, seja marxista, seja cristã (como em Teilhard de Chardin) . Tira-se a teleologia e ficam os humanos com o ónus de fazerem a história, ficando os humanos, é o que se vê.”

Reconhecer uma racionalidade na História é equivalente (isto é uma analogia!, e não uma comparação) a reconhecer a presença de um designer na feitura da célula que é a base da vida. O que se passa é que o facto de se reconhecer a presença de um designer na criação da vida (na célula) não significa, para a ciência, que se tenha que identificar esse designer. Existe uma racionalidade de um designer na construção da célula, e ponto final — porque é impossível, para a ciência, determinar quem é esse designer.

Saber quem é o designer da vida não faz parte dos atributos da ciência, embora esta reconheça o facto insofismável segundo o qual é matematicamente impossível, por exemplo, que vinte blocos de aminoácidos se juntem, na natureza e de forma espontânea, para formar uma simples proteína — e pior ainda se tivermos em consideração a formação de um sistema irredutivelmente complexo, como é por exemplo, o cílio da célula eucariótica, ou o flagelo bacterial, ou o sistema de coagulação do sangue, ou o olho dos vertebrados, etc., etc..

Da mesma forma que a ciência actual e actualizada diz que a vida teve, na sua origem, a influência racional de um designer inteligente, mas não se imiscui na especulação racionalista que consista em identificar esse designer, podemos dizer também que a História tem uma base racional mas não devemos especular e/ou racionalizar sobre o fundamento dessa base racional — porque é impossível determinar as características dessa racionalidade histórica. E aquilo que o marxismo e outras doutrinas fizeram, em relação à História, foi racionalizar, e não raciocinar.

A base racional da História, por um lado, e a identificação do designer da célula, por outro lado, pertencem à teologia, e não à filosofia e/ou à ciência respectivamente. Enquanto não aprendermos a separar estas áreas e atribuindo a todas elas uma dignidade intrínseca própria, caímos nas religiões políticas que caracterizam a mentalidade actual: vemos hoje o cientismo que é a manipulação da ciência pelas ideologias políticas; vemos o Historicismo — que é uma forma de milenarismo — que consiste na redução de toda realidade à imanência mediante um racionalismo irracional; e vemos a teologia misturada com o presentismo paradigmático da ciência.

(*) À moda hegeliana, José Pacheco Pereira confunde transcendência com imanência. Para Hegel (influenciado pela Cabala e pelas ideias cabalísticas de Jaques Böhme e de Schelling), como para outros hegelianos como por exemplo, Karl Marx ou Heidegger, a imanência é sinónimo de transcendência que foi assim erradicada da mundividência moderna. A modernidade voltou aos gregos, fazendo de conta (irracionalmente, mas em nome do racionalismo) de que 1500 anos de história das ideias posteriores simplesmente não existiu.

Terça-feira, 7 Maio 2013

Os sofismas acerca do casamento e sobre a liberdade

 

Aqui há tempos escrevi um verbete com o título “Afinal, há ateus inteligentes”. Gostaria de sublinhar que se tratou de um título corrosivo, por assim dizer, porque para além de haver vários tipos ou categorias de inteligência e não apenas um tipo, não tenho nenhuma razão objectiva para afirmar que as várias categorias de inteligência dependem da adesão à religião. Ou seja, incorri voluntariamente numa falácia non sequitur.

Hoje, através do Twingly.com, descobri esta referência a esse verbete. Mas antes de mais, convido-vos a ler este discurso do liberal inglês Nick Clegg (PDF), que faz parte do actual governo “conservador” liderado por David Cameron. E vou explicar por que a minha divergência em relação aos liberais (de esquerda ou de direita) é de fundo, ou seja, é fundamental.

Nick Clegg, como todos os liberais de direita, é a favor de um Estado mínimo, por um lado, e por outro lado é a favor da autonomia radical do indivíduo (neste último aspecto coincide com os liberais de esquerda). Por “autonomia radical do indivíduo” entende-se (também) a libertação do indivíduo em relação aos determinismos naturais que são a condição da sua existência.

