perspectivas

Quarta-feira, 3 Outubro 2012

António Borges tinha razão acerca dos patrões portugueses

Filed under: A vida custa,cultura,economia,Portugal — orlando braga @ 4:02 am
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António Borges disse, em entrevista, que os empresários portugueses eram “ignorantes” (sic) porque não apoiaram a famigerada alteração da TSU, mas Borges estava errado: não na conclusão a que chegou, mas nos princípios e nos parâmetros que utilizou para chegar a essa conclusão. Ou seja: António Borges chegou a uma conclusão verdadeira utilizando premissas falsas.

Dou um exemplo do que quero dizer.

Tive hoje conhecimento que uma grande empresa portuguesa — cujo patrão é português de gema — do ramo editorial despediu uma determinada funcionária que trabalha em um determinado departamento. Para o efeito, o patrão (a empresa) apresentou-lhe uma carta de despedimento em que anuncia a dispensa dos seus serviços para daqui a 30 dias.

Ou seja: por um lado, o patrão cumpriu a lei que requer o anúncio ao funcionário de um prazo de despedimento de 30 dias, e, por outro lado, o patrão criou no departamento em causa, da sua própria empresa, um ambiente de “cortar à faca” durante 30 dias.

O que vale é que a dita funcionária, despedida para daqui a 30 dias, não gozou 15 dias de férias a que tinha direito e vai gozar as férias na segunda quinzena de Outubro, o que vai reduzir o “calvário” dela e dos seus colegas em 15 dias.


Desde meados da década de 1980, depois de eu ter saído de uma empresa portuguesa cujo patrão foi surpreendido por mim, in actu, no seu gabinete, a ser “premiado” com um felatio de uma empregada casada e com filhos aterrorizada com a ameaça de despedimento — dizia eu que desde meados de 1980 só trabalhei com empresas estrangeiras e recusei sempre trabalhar para um patrão português. O patrão português, em termos gerais, não é só ignorante: chega a ser perigoso para a sociedade. Vou mais longe: para se ser um típico patrão português torna-se mais fácil se se tiver um perfil psicopatológico.

Em finais da década de 1980 trabalhei para um patrão dinamarquês que tinha uma grande fábrica em Portugal, e que nunca despedia “a prazo”. Dizia-me ele [grosso modo]: “se eu não preciso de um determinado trabalhador, pago-lhe o mês inteiro que se segue, e ele sai imediatamente da empresa. Não há necessidade que ele fique na empresa mais 30 dias a trabalhar, contrariado e triste por ter sido despedido, e a estragar o ambiente de trabalho dos seus colegas”.

Em contraponto, o patrão português, em geral, faz exactamente o contrário do que fazia aquele empresário dinamarquês: não precisa do trabalhador e despede-o, mas simultaneamente não dispensa o seu trabalho por mais 30 dias. Só que esses 30 dias de trabalho penoso, não motivado e desmotivador do trabalhador despedido acabam por não beneficiar a empresa.

Este é apenas um exemplo da mentalidade do patrão português. E tenho conhecimento directo de tantos outros exemplos que dariam para escrever um livro.

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