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Quarta-feira, 24 Outubro 2012

“Girls”, de Lena Dunham

Filed under: A vida custa,ética,cultura,Decadência do Ocidente,feminismo,Sociedade,Ut Edita — orlando braga @ 10:57 am
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The morning after the night before, a chubby 24-year-old girl called Hannah Horvath — hailed as this generation’s answer to Sex And The City’s Carrie Bradshaw — prepares to say goodbye to the man she’s just had sex with.

via What TV's new Sex And The City reveals about the lives of young women today… and it's both shocking and heartbreaking | Mail Online.

Hoje, a mulher quer ser homem e acaba por não ser nada.

Os grandes romances do século XIX e XX foram populares pela trama emocional que tinha o seu centro no casamento. Honoré de Balzac não fez outra coisa, nomeadamente através da “Comédia Humana”. E o mesmo aconteceu com Stendhal em “Vermelho e o Negro”, em que as relações pessoais em torno da instituição do casamento foram a chave da trama do romance. As irmãs Brontë não fugiram à regra, por exemplo, com o “Monte dos Vendavais, de Emily, e “Jane Eyre”, de Charlotte. De Flaubert, “Madame Bovary” é outro exemplo em que o casamento representa uma função central na trama do romance.

Em “Guerra e Paz”, de Tolstoi, tanto Pierre Bezuchov como Andrej Bolkonski tentam conquistar o amor de Natacha que, depois de umas peripécias em que fica noiva do príncipe Andrej, envolve-se com o estarola Anatoli Kurabin, mas acaba por se casar com Pierre e passando a assumir o seu papel de esposa e mãe.

Até mesmo em “Ulisses”, de James Joyce, a estória anda em torno da família composta por Leopold Bloom, a sua mulher Molly e o filho dos dois, Stephen, adoptado por “afinidade de eleição”.

As novelas escritas actualmente não possuem aquela tensão da trama do romance do século XIX que se posiciona em função do casamento. Pelo contrário, nos romances actuais, o valor do compromisso das relações e do casamento é depreciado, o que significa que se perde a emoção na leitura; as estórias são estéreis, os personagens são desligados uns dos outros como se não existisse uma história comum a todos eles. Um romance actual não conta uma história com final comum: em vez disso, conta a história de cada um dos personagens de uma forma independente de todos os outros; não existe um fio condutor no romance actual. Aliás, nem podemos dizer dele que é romance, mas apenas uma descrição ou uma narrativa fictícia e desgarrada das vidas de vários personagens.

Esta característica da novela actual, sem uma trama comum, ficou bem patente com a série de televisão “Sex And The City”, em que homens e mulheres sucedem-se nas alcovas sem a tensão da emoção que caracteriza um bom romance. Porém, surgiu agora uma série televisiva nos Estados Unidos com o nome de “Girls”, da autoria de Lena Dunham, em que a cultura actual do não-compromisso nas relações é colocada em causa através de um olhar crítico.

…o feminismo é masculino.

A série “Girls” narra as vidas de quatro jovens mulheres que vivem na cultura do homem actual do “no strings attached” e da pornografia. Pelo que li, a série pode ser interessante na medida em que são as próprias mulheres que colocam em causa o fundamento da cultura feminista que, no fundo, é uma imposição masculina. O que a série nos diz é o seguinte: o feminismo é masculino.

Como refere Lena Dunham, “nesta época da pornografia, são as mulheres que pagam o preço”: 47% da mulheres são de opinião que a pornografia destrói os relacionamentos. A pornografia (e a revolução sexual) retirou a emoção do sexo, e as novelas actuais acompanham essa tendência cultural. Já não existe a tensão amorosa de “Jane Eyre”, ou a reconciliação de Natacha com a sua própria natureza, ou a concupiscência estéril e destruidora da “Madame de Bovary” que a conduziu ao suicídio. Hoje, a mulher quer ser homem, e acaba por não ser nada.

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