perspectivas

Segunda-feira, 8 Outubro 2012

O progresso na Europa é a negação da realidade da condição humana

“Ser moderno é ver friamente a morte ao longe e não pensar nunca nela.” — Nicolás Gómez Dávila

Uma das características que marcou o homo sapiens (e também algumas espécies extintas de hominídeos, como por exemplo o Neanderthal), foi o culto dos mortos. Ora, parece-me que esse culto está a desaparecer na cultura europeia; porém, ainda subsistem uns resquícios “arcaicos” e “primitivos” do culto dos mortos na cultura antropológica europeia, mas parece-me que o “progresso” aponta para a extinção do culto dos mortos mediante uma “diferenciação cultural evolucionista”.

Ainda não vai muito tempo, quando havia um funeral na aldeia, o povo acorria em massa. Quebrava-se o tempo profano e aquele dia pertencia ao sagrado. Agora, como as aldeias estão praticamente desertas, esse fenómeno cultural desvaneceu. O povo das aldeias de Portugal, ou foi morrendo sem que tivesse direito ao culto da sua morte, ou emigrou para as grandes cidades, onde a morte é anónima e anódina. Hoje, morre-se anonimamente num apartamento qualquer da grande cidade, e ninguém dá por isso até que o cheiro nauseabundo do cadáver incomode os vizinhos.

O cidadão contemporâneo foi forçado pela política moderna a abandonar as pequenas comunidades (as aldeias e vilas) para se concentrar na megalópole. “Encontrar-se, para o homem moderno, significa dissolver-se numa colectividade qualquer” (Nicolás Gómez Dávila), porque na grande cidade não há comunidades, mas antes e apenas “colectividades”.

Fenómenos culturais e políticos europeus, como o aborto e a eutanásia, traduzem esta cultura europeia do “vai morrer longe!”. Mete-se um indivíduo numa clínica, dá-se-lhe uma injecção atrás da orelha, e assunto encerrado e não se pensa mais no malogrado e na morte. E o aborto é outra tentativa de fazer de conta que a morte não existe, desta feita de forma radical, porque se recusa a vida ao malogrado nascituro.

Por detrás da cultura intelectual europeia actual — que contamina mortalmente a cultura antropológica dos povos da Europa — está a recusa obstinada e obstipada da realidade. E dessa recusa da realidade faz parte a negação radical das características fundamentais da natureza humana. E é neste quadro de recusa neognóstica da realidade que se inserem, por exemplo, os movimentos políticos de instauração do “casamento” gay e da adopção legal de crianças por pares de gueis, a ideologia de género, o aborto, a eutanásia, e culminando com a abolição do culto dos mortos na cultura antropológica.

A Europa é hoje o pior sítio para um ser humano saudável viver.

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1 Comentário »

  1. Eu concordo com o que diz o Orlando, mas quer me parecer que a última afirmação é exagerada. “A Europa é hoje o pior sítio para um ser humano saudável viver”. É certo que não é bom sítio para se viver, mas o mesmo continua a ter alguns recantos aos quais estas podridões modernistas não chegam, nem todas as aldeias estão desertas, eu vivo numa com a minha família e somos a prova disso mesmo.

    O modernismo de hoje, ou melhor dito, aquilo que pretendem que seja o modernismo é precisamente o seu contrário, é o arcaísmo levado ao pior dos sentidos, a eterna culpabilização do homem – a escatologia pungente – ao serviço das forças destrutivas.
    A história moderna (pós-1789) é um tempo de permanente desconstrucção, ideológica e metafísica, e um tempo em que a imanência se estabelece definitivamente na mundividência espiritual pós-moderrna. As engenharias socias do século XX e XXI são o corolário lógico da “desdivinização” do homem moderno.

    Comentário por Filipe Crisóstomo (@Skedsen) — Segunda-feira, 8 Outubro 2012 @ 10:21 am | Responder


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