perspectivas

Terça-feira, 30 Outubro 2012

Pluralismo não significa relativismo, nem ciência significa cepticismo

Um cientista que afirme que “a verdade não existe” não pode ser cientista, porque a ciência procura a verdade. Um verdadeiro cientista tem a certeza absoluta de que a verdade existe. Isto é um facto que não pode ser refutado.

Um verdadeiro cientista procura a verdade, e não apenas o conhecimento, entendido em si mesmo. Para um verdadeiro cientista, o conhecimento é apenas um meio para chegar à verdade. Quem diz, como Carl Sagan, que “a última morada do ser humano é apenas e só o conhecimento”, não se baseia na ciência propriamente dita, mas em vez disso, na política.

Não se pode conceber um cientista que não procure a verdade: seria uma contradição em termos. Um cientista que diz que “a verdade não existe” é como um católico que diz que “Deus não existe”: nem o primeiro é cientista, nem o segundo é católico.

Portanto, os problemas do relativismo ou do cepticismo (são conceitos diferentes!*), por um lado, e do pluralismo, por outro lado, não têm necessariamente a ver com a ciência, mas apenas com uma determinada cultura. A ciência e as religiões, entendidas em si mesmas, têm tido as costas largas.

A teologia já é uma mistura entre a racionalidade da filosofia e a experiência dos fiéis ao longo da vida da religião. Neste sentido, a religião, à semelhança do que acontece com a política moderna, extravasa o âmbito da pura racionalidade da filosofia e tem em consideração um conjunto de experiências humanas que, por sua vez, se traduzem em um código simbólico que dita os paradigmas da fé e dos dogmas. A diferença é que, na teologia, a filosofia é levada a sério, enquanto que, na política, as ideologias políticas são simplificações ou caricaturas de determinados sistemas filosóficos.

Pluralismo não conduz necessariamente ao relativismo ou ao cepticismo — até porque desde sempre existiu pluralismo.

O pluralismo não é um fenómeno estritamente moderno. Mesmo na Idade Média profundamente católica, sempre existiu pluralismo: basta lermos as opiniões profundamente divergentes e mesmo opostas em algumas áreas, por exemplo, entre franciscanos e dominicanos medievais, para sabermos que o pluralismo sempre existiu. Portanto, o pluralismo não é nem anti-cientifico, nem é anti-religioso, porque o pluralismo parte do princípio segundo o qual “a verdade existe”: o que o pluralismo propõe são os caminhos para se chegar à verdade. Por exemplo, entre as opiniões divergentes de Guilherme de Ockham, por um lado, e S. Tomás de Aquino, por outro lado, nenhum deles colocava em causa o princípio da existência da verdade.

O que caracteriza o homem moderno não é o pluralismo, mas antes é uma certa cultura intelectual relativista ou céptica que influenciou ou alterou parcialmente a nossa cultura antropológica. Essa cultura intelectual moderna não é pluralista: bem pelo contrário, é totalitária porque se baseia no princípio do rei-filósofo de Platão ou, se quisermos, no princípio da iluminação das elites, ou das elites luminárias que teve o seu fundamento, na Europa, no movimento gnóstico da antiguidade tardia (os chamados “Pneumáticos”).

O relativismo é, por sua própria natureza, contra o pluralismo porque este significa “diferença em nome do princípio da identidade”, e não “identidade em nome do princípio da diferença ou da autonomia”: ou seja: nós somos, de facto, diferentes em uma base de identidade da condição humana (religiões universais), mas não somos idênticos em uma base de diferenciação da condição humana (gnosticismo). E o relativismo é totalitário exactamente porque anula as diferenças e nivela os valores, em nome da diferenciação arbitrária, luminária e gnóstica da condição humana. Não devemos, por isso, confundir pluralismo com relativismo.

* o relativismo nega o princípio da existência da verdade (absoluta); o cepticismo recusa até, e à partida, a possibilidade de existência de qualquer verdade. Naturalmente que “verdade” deve ser aqui, no texto, entendida em termos absolutos.

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