perspectivas

Quarta-feira, 3 Outubro 2012

Sobre o dualismo de Descartes

Filed under: filosofia — orlando braga @ 9:11 am
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“Antes de mais , é evidente que o processo de dúvida metódica evolui sob a supervisão da faculdade racional. Contudo, Descartes afirma que “rejeita” como falsos todos os raciocínios que antes tinha tomado por demonstrações.

Ora, não parece lógico limitar a rejeição unicamente aos próprios raciocínios. Os raciocínios não aparecem sozinhos e são, pelo contrário, o produto da razão humana. E, se os raciocínios foram erróneos, isso é por que o seu emissor, a razão, não pode ser considerada como uma instância absolutamente fiável. Mas, nesse caso, como poderemos confiar nela para o resto do processo?”

via Nadando contra a Maré… Vermelha: "A dúvida de Descartes".

1/ Eu penso que o “problema de Descartes” não é Descartes, mas em vez disso é o uso que os que vieram depois dele fizeram das suas ideias. Naturalmente que podemos criticar a visão determinística do mundo objectivo preconizada por Descartes, mas temos que situar essa visão na sua época própria; e o que já não se pode justificar é que, por exemplo, Richard Dawkins pense ainda hoje como Descartes no que diz respeito ao determinismo do mundo objectivo.

2/ Descartes fez uma “suspensão de juízo” (Epoché). Quando se diz que ele “rejeita como falsos todos os raciocínios que antes tinha tomado por demonstrações”, eu interpreto isso como uma suspensão de juízo acerca das suas próprias ideias e raciocínios. A suspensão do juízo é também defendida pela fenomenologia (por exemplo, Husserl).

3/ Quando se diz que Descartes separou radicalmente o sujeito e o objecto, eu penso que quem separou radicalmente os dois conceitos não foi tanto Descartes, mas alguns dos que viveram depois dele — por exemplo, Augusto Comte. Muitas das críticas a Descartes são injustas porque não situam o homem no seu tempo (falácia de Parménides).

A separação entre sujeito e o objecto (no mundo macroscópico) é um facto; não foi preciso que Descartes colocasse alternadamente o universo objectivo (res extensa), aberto à ciência, por um lado, e por outro lado o cogito subjectivo, irredutível, e como primeiro princípio da realidade — para que essa separação não fosse um facto, e como já era um facto da realidade antes de Descartes existir.
E assim como o Positivismo se aproveitou da alternância cartesiana entre sujeito e objecto para reduzir o sujeito a uma espécie de “ruído” que deveria ser anulado a todo o custo, corremos também o risco de entramos por uma nova tendência oposta e acientífica que consiste em utilizar a crítica a Descartes para justificar a subjectivização da ciência [“ ¡Anything Goes!” — (Feyerabend)].

4/ Para Descartes, como para a maioria dos pensadores desde a Idade Média até ao século XVII, a Razão distinguia-se da razão humana. Ou seja: a “Razão axiomática” era (¡ e ainda é ! ) uma coisa diferente de “razão humana”. Para Descartes, a razão humana apenas interpreta a realidade, ao passo que a Razão axiomática determina a realidade. Hoje, essa distinção também é feita entre os conceitos de “racionalidade”, por um lado, e de “racionalização”, por outro lado.

Neste último sentido, para Descartes, os raciocínios podiam não ser exclusivamente produto da razão humana, e a suspensão de juízo que ele propõe serviria alegada e precisamente para tentar saber qual diferença entre aquilo que era proveniente da Razão axiomática (racionalidade), daquilo que era apenas produto da razão humana (racionalização). Aliás, Karl Popper, no seu conceito de “Mundo 3” — o mundo das ideias — corrobora, de certa maneira, Descartes, quando separa o mundo das ideias, da racionalização humana que pertence ao “Mundo 2”.

Adenda:

Eis o que o insuspeito ateu Bertrand Russell escreveu acerca de Descartes na sua “História da Filosofia Ocidental”:

«Era tímido, católico praticante, mas compartilhava as heresias de Galileu: a rotação da Terra e a infinidade do universo.

(…)

Sempre foi cortês com os eclesiásticos, especialmente com os jesuítas, quer quando esteve entre eles (foi educado pelos jesuítas), quer depois de emigrar para a Holanda. A sua psicologia é obscura, mas creio que era católico sincero e quis convencer a Igreja Católica — no interesse próprio e no da própria Igreja — a ser menos hostil à ciência moderna do que fora no caso de Galileu. Há quem julgue a sua ortodoxia meramente política; mas não me parece provável.

Até na Holanda foi vexatoriamente atacado, não pela Igreja Católica, mas pelos protestantes fanáticos.»

Naturalmente que Bertrand Russell pode estar errado.

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