perspectivas

Sábado, 20 Outubro 2012

A miopia dos neoliberais

O argumento dos liberais hayekianos (ou, como se diz na Europa, “neoliberais”) é o seguinte: “um programa de austeridade transporta sempre consigo uma recessão da economia”. Esta proposição apodíctica funciona como um mandamento metafísico; a partir dela, toda a recessão e qualquer tipo de recessão estão a priori justificadas. E mais grave: quem não aceita o dogma, é de esquerda.

Ouvimos este responso metafísico e dogmático, por exemplo, no cada vez mais anafado Miguel Beleza: “um programa de austeridade transporta sempre consigo uma recessão da economia. Ámen.” Miguel Beleza é o exemplo do que um economista não deveria ser, porque um economista não é a mesma coisa que um Técnico-de-contas que se preocupa exclusivamente com o livrinho do Deve e do Haver; e quando a empresa nacional vai à falência porque não produz nem vende, o livrinho das contas do contabilista Miguel Beleza já não servirá para nada.

Eu não preciso ser economista, e muito menos hayekiano, para saber pelo menos três coisas (o que já não é nada mau!):

  • os liberais hayekianos precisam da democracia representativa como a boca precisa de pão; o liberalismo (económico e cultural) é parasitário da democracia dita representativa;
  • o que assistimos hoje na Europa é a um fenómeno bizarro: os defensores do liberalismo a pugnar por um aumento astronómico de impostos e, consequentemente, a estatização da economia;
  • a Grécia não vai aguentar por muito mais tempo sucessivos pacotes de austeridade: mais um ou, no máximo, dois pacotes de austeridade, e a democracia representativa grega implode.

Nada nos garante que o que está a acontecer à Grécia não venha a acontecer em Portugal, com uma agravante que quase nenhum neoliberal diz: no inicio do seu programa de austeridade, a Grécia partiu de um PIB per capita de 27.000 US Dollars, enquanto que Portugal iniciou o seu programa de austeridade a partir de um PIB per capita de 19.000 US Dollars.

Convenhamos que não é a mesma coisa, e nem a receita de austeridade deve ser igual nos dois casos. Mas, sendo igual na forma, não o é no conteúdo. Ou melhor: à Grécia já foi perdoada uma parte substancial da sua dívida, e vai agora beneficiar, juntamente com Espanha, de um programa de financiamento directo da sua Banca a partir do BCE [Banco Central Europeu]. Mas Angela Merkel já veio dizer que Portugal não tem o mesmo direito a esse financiamento.

Cortar 50% no PIB per capita grego significa um valor final de 13.500 US Dollars; cortar 50% no PIB per capita português significa um valor final de 9.500 US Dollars e semelhante a Marrocos. E falo aqui em cortes de 50% porque é para esse número que aponta, grosso modo e embora de uma forma inconfessável, a “Troika” no seu processo de sinificação de alguns países da periferia da Europa.

Ora, para sofrermos um corte na ordem dos 50% do PIB per capita, mais vale sair do Euro. Vou mais longe: cortar em 30% o PIB per capita português compensa a saída do Euro, porque essa compensação não é só económica, mas também política e monetária. A minha dúvida é se será possível sair do Euro, em Portugal como na Grécia, sem um golpe-de-estado.

O papel do neoliberal Passos Coelho torna-se irrelevante porque ele obedece cegamente a um programa neoliberal de saque usurário imposto pela estranja. Aliás, este governo não pensa: em vez disso, obedece caninamente. E um governo que não pensa, não tem estratégia e, neste sentido, o governo de Passos Coelho assume a função de uma comissão liquidatária do país. Passos Coelho já é passado; é um morto-vivo; está no governo como poderia estar um espantalho, ou uma múmia. O povo português não pode já contar com ele. Aquilo que ele diz já não se escreve.

Voltemos ao responso dogmático de Miguel Beleza.

Os liberais e simultaneamente defensores do Euro — quase todos os neoliberais são defensores do Euro — sabem, mas não dizem publicamente, que a adesão ao Euro destruiu o tecido produtivo de Portugal.

Eles sabem, mas não dizem: Portugal não “faz” praticamente nada: compra quase “tudo feito” na Alemanha e noutros países do directório europeu. Portanto, eles sabem que o problema não é tanto o “Estado gordo”, como se diz aqui, mas a incapacidade da economia aguentar as mínimas funções de um qualquer Estado de um qualquer país do mundo.

Portugal, em grande parte devido à sua adesão ao Euro, tem hoje um Estado inviável. Ora, é esta hipocrisia bovinotécnica dos neoliberais e do PSD do Pernalonga (como a de Miguel Beleza) que insulta a inteligência dos portugueses, porque o problema português está menos no Estado do que na nossa economia destruída pelos interesses particulares do Euro alemão. É isto que tem que ser dito aos portugueses.

Na foto (Daguerreótipo): João Ferreira do Amaral, um dos poucos economistas lúcidos deste país.

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