E ouvi um uivo pavoroso, tremendo e gélido. E foi-me comunicado que aquele era o terreiro das crianças por nascer. E soube que aquela multidão tinha votado favoravelmente, ou se tinha abstido, aquando do referendo sobre o aborto. E uma voz disse-me que a justiça será rigorosa e severa para os injustos, e que não haverá misericórdia para os desapiedados, nem compaixão para os desumanos e indiferentes.
E foi-me afirmado que um Patriarca proibiu o clero de falar da matança das crianças nascentes nos dias do Senhor da Vida, quando ela é celebrada e Se oferece nos altares.
Há quem se diga “cristão” e afirme que “não temos o direito de julgar o outro”; que “só Deus tem esse direito”.
Segundo o conceito de Razão Pública de John Rawls, a religião deve ser remetida para o estrito recôndito da vida privada e íntima do cidadão, e proibida de transparecer na praça pública. Ora, é isto que me parece que o Cardeal Patriarca de Lisboa defende, embora hipocritamente venha a terreiro negar.
Um bispo que interdita os sacerdotes de se oporem publicamente ao aborto, é um lacaio de Satanás.
Uma das característica da racionalidade — e em contraste com a racionalização — é a capacidade [implícita no conceito de “racionalidade”] de autocrítica. Portanto, o mesmo soe dizer-se: quem faz uso da racionalidade, não receia a crítica. “Quem não deve não teme”. E mais: a crítica é sempre bem vinda. Aceitar a crítica, quando esta é racional, é uma qualidade, e não um defeito. Revelar a capacidade de autocrítica é próprio dos espíritos inteligentes.
A versão “católica” do conceito de Razão Pública de Rawls, imposta pelo bispo de Lisboa, revela um espírito tacanho e comprometido com a tacanhez. Por detrás dos paramentos farisaicos, está um sepulcro caiado.
Assim também vós: por fora pareceis justos aos olhos dos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade”. — Mateus, 23, 27-28