Porém, a contradição da direita liberal (que não existe na esquerda liberal!) é a de que para se conseguir a autonomia radical do indivíduo, os liberais de direita precisam da intervenção e intrusão do Estado na vida privada do indivíduo. Por exemplo, quando Nick Clegg defende a ideia da criação de infantários gratuitos (pagos pelo Estado) para todas as crianças a partir dos 18 meses de idade, no sentido de “libertar” as mães da chatice de aturar os filhos, por um lado, e por outro lado para permitir que as mães possam trabalhar na fábrica ali ao lado, em vez de ter que aturar a criancinha em casa.

Tudo o que seja pré-determinado pela natureza é detestado pelos liberais (de esquerda e de direita). É nisto que consiste a autonomia radical do indivíduo: a putativa libertação de quaisquer amarras naturais. A diferença é a de que enquanto os liberais de esquerda são coerentes e defendem abertamente que um Estado forte deve intervir para “libertar o indivíduo de si próprio” (como se fosse possível que a libertação do indivíduo de si próprio possa vir do exterior do indivíduo), os liberais de direita defendem uma contradição em termos: um Estado mínimo, por um lado, e a intervenção desse Estado mínimo como garantia da autonomia radical do indivíduo, por outro lado. Aliás, verificamos essa contradição da direita liberal no que respeita à salvação dos Bancos falidos: um liberal de direita que se preze é contra o Estado, mas é a favor que o Estado salve os Bancos privados, socializando as dívidas privadas (bovinotecnia).

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Sexta-feira, 3 Maio 2013

Como uma certa ‘direita’ vê a direita

“Quando o episteme está arruinado, os homens não param de falar sobre a política; mas agora expressam-se em modo de doxa”
— Eric Voegelin, “Nova Ciência da Política”

(Nota: este texto é longo. Quem não gosta, frequente o Twitter ou o FaceBook)

Mesmo que eu não seja budista, e não concorde com a religião budista, sendo de direita defendo a ideia de que os símbolos do Budismo devem estar presentes na praça pública.
Mesmo que eu não seja judeu, e não siga a religião judaica, sendo de direita defendo a ideia de que os símbolos do Judaísmo devem estar presentes na praça pública. E assim por diante.

Este texto, que pretende demarcar as fronteiras entre a direita e a esquerda, em vez de fazer essa distinção baralhou ainda mais as reais diferenças entre esquerda e direita (ou aquilo a que se convencionou chamar esquerda e direita). Pessoas como José Pacheco Pereira, que dizem que o Partido Social Democrata não é de direita nem de esquerda e “antes pelo contrário”, ficam certamente deliciadas com tamanha confusão.

Por exemplo, quando se diz: “O primeiro e mais significativo de todos os critérios diferenciadores é o da forma como esquerda e direita olham para o homem. Enquanto que a direita vê nele o indivíduo, a esquerda tem-no como cidadão.” Perguntem a um qualquer militante consciente do Bloco de Esquerda se não é tanto ou mais defensor da aplicação radical e enviesada do princípio da autonomia do indivíduo , quando comparado com qualquer neoliberal hayekiano mais radical!

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Quinta-feira, 2 Maio 2013

Camaradas do Bloco de Esquerda! Vamos proibir aos homens mijar de pé!

Camaradas!

Nas sociedades progressistas e avançadas, os homens vão ser proibidos de mijar de pé – porque um homem que mija de pé é um misógino e não tem respeito pelas mulheres. Por isso, é nossa obrigação, como progressistas, não só propor uma lei na assembleia da república que proíba os homens de mijar de pé (em casa como em qualquer sítio público), mas também criar um sistema de vigilância que detecte qualquer prevaricador que não mije sentado como as mulheres.

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A recusa do símbolo, da exegese e da hermenêutica

Um judeu, como George Steiner, que viveu o horror do holocausto nazi, e que recusa a existência do Estado de Israel, só tem uma classificação: é um hipócrita. Portanto, é saudável, desde logo, lançar esse estigma objectivo sobre Steiner. Ele tem o direito de ser o que quiser; mas não tem o direito de nos dizer, ou de nos tentar convencer, que é aquilo que não é.

Depois classificado Steiner, vamos a este textículo (aqui, em PDF).

