perspectivas

Segunda-feira, 22 Julho 2013

Ainda sobre o capítulo I do livro de Luís Portela

Filed under: filosofia — orlando braga @ 5:37 pm
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(A série de verbetes acerca do livro de Luís Portela com o título “Ser Espiritual: Da Evidência à Ciência” pode ser lida na categoria (tag) “Luís Portela”.)

Um analfabeto pode ser espiritualmente muito mais evoluído do que o médico e cientista Luís Portela.

No capítulo I do referido livro, Luís Portela estabelece uma relação entre “evolução espiritual”, por um lado, e “saber”, por outro lado. Mas antes de abordar esta questão, passo a transcrever um parágrafo da página 15, como segue:

“E assim vamos descrevendo a nossa trajectória evolutiva a título individual. E o somatório das trajectórias dos seres que se encontram na Terra traduz-se na evolução espiritual que se vai verificando no planeta, em paralelo com a evolução material, compatível com a teoria da origem das espécies de Darwin.”

Luís Portela está absolutamente errado na tese que defende, e eu desafio-o para uma troca de ideias por escrito. Luís Portela estudou a ciência positivista, mas não está preparado para “se meter” em metafísica.

Se entendermos “evolução” como o processo através do qual o Absoluto se apresenta na dimensão do espaço e do tempo, então a afirmação de que o espírito, a alma e a razão são produtos da evolução não representa um problema para a metafísica. Porém, se a evolução for entendida em termos materialistas – leia-se, segundo a teoria da origem das espécies de Darwin, ou segundo o neodarwinismo da segunda metade do século XX -, então a realidade da autoconsciência e do acesso ao domínio das verdades intemporais arrebenta o quadro evolucionário!

Das duas uma: ou Luís Portela não sabe o que é a teoria das espécies de Darwin, ou está a dar uma interpretação subjectivista e imprópria da dita teoria. Se Luís Portela se refere à micro-evolução (adaptação ao meio ambiente), ele deve saber concerteza que ela é reversível; se Luís Portela se refere às macro-mutações, então refere-se a um mito, porque “é impossível explicar a mutação das formas” (Eric Voegelin). Meter o mito da teoria de Darwin no meio de um livro sobre a evolução espiritual é um absurdo de todo o tamanho!


Na página 14, Luís Portela identifica “evolução”, por um lado, com, “saber”, por outro lado. Vamos ver:

“E, no que diz respeito ao acesso à Sabedoria Universal, parece que o que se vai adquirindo é para ficar. Não há involução de mais conhecimento para menos, quer em termos individuais, quer colectivos. A trajectória evolutiva que vamos fazendo tem sempre o sentido positivo. Quando cada um de nós estagna temporariamente, poderá parecer que regride, mas apenas o fará em termos comparativos com aqueles que continuam a evoluir em termos absolutos”.

Esta visão de Luís Portela acerca da evolução espiritual é hegeliana, por um lado, e historicista, por outro lado. Luís Portela parte do princípio segundo o qual a “evolução”, no sentido de “progresso”, é uma lei da Natureza – sendo que, neste contexto, a Natureza é uma obra de criação do Absoluto, ou, se quisermos, de Deus. Ora, o progresso não é uma lei da natureza, nem a nível individual, nem a nível colectivo. O progresso requer um esforço contínuo, seja individual ou colectivo, e sem o qual a involução é possível. A alegoria da “queda” (o “anjo caído”, a “humanidade caída”, “Adão e Eva”, “os super-heróis ancestrais”, etc.), que perpassa, de uma forma ou de outra, quase todas as religiões do planeta, reflecte exactamente a possibilidade de involução espiritual.

Ademais, Luís Portela parece identificar ou criar uma relação directa entre “saber”, no sentido de “saber científico” segundo o método científico, e “sabedoria espiritual”. Esta identificação não é necessária, porque se fosse necessária, Lao Tsé, por exemplo, seria um ser espiritualmente primitivo; e, que eu saiba, Lao Tsé não fazia a mínima ideia sobre o que quer que fosse acerca da teoria de Darwin ou sobre os detalhes da relatividade de Einstein. Um analfabeto pode ser espiritualmente muito mais evoluído do que o médico e cientista Luís Portela.

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