perspectivas

Segunda-feira, 8 Outubro 2012

O Wirtschaftsraum defendido pelo Blasfémias

“Excesso de capitalismo não significa demasiados capitalistas, mas antes significa muito poucos capitalistas.” — G. K. Chesterton

O blogue Blasfémias (ligado a uma mundividência ultra-hayekiana) é tão perigoso quanto o blogue Arrastão, de Daniel Oliveira e ligado à esquerda radical — porque ambos os blogues mutilam e simplificam a realidade. Se existe uma extrema-direita, hoje, em Portugal, é a ideologia que subjaz à política de Passos Coelho, António Borges e companhia limitada.

Tanto a extrema-esquerda libertária (Bloco de Esquerda) e a extrema-direita libertária (PSD do Pernalonga) escamoteiam a História, por um lado, e por outro lado, afirmam, cada um à sua maneira, a certeza de um determinado futuro. Ou seja: ambos os blogues, ou negam o passado, ou no mínimo desconstroem esse passado; e em função desse passado desfocado, afirmam uma certeza do futuro. Por exemplo, esta pergunta/afirmação:

“Seremos viáveis, no contexto do crescimento da Ásia? Essa é a dúvida.”

via Impressões « BLASFÉMIAS.

  1. Vejam que aqui, “Ásia” é entendida de uma forma abstracta. Esquece-se, por exemplo, que a Índia só se tornou um país (unificado) com a ocupação inglesa, e que mesmo hoje existem na Índia dezenas de milhares de etnias diferentes e com línguas diferentes. E assim como temos hoje um fenómeno separatista em Espanha, nada nos garante que a Índia não estará nunca sujeita a pressões políticas internas de desintegração. Segundo a teoria das probabilidades, um fenómeno político generalizado de separatismo na Índia é uma “possibilidade pesada” (segundo o termo de Karl Popper) ou uma forte possibilidade.
  2. A China continua a ser um país com um sistema político marxista e totalitário, e é no mínimo estranho que a extrema-direita libertária considere a China como um paradigma económico-político a seguir — porque é disto que se trata: quando comparamos coisas incomparáveis, tendemos a nivelar tudo pela mesma bitola que é quase sempre a mais baixa. E o que o Blasfémias faz, de uma forma sistemática, é utilizar o exemplo da China (entre outros exemplos) para tentar reduzir o capitalismo a um punhado de capitalistas.
  3. Quando o capitalismo está nas mãos de apenas um punhado de capitalistas, não estamos em presença de capitalismo propriamente dito: em vez disso, trata-se de fascismo. A China é hoje o exemplo de um sistema fascista. E se a China pratica uma política comercial proteccionista, não sei por que razão os países da Europa não poderão pagar-lhe na mesma moeda. Mas o Blasfémias não se preocupa com o proteccionismo da China: o que preocupa o Blasfémias é condenar qualquer tipo de proteccionismo na Europa.

A política da União Europeia dirigida pela Alemanha de Angela Merkel, em relação a alguns países do sul e leste da Europa, é uma política de sinificação (ou instalação progressiva de um novo tipo de fascismo na periferia da Europa): trata-se de uma versão actualizada do conceito nazi de Lebensraum, agora concebida como Wirtschaftsraum.

Do que Portugal precisa é de muitos capitalistas; é de transformar, se possível, milhões dos seus cidadãos em pequenos capitalistas. Não precisamos do monopólio do pequeníssimo grupo de capitalistas que o Blasfémias defende.

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