1/ em primeiro lugar, Steiner confunde ou mistura propositadamente o Novo Testamento com o Antigo Testamento.
Por exemplo, os documentos apócrifos e gnósticos descobertos recentemente no Egipto em língua copta antiga sobre a vida do Jesus Cristo histórico, contam uma história parecida com a história oficial dos quatro evangelhos cristãos adoptados oficialmente — ou seja, a essência dos evangelhos apócrifos e gnósticos da Antiguidade Tardia descobertos recentemente, por um lado, e por outro lado a essência dos evangelhos oficiais desde o concílio de Niceia, são idênticas. Ou, simplificando: “a história bate certa”, ou “bate a bota com a perdigota”.

2/ através do seu textículo, Steiner recusa objectivamente o símbolo, embora o Homem seja um homo simbolicus (Cassirer). Ao recusar o símbolo, Steiner nega a hermenêutica. Ao negar a hermenêutica, Steiner entra em contradição consigo mesmo, porque nenhum literato pode pretender que os seus próprios textos sejam levados à letra — há sempre uma exegese a fazer de qualquer texto, mesmo em relação a uma literatura chã e basista como é a de Steiner.

Na mente de Steiner, o símbolo é nada mais do que um sinal. Confunde ele sinal e símbolo — o que é característica do homem moderno desde que o Pragmatismo foi inventado nos Estados Unidos em finais do século XIX. Por isso é que ele diz que “a Bíblia é um material mundano”, porque ele não consegue ver nela senão sinais que, por o serem (na opinião dele), não se referem a nenhum representado e podem, por isso, ser mudados arbitrariamente (à vontade do freguês).

3/ O símbolo tem um conteúdo, em que é simbolizado o representado, enquanto que os sinais são escolhidos arbitrariamente. O símbolo, para além do significado cultural que o sinal também pode ter, tem um significado espiritual (relativo à experiência humana subjectiva que adquire uma experiência intersubjectiva e universal) que o sinal não tem. Um sinal só passa a ser um símbolo quando passa a ter um conteúdo com relação a um representado, o que lhe retira a arbitrariedade previamente existente. Um símbolo nunca se muda, porque isso resultaria também na dissolução do seu significado; em contraponto, um sinal pode ser mudado mantendo-se o seu significado anterior.

4/ uma coisa semelhante se passa com o escriba do Bloco de Esquerda que escreveu o comentário ao textículo de Steiner: ele só concebe a existência de sinais, que são por natureza imanentes e arbitrários (os sinais podem ser mudados sem que mudem as suas representações; por exemplo, um sinal de trânsito). O escriba pretende substituir a putativa arbitrariedade dos sinais (na opinião dele) da Bíblia pela arbitrariedade dos sinais de uma determinada religião política que é a dele. Para ele, a Bíblia traduz ou interpreta uma religião política equivalente a uma outra qualquer, porque, para ele, a Bíblia não contem senão sinais políticos, arbitrários e convencionados.

Sendo que é considerado que na Bíblia não existem símbolos (que devem ser objecto de uma exegese e de uma hermenêutica) mas apenas sinais, estes assumem apenas e só uma dimensão política. E, se não existem símbolos mas apenas sinais, toda a realidade e vida humanas são reduzidas à política, e a nada mais do que à política — o que é realmente assustador.

“When the episteme is ruined, men do not stop talking about politics; but they now must express themselves in the mode of doxa.” — Eric Voegelin

Domingo, 28 Abril 2013

O Dalai-lama diz que é marxista

Marx não era contra a religião ou filosofia religiosa em si, mas contra as instituições religiosas aliadas à classe dirigente europeia”. — ‘Sou marxista’, diz Dalai Lama a estudantes chineses.

O Dalai-lama teria que ler alguns livros de Karl Marx para não dizer asneiras. Normalmente dizemos asneiras mesmo lendo (errar é humano), mas quando a gente não sabe do que fala, então insultamos amiúde a inteligência dos outros.

Karl Marx não era só contra a religião: era também contra a filosofia.

“Feuerbach parte do facto da auto-alienação do homem, do desdobramento do mundo em um mundo religioso e um mundo terreno (1). O seu trabalho (de Feuerbach) consiste em reduzir o mundo religioso ao seu fundamento terreno. Mas o facto de que o fundamento terreno se separe de si próprio para se plasmar como um reino independente que flutua nas nuvens, é algo que só pode explicar-se pelo próprio afastamento e contradição deste fundamento terreno consigo mesmo.

