perspectivas

Quarta-feira, 10 Outubro 2012

Passos Coelho vai ao contrário da virtude tradicional portuguesa

Em política, como em tudo na vida, a acção escapa às nossas intenções. Por isso é que o povo português diz que “de boas intenções está o inferno cheio”. Desde que um indivíduo — por exemplo, um político — inicia uma determinada acção, esta começa a escapar às suas intenções: a acção dele entra em uma lógica de interacções que, na esmagadora maioria dos casos, pode reverter o sentido da acção e transformá-la no contrário da intenção inicial. O povo traduz este fenómeno de interacção, de tipo boomerang, das intenções, na seguinte frase: “bem prega Frei Tomás…”.

Conhecendo esta realidade, Aristóteles defendeu que a acção ética e política se traduz em obras concretas, e não em meras intenções. A tese de Aristóteles foi defendida também por alguns escolásticos católicos, como por exemplo, S. Tomás de Aquino; mas foi também colocada em causa por outros, como por exemplo alguns que seguiram a ética intencionalista e neoplatónica de Santo Agostinho: por exemplo, Lutero, que moldou a Alemanha luterana de Angela Merkel.

A ideia segundo a qual a intenção não se desvia do seu caminho primordial — que traduz a tradição luterana e calvinista, entre outras — traduz uma mundividência revolucionária. Esta ideia da impossibilidade de desvio da acção está na base da certeza revolucionária do futuro.

O que se passa hoje com a politica de Passos Coelho e com a sua aliança à mundividência luterana de Angela Merkel, é a expressão do primado “absoluto da intenção”. Existe uma intenção e a convicção de que a tradução dessa intenção em acção não sofrerá qualquer desvio. É como se a acção política, que decorre de uma determinada intenção, resultasse com certeza absoluta em um determinado resultado e sem possibilidade de qualquer desvio.

Resulta disto que os portugueses, com Passos Coelho ao leme do governo, alienam agora uma das suas grandes virtudes: a capacidade intuitiva de estratégia, mais conhecida por “desenrascanço português”. O desenrascanço, característica do português e dos países do sul da Europa com tradição católica, é a virtude do estratega; é a capacidade de mudar de rumo em função dos desvios nos fenómenos da acção. Em vez de seguir a intuição estratégica do desenrascanço português, Passos Coelho opta pela tradição luterana de Angela Merkel da “programação”, que se opõe à estratégia e ao desenrascanço.

A “programação” é a robotização da acção (característica dos alemães); ou melhor, é a crença no determinismo da acção, a ideia segundo a qual uma acção não se desvia do seu objectivo. Esta mentalidade luterana, do primado da intenção mediante a “programação”, por um lado, e do determinismo na acção, por outro lado, esteve na base do movimento revolucionário que se instalou na Europa do século XVI, e ainda dura.

Exactamente porque o povo português é o “povo do desenrascanço”, ou o povo da estratégia intuitiva, é que ele é anti-revolucionário na sua índole e por sua natureza. E ao contrário do que os estrangeirados e desnacionalizados dizem, o desenrascanço é uma grande virtude, e não um defeito.

O desenrascanço revela a compreensão intuitiva da complexidade da realidade: como dizia Agostinho da Silva: “os nórdicos pretendem ter uma chave para todas as fechaduras; e os portugueses preferem ter uma chave para cada fechadura”. A metáfora de “ter uma chave para cada fechadura” revela a compreensão da complexidade da realidade, e o desenrascanço português nada mais é do que o realismo do estratega ao lidar com essa realidade complexa.

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