perspectivas

Sexta-feira, 5 Outubro 2012

Os sepulcros caiados

Filed under: aborto,ética — O. Braga @ 6:12 am
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E ouvi um uivo pavoroso, tremendo e gélido. E foi-me comunicado que aquele era o terreiro das crianças por nascer. E soube que aquela multidão tinha votado favoravelmente, ou se tinha abstido, aquando do referendo sobre o aborto. E uma voz disse-me que a justiça será rigorosa e severa para os injustos,  e que não haverá misericórdia para os desapiedados, nem compaixão para os desumanos e indiferentes.

E foi-me afirmado que um Patriarca proibiu o clero de falar da matança das crianças nascentes nos dias do Senhor da Vida, quando ela é celebrada e Se oferece nos altares.

via Logos: Cem Mil – por Nuno Serras Pereira.

Há quem se diga “cristão” e afirme que “não temos o direito de julgar o outro”; que “só Deus tem esse direito”.

O Cardeal Colorido

Quem assim diz, defende uma espécie de versão Rawlsiana (de John Rawls) de Razão Pública, segundo a qual só os assuntos ou temas que constituam, em si mesmos, menores múltiplos comuns, podem ser discutidos na praça pública; ou seja, só é permitido discutir em público assuntos em que todos estejam, por princípio, de acordo de que devem ser discutidos — o que é exactamente o contrário do que deve ser uma discussão.

Segundo o conceito de Razão Pública de John Rawls, a religião deve ser remetida para o estrito recôndito da vida privada e íntima do cidadão, e proibida de transparecer na praça pública. Ora, é isto que me parece que o Cardeal Patriarca de Lisboa defende, embora hipocritamente venha a terreiro negar.

Um bispo que interdita os sacerdotes de se oporem publicamente ao aborto, é um lacaio de Satanás.

Uma das característica da racionalidade — e em contraste com a racionalização — é a capacidade [implícita no conceito de “racionalidade”] de autocrítica. Portanto, o mesmo soe dizer-se: quem faz uso da racionalidade, não receia a crítica. “Quem não deve não teme”. E mais: a crítica é sempre bem vinda. Aceitar a crítica, quando esta é racional, é uma qualidade, e não um defeito. Revelar a capacidade de autocrítica é próprio dos espíritos inteligentes.

A versão “católica” do conceito de Razão Pública de Rawls, imposta pelo bispo de Lisboa, revela um espírito tacanho e comprometido com a tacanhez. Por detrás dos paramentos farisaicos, está um sepulcro caiado.

“Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Sois semelhantes aos sepulcros caiados: por fora parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos, de cadáveres e de toda espécie de podridão.
Assim também vós: por fora pareceis justos aos olhos dos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade”
. — Mateus, 23, 27-28

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