Portanto, é necessário tanto compreendê-lo na sua própria contradição como revolucioná-lo praticamente. Assim, pois, por exemplo, depois de descobrir a família terrena como o segredo da família sagrada, há que destruir teórica e praticamente a primeira.” — Karl Marx, Manuscritos Económicos-Filosóficos, Porto, 1971.

Neste trecho, Karl Marx não só nega qualquer metafísica (o que é, em si mesmo, uma forma de metafísica), como defende abertamente a destruição teórica e prática da família — que é o que está a acontecer actualmente na Europa e nos Estados Unidos.

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Sábado, 13 Abril 2013

John Rawls e o véu da ignorância

Não devemos ter medo das palavras e de chamar os bois pelos nomes. E mesmo que 99,9% das pessoas esteja contra nós, o que nos deve preocupar principalmente é saber se a nossa posição contém o mínimo possível de contradições — porque é impossível que o ser humano esteja isento de contradições. Não significa isso que tenhamos (a) razão, mas antes que estejamos menos errados ou mais consentâneos com a verdade.

Há duas formas diferentes de ver a Justiça Distributiva: ou através da abordagem contratualista e exclusivamente processual do Direito (versão igualitarista do liberalismo, liberalismo clássico ou libertarismo ou utilitarismo), por um lado, e por outro lado mediante a visão dos chamados “comunitaristas” (por exemplo, Charles Taylor, Michael Sandel, Alasdair MacIntyre, Michael Walzer, etc.). Desta vez não vou falar nos comunitaristas.

John Rawls faz parte da corrente ideológica do chamado “liberalismo igualitarista”, que de “liberalismo” tem já muito pouco. John Rawls só é liberal nos costumes (ética), o que tem correspondência em Portugal com a ala mais à esquerda do Partido Socialista, e com o Bloco de Esquerda. Se não podemos, com segurança, dizer que Rawls é marxista no sentido clássico do termo, já podemos dizer que as suas (dele) ideias identificam-se perfeitamente com o marxismo cultural conforme Marcuse.

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Quarta-feira, 10 Abril 2013

Rousseau, a atomização da sociedade e os totalitarismos gnósticos do século XX

O

problema começou antes de Rousseau. O problema começou no seio da própria Igreja Católica com a absurda “querela dos universais”, que meteu os franciscanos ao barulho a favor do conceito absurdo de nominalismo. Antes disso, os franciscanos Fraticelli andaram de candeias às avessas com o poder temporal quando defenderam o Poder absoluto do Papa. Os franciscanos estiveram metidos no pior da Igreja Católica (ainda pior do que os Jesuítas).

A Reforma protestante minou profundamente a autoridade. É irónico que um protestante do século XIX venha queixar-se da ausência de autoridade na cultura coeva, porque a Reforma foi o primeiro grito de revolta contra a autoridade.

Os ideólogos da Razão de Estado de finais do século XVI e século XVII opuseram o poder absoluto do rei ao poder absoluto do Papa defendido pelos franciscanos dois séculos antes. Dos ideólogos da Razão de Estado surgiu Hobbes — o primeiro hipóstata teórico do absolutismo de Estado. Locke, na segunda metade da sua vida filosófica, não esteve muito longe de Rousseau. Rousseau não foi original em nada excepto na criação abstrusa e absurda do conceito de “vontade geral” que não tem qualquer origem na realidade política e sociológica. A “vontade geral” é uma forma de permitir a discricionariedade e o absolutismo, até sob a capa da democracia.

…as ideias têm consequências

A origem simbólica do Bom Selvagem, de Rousseau, está no Génesis bíblico e no conceito de Éden (o paraíso na terra). Por aqui podemos fazer uma ideia da complexidade do problema. O que Rousseau fez foi utilizar um símbolo judaico-cristão e fazer dele uma leitura literal, e tão literal como era aconselhado pela própria Igreja Católica daquele tempo. Rousseau não fez uma exegese a partir dos símbolos de Adão e Eva: limitou-se a transcrever literalmente a noção de paraíso na terra que o próprio Génesis encerra em si.

A diferença é que o Mal — a simbologia da Serpente —, segundo Rousseau, passou a ser a sociedade entendida como comunidade (“O inferno são os outros” — Jean-Paul Sartre), enquanto que o Mal bíblico foi invertido e passou a ser o Bem, que segundo Rosseau, é o conhecimento no sentido prometaico.

