perspectivas

Quarta-feira, 17 Outubro 2012

Sobre a racionalidade da religião, segundo a Melanie Phillips

So why do I make this counter-intuitive suggestion that Judaism gave rise to rationality?

The popular belief is that the roots of reason and science lie in ancient Greece. Now undoubtedly Greece contributed much to modernity and to the development of Western thought down the ages. Nevertheless, in certain crucial respects Greek thinking was inimical to a rational view of the universe. The Greeks, who transformed heavenly bodies into gods, explained the natural world by abstract general principles.

By contrast, science grew from the novel idea that the universe was rational; and that belief was given to us by Genesis, which set out the revolutionary proposition that the Universe had a rational Creator.

via The new intolerance | Melanie Phillips.

Quando leio uma coisa escrita por alguém com autoridade de direito, e com que não concordo, começo a ficar inquieto; tipo, nervoso miudinho. Deste texto da conhecida colunista britânica Melanie Phillips, anui com tudo até que cheguei ao trecho supracitado.


As culturas cristãs protestantes têm a tendência para valorizar mais a influência do Judaísmo na religião cristã do que a influência da filosofia grega pós-socrática. Uma característica do Luteranismo e sobretudo do Calvinismo é a sobrevalorização do Antigo Testamento (Judaísmo) com algum detrimento em relação ao Novo Testamento, e sobretudo em relação à influência da filosofia grega na religião cristã. Esta sobrevalorização do Antigo Testamento ainda hoje é visível na cultura protestante dos Estados Unidos.

O Catolicismo tem a vantagem de ser mais equilibrado na aceitação das duas influências (Judaísmo e filosofia grega), por um lado, e outra vantagem de ter assimilado, mediante uma diferenciação cultural, a necessidade de simbolismo religioso que sempre acompanhou qualquer tipo de religião desde que o Homem surgiu. A hipostasia — por exemplo, a imagética religiosa — sempre fez parte de qualquer religião, e até as actuais religiões políticas não podem viver sem ela.

Na civilização grega, nem toda a gente “adorava os astros como deuses” — como escreve a Melanie Phillips. Os pitagóricos, por exemplo, tinham uma visão religiosa, racional e matemática do universo.

O grego Xenófanes, que nasceu 570 anos antes de Cristo e viveu e morreu antes de Sócrates, travou uma “guerra” aberta contra o antropomorfismo dos deuses gregos e pagãos. Dizia ele que “os homens crêem que os deuses tiveram nascimento e possuem uma voz e um corpo semelhantes aos seus, pelo que os etíopes representam os seus, negros e de narizes achatados, os Trácios dizem que têm olhos azuis e cabelos vermelhos”. Na realidade, dizia ele, “há só uma divindade que não se assemelha aos homens nem pelo corpo nem pelo pensamento”. Portanto, o grego Xenófanes já dizia, 500 anos antes de Cristo, que “só há uma divindade”.

Depois, com Sócrates, Platão, Aristóteles e com os estóicos, a ideia racional do “primeiro motor” foi aceite como axiomaticamente lógica. Portanto, dizer que não houve racionalidade nas crenças e na mundividência da Grécia antiga, e que essa racionalidade apenas se pode encontrar na Bíblia, é um sofisma da protestante Melanie Phillips que é casada com um judeu.


Outra imprecisão de Melanie Phillips é a seguinte:

“The other vital factor was the Bible’s linear concept of time.

This meant history was progressive; every event was significant; experience could be built upon. Progress was thus made possible by learning more about the laws of the universe and how it worked.”

A concepção linear do tempo [histórico] só surgiu no Judaísmo depois do exílio das elites judaicas para Babilónia, também chamado de “cativeiro babilónico” — que teve a primeira leva em 598 a.C., ou seja, vinte anos antes de Xenófanes nascer. O cativeiro babilónico terminou cerca de 530 a.C., com a queda da Babilónia.

Portanto, só a partir dos profetas escatológicos (Jeremias), anunciando um futuro paradisíaco e promissor (a imanência da certeza do devir que caracteriza também a mente revolucionária moderna), passou a existir o tempo linear e histórico no Judaísmo. Ou seja, o tempo linear e histórico não é uma característica intrínseca do Antigo Testamento, e muito menos do Génesis: antes do exílio, o tempo do Judaísmo era cíclico, como acontecia em qualquer outra cultura coeva — e ainda hoje acontece, de forma mais ou menos impositiva, não só em muitas culturas do planeta como até permanece recôndita na cultura contemporânea do Ocidente.

A cultura grega teve o condão de “temperar” o Catolicismo, por um lado, e de introduzir a exegese na leitura e interpretação Antigo Testamento e do Novo Testamento, por outro lado. E ainda conseguiu reificar em si a necessidade da hipostasia inerente à condição humana. Por isso é que eu considero o Catolicismo a religião mais racional que existe; e talvez por isso é que seja mais fácil converter um protestante ao ateísmo do que fazê-lo em relação a um católico.

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