Explicar o que se está a passar hoje na União Europeia é muito difícil, se não mesmo impossível.
A União Europeia (leia-se, Bruxelas) e os países que a compõem representam uma total ausência de lógica de conjunto, ou seja, não existe uma coerência básica e primária entre a União Europeia e os países membros. Esta incoerência entre as partes e o Todo não seria estranha e/ou negativa se a União Europeia fosse uma simples confederação – mas que já não é: se não existisse o Euro e não existissem directrizes da União Europeia em forma de leis gerais para todos os países, a incoerência entre Bruxelas e os países membros até seria saudável enquanto sinal de diversidade.
O que não se compreende é que a União Europeia (Bruxelas) seja hegeliana e a maioria dos países membros seja rousseauniana ou jacobina; ou que Bruxelas seja de um utilitarismo Benthamiano ou, sendo optimista, de um utilitarismo Saint-simonista, por um lado, e por outro lado os países membros sejam de um utilitarismo Humeano e mesmo Marginalista. E fico sem saber como conciliar a faceta hegeliana da União Europeia de Bruxelas com o utilitarismo extremo que grassa.
Dá a sensação de que estamos em presença de um monstro incaracterístico, de uma forma disforme e sem ponta por onde se lhe pegue. Não é possível definir a União Europeia; e o seu conceito consiste no paradoxo de conceber um conceito sem a abstracção e sem a generalização a partir de factos e realidades concretos. A União Europeia parece ser um “conceito absoluto”, o que é uma abstracção sem aderência à realidade.
Portugal encontra-se hoje perto de um “estado de natureza”, segundo o conceito de Hegel. Mas em vez de reagir à ameaça – ameaça que existe contra a sociedade civil – através da repolitização dos homens privados despolitizados, e em reclassificar os homens desumanizados da populaça que constituem a nova “classe paradoxal” dos desclassificados sociais, Portugal subordina-se cada vez mais a um utilitarismo radical e jacobino, oriundo dos países do directório da União Europeia, que coloca o indivíduo acima do universal, ou seja, acima da sociedade civil. Em vez de recriamos os laços sociais destruídos por um estado de necessidade, entretemo-nos todos a destruir o que ainda resta.
Advém desta realidade uma profunda convicção: ou se institui em Portugal alguns mecanismos de democracia directa e se revê o método eleitoral, ou terá que haver um movimento nacional que suspenda a democracia. Eu prefiro a primeira solução, mas não vejo lura por onde saia o Coelho.



Para entender o que se passa hoje em França e na União Europeia em geral, talvez não seja má ideia recorrer a Platão, embora os clássicos gregos tenham vindo a ser, cada vez mais, proibidos na educação dos nossos adolescentes. De Platão, as elites actuais propalam somente aquilo que lhes convém: a validação da ideia gnóstica do rei-filósofo omnipotente e a defesa da legitimidade da censura da obra de Homero.