Esta inversão da significação de um mesmo símbolo levou a que o Bem passasse oficialmente a ser o conhecimento prometaico que absolutiza o indivíduo (Rousseau seguiu o princípio da autonomia de Kant, mas em vez de dotar o indivíduo de responsabilidade, criou o conceito de “vontade geral” para anular politicamente a própria responsabilidade individual, anulando a componente kantiana do “cidadão-legislador”), por um lado, e por outro lado a comunidade passou a ser o Mal que necessita da liderança “sábia” e firme — através do conceito abstracto de “vontade geral” — de uma elite (gnóstica) que transformasse o voto popular em discricionariedade “sapiente” na acção política.

“Pode dizer-se não que há tantos pareceres como homens, mas tantos como associações. (…) É portanto essencial, se a vontade geral pode exprimir-se, que não haja sociedades parciais dentro do Estado, e cada cidadão pense apenas por si; tal é o sublime e único sistema estabelecido pelo grande Licurgo”. (“Contrato Social” de Rousseau)

Como podemos verificar, Rousseau defende, através do conceito de “vontade geral”, a atomização da sociedade e a instituição dos totalitarismos do século XX. Há quem diga que ele não teve culpa — como há quem diga que Nietzsche não teve culpa do surgimento do nazismo — mas, para mim, isso é treta. As ideias têm consequências.

Quinta-feira, 4 Abril 2013

O triunfo das elites gnósticas na Europa do século XXI

Com a contemporaneidade, e principalmente com o pós-modernismo a partir do princípio da década de 1960, a Europa entrou numa Idade das Trevas que clama por um novo Renascimento.
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Sexta-feira, 29 Março 2013

A doença mental dos progressistas

«Disparidades entre pessoas do mesmo grupo, em qualquer área que seja, não são obviamente uma realidade imutável. Mas uma igualdade geral de resultados raramente já foi testemunhada em qualquer período da história — seja em termos de habilidades laborais ou em termos de taxas de alcoolismo ou em termos de quaisquer outras diferenças — entre aqueles vários grupos que hoje são ajuntados e classificados como “brancos”.

Sendo assim, por que então as diferenças estatísticas entre negros e brancos produzem afirmações tão dogmáticas — e geram tantas acções judiciais e trabalhistas por discriminação — sendo que a própria história mostra que sempre foi comum que diferentes grupos seguissem diferenciados padrões ocupacionais ou de comportamento?

Um dos motivos é que acções judiciais não necessitam de nada mais do que diferenças estatísticas para produzir veredictos, ou acordos fora de tribunais, no valor de vultosas somas monetárias. E o motivo de isso ocorrer é porque várias pessoas aceitam a infundada presunção de que há algo de estranho e sinistro quando diferentes pessoas apresentam diferentes graus de êxito pessoal.

O desejo de intelectuais de criar alguma grande teoria que seja capaz de explicar padrões complexos por meio de algum simples e solitário factor produziu várias ideias que não resistem a nenhum escrutínio, mas que não obstante têm aceitação generalizada — e, algumas vezes, consequências catastróficas — em vários países ao redor do mundo.

A teoria do determinismo genético, que predominou no início do século XX, levou a várias consequências desastrosas, desde a segregação racial até o Holocausto. A teoria actualmente predominante é a de que algum tipo de maldade explica as diferenças nos níveis de realizações entre os vários grupos étnicos e raciais. Se os resultados letais desta teoria hoje em voga gerariam tantas mortes quanto no Holocausto é uma pergunta cuja resposta requereria um detalhado estudo sobre a história de rompantes letais contra determinados grupos odiados por causa de seu sucesso.»

via Mídia Sem Máscara – Intelectuais e raça – o estrago incorrigível.

Vale a pena ler o artigo.

