perspectivas

Domingo, 30 Setembro 2012

O double blind de José Pacheco Pereira

Filed under: A vida custa,Europa,Política,Portugal — orlando braga @ 4:58 pm
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1/ Houve uma geração de políticos neste país — a geração de políticos do “Porreiro, pá!” e do Tratado de Lisboa — que acreditou na utopia do leviatão político europeu e da escatologia nacional da salvação pelo Euro. Faça-se justiça dizendo que José Pacheco Pereira não foi um desses políticos. Por exemplo, ele defendeu um referendo ao Tratado de Lisboa.

2/ Este artigo do José Pacheco Pereira faz lembrar a estória daquele homem que dizia assim: “Aqueles que não estudam a História estão condenados a repeti-la. E, ainda assim, aqueles que estudam a História estão condenados a permanecer impotentes enquanto toda a gente repete a História.”

3/ Existe um facto insofismável que não pode ser negado senão por gente fora de um bom juízo: a construção do leviatão da União Europeia foi uma utopia. E é sobre este facto objectivo, concreto, insofismável, inegável, que se terá que trabalhar o futuro. Negar este facto é loucura.

4/ Em função desse facto insofismável, referido no ponto 3/, verificamos que a economia real — repito: a economia real — portuguesa está hoje pior do que estava em 2000, antes de aderir ao Euro. Repare-se: não estou a falar da dívida: ¡estou a falar da economia real! A dívida é uma coisa que se paga ou se vai pagando; em contraponto, a economia real destruída não tem preço possível.

5/ A retórica do José Pacheco Pereira, quando apela às putativas “modificações no seio da União Europeia” — e em função dos pontos anteriores — é delirante. Ele ainda não compreendeu que a União Europeia foi uma utopia em que alguns acreditaram, e uma deliberada e intencional estratégia política e económica de outros países. Ele continua em estado de negação perante um cadáver.

6/ Pusemo-nos a jeito e fomos encavados. Os políticos portugueses acreditaram na utopia que os políticos alemães e franceses não acreditaram. Destruímos o nosso tecido produtivo para comprar tudo feