perspectivas

Segunda-feira, 15 Outubro 2012

Nem tudo “são rosas, meu senhor”

Filed under: A vida custa,Política,Portugal,Ut Edita — orlando braga @ 2:14 pm

A História de Portugal não é, a passos e aqui e ali, coisa bonita de se ler. Por exemplo, quando D. João II, cognominado de “Perfeito”, assassinou o seu cunhado com as suas próprias mãos, temos uma ideia de alguns traços trágicos da nossa História. Já não falando de D. Pedro I, que mandou arrancar o coração pelas costas ao assassino da sua amante Inês — porque, neste caso, trata-se da aplicação pura e dura da justiça de Talião.

Rainha Santa Isabel

D. José I vinha uma noite, a altas horas, acabado de fornicar a sua amante que era também esposa de um nobre da família dos Távoras, e foi alvo de uma tentativa de homicídio. Deu à praça que o presumível responsável da tentativa de assassínio do rei seria provavelmente o gentil homem cornudo, da família dos Távoras e dos Duques de Aveiro. E D. José I não se fez rogado: mandou o Marquês de Pombal erradicar a família inteira dos Duques de Aveiro, executando-a toda em praça pública (incluindo crianças)!

Reza a História que D. Afonso VI — que era lélé da cuca e que foi substituído no trono pelo seu irmão D. Pedro V que, por sua vez, se casou com a mulher do seu irmão já falecido e de quem era amante mesmo em vida do dito cujo — dizia eu que D. Afonso VI gostava imenso de caçadas. E dizem as más-línguas que quando vinha das suas caçadas lá para os lados das charnecas das arribas do rio Tejo, e chegando a cavalo ao porto de Lisboa repleto de embarcações comerciais, o rei afinava a sua pontaria abatendo os marinheiros que se encimavam, encarrapitados, nas velas dos navios.

Porém, a I república conseguiu um feito prodigioso: os desmandos da realeza perpetrados durante séculos foram todos condensados em apenas 16 anos! Depois seguiu-se Salazar, que foi uma espécie de Marquês de Pombal católico e sem rei. E a III república foi um “ver se te avias”: um político que se preze tem que ter uma conta bancária na Suíça, ou vai “estudar filosofia” para Paris e movimentar 383 milhões de Euros em off-shores.

Portanto, se houve algum dia um Portugal unido, foi na primeira dinastia, em que a Reconquista serviu de esteio a essa união. Depois, nunca mais houve real união. D. Manuel I desuniu os portugueses quando expulsou os judeus. Mesmo o rei D. João IV teve que ser fortemente pressionado para assumir o seu papel histórico na Restauração de 1640. Durante a noite filipina, a nobreza esteve sempre vendida à estranja espanhola, tal qual a aristocracia política hodierna está vendida a Bruxelas e à União Europeia.

A única coisa boa que a III república me trouxe foi a liberdade de poder estar a escrever isto.

Bem sei que a classe política da III república fez um acordo com o povo português: o povo critica os políticos, e estes fazem aquilo que lhes dá na plebeia gana. E a liberdade, na república, no fundo, resume-se a esta esquizofrenia política. Mesmo assim, prefiro dizer livremente o que me vai na alma sem ter alguém que me acosse o ânimo e a acção; mas essa liberdade de expressão parece ter os dias contados, à medida que se evolui na construção do leviatão europeu.

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