O que mais me surpreende no progressismo é o desconhecimento — intencional ou não — de um facto tão evidente que até fere a nossa vista: as estatísticas científicas são baseadas no passado!. E das duas, uma: ou o ser humano é considerado uma máquina, ou uma espécie de robô cartesiano, e então as estatísticas recolhidas no passado podem determinar e prever totalmente o seu comportamento futuro; ou o ser humano é considerado um ser metafísico e subjectivo, dotado de um sujeito e de uma referência psicológica a priori não passível de previsão determinística a partir de estatísticas.
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Quinta-feira, 28 Março 2013

Sobre a gnose, ou gnosticismo

A gnose (ou gnosticismo) é uma qualquer doutrina metafísica de salvação religiosa por intermédio do conhecimento intelectual, e por isso sem o dom directo da Graça Divina.

“O gnosticismo é um sistema de crenças que nega e rejeita a estrutura da realidade, particularmente a realidade da natureza humana, e substitui-as por um mundo imaginário construído por intelectuais gnósticos e controlado por activistas gnósticos.” — Eric Voegelin, “A Nova Ciência da Política”, 1952


gnosticismoA criação do universo e do mundo, segundo os gnósticos da Antiguidade Tardia, estão infinitamente separados de Deus — que evoluiu para o conceito de “morte de Deus”, segundo Nietzsche, e que traduz essa ideia da “ausência de Deus”. O Deus gnóstico não é responsável pela criação do mundo: antes, é o “Inefável”, o “Abismo”, o “Silêncio”: é Aquele em relação ao qual só é possível aceder por uma elite escassa de iluminados através do conhecimento.

A responsabilidade pela criação do mundo, segundo os gnósticos da Antiguidade Tardia, é obra de um deus mau, uma espécie de diabo que os gnósticos identificam com o Deus da Bíblia (Antigo Testamento), Javé, e/ou com o Deus cristão. Para os gnósticos da Antiguidade Tardia, o Deus cristão é o demiurgo, ou seja, o próprio diabo, responsável pela criação do mundo e que o criou na ânsia de se apoderar da Sofia.
Para a maçonaria, que se fundamenta na Gnose, esse demiurgo — ou diabo gnóstico, ou Deus bíblico — é substituído pelo símbolo intramundano e imanente do Grande Arquitecto do Universo [o tal demiurgo que criou o universo] que se identifica, que se saiba e pelo menos em alguns ritos maçónicos, com a figura de Lúcifer [por exemplo, nos Illuminati].

escape da realidadeE uma vez que o mundo é criação do diabo [ou seja, do Deus bíblico, segundo os gnósticos da Antiguidade Tardia], o Homem deve afastar-se e evadir-se do mundo, e negá-lo. A realidade do mundo deve ser, segundo os gnósticos, sistematicamente negada. O mundo deve ser desprezado porque alegadamente é obra do diabo que, segundo os gnósticos, é o Deus da Bíblia.

A forma como o Homem deve evadir-se do mundo assume dois sentidos diferentes consoante duas diferentes correntes e doutrinas gnósticas : ou através da abstinência total em relação a todas as tentações do mundo percebidas pelos sentidos (puritanismo radical), ou através do deboche total e completo (por exemplo, o baconismo ou o culto de Baco). Através destas duas formas de agir — puritanismo, segundo uns, ou deboche, segundo outros —, a elite de iluminados “reconhece-se” a si mesma e reconquista a sua parcela de divindade. Para os gnósticos, não há um meio-termo entre puritanismo e deboche para conseguir a salvação.

Os gnósticos da Antiguidade Tardia formaram seitas iniciáticas assentes na distinção radical entre os chamados Hílicos (a escória da humanidade, os “profanos” segundo a maçonaria, ou não-convertidos), por um lado, e por outro lado os chamados Pneumáticos (os possuidores do Espírito Santo). Apenas para os Pneumáticos havia a possibilidade hic et nunc de salvação, ao passo que os Hílicos estavam, à partida, destinados à morte espiritual (determinismo da salvação).

Entre as seitas gnósticas podemos enumerar as doutrinas de Marcião (oposição radical do Novo Testamento ao Antigo Testamento) e a de Ario ou arianismo (que defendeu a ideia de Jesus Cristo como um simples homem desprovido de uma ontologia divina) — embora alguns digam que esses dois não foram gnósticos.

Para além desses dois, são gnósticas as doutrinas de Basílides, Carpócrates ou de Valentim, entre outras. A maçonaria também é uma seita gnóstica. O hermetismo do Renascimento e o Iluminismo têm claros e evidentes fundamentos no gnosticismo da Antiguidade Tardia.

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