“Se se quiser dar um nome de origem à Maçonaria, o mais que poderá dizer-se é que ela é, quanto à composição dos graus simbólicos, plausivelmente um produto do protestantismo liberal, e, quando à redacção deles, certamente um produto do século dezoito inglês, em toda a sua chateza e banalidade. (…)” — Fernando Pessoa
— O contributo judaico da maçonaria segundo Pessoa
«Não sou mação, nem pertenço a qualquer outra Ordem semelhante ou diferente. Não sou porém anti-mação, pois o que sei do assunto me leva a ter uma ideia absolutamente favorável da Ordem Maçónica.»
— Fernando Pessoa, “Associações Secretas”, Obras em Prosa, 1975, III Volume, página 60.
Fernando Pessoa tem dias; é conforme lhe dá na telha. Eu só cito Fernando Pessoa quando tenho a certeza de que o conteúdo ideológico dos textos dele é coerente e lógico, e que se baseia em factos concretos — e não em meros “factos argumentativos”.
Se a Maçonaria especulativa tem alguma coisa a ver com qualquer tipo de Cristianismo — protestante, que seja —, então Fernando Pessoa deprecia a maçonaria por causa do Cristianismo, a que ele chamava de “cristismo”. O alvo é o Cristianismo, e não propriamente a maçonaria.
Na primeira citação, Fernando Pessoa quis atacar o Cristianismo (protestante, neste caso) sem deixar ficar mal o gnosticismo que tanto ele como um certo protestantismo (nem todo!) defendiam (por exemplo, os huguenotes e o famigerado John Theophilus Desaguliers).
Muitas vezes Fernando Pessoa é “encurralado” pelos seus próprios argumentos. Neste caso concreto, ao querer criticar o protestantismo (que, como sabemos, e em algumas correntes, possui um forte matizado gnóstico), acaba por colocar indirectamente em causa o seu (dele) gnosticismo. Mas quando a maçonaria é apresentada sem qualquer relação a qualquer forma de “cristismo”, então Fernando Pessoa defende-a.
Uma coisa é falar-se
influência judaica na maçonaria; e outra coisa é falar-se em
influência do Judaísmo na maçonaria. São coisas diferentes e é claro que o Judaísmo,
enquanto religião, pouco ou nada teve a ver com o fenómeno maçónico. Daniel Béresniak, no seu livro
“Judeus e Franco-maçons” (2001), embora talvez sem querer, faz bem essa distinção.
Também é verdade que a Cabala não é uma ferramenta do Judaísmo enquanto religião. E tal como existiram cristãos gnósticos, também existiram judeus gnósticos, embora seja mais difícil encontrar muçulmanos gnósticos, talvez porque o Islamismo é, dos monoteísmos, o mais “blindado”.
O gnosticismo é, em si mesmo, uma religião distinta de qualquer outra, mas não deixa de ser uma religião — embora com a característica de ser uma “religião parasita”, na medida em que se alimenta constantemente das religiões ou mundividências que existem a cada época ou espírito do tempo. O que não muda nunca no gnosticismo de qualquer época é a sua característica fundamental dualista e anticósmica, por um lado, e marcadamente elitista, por outro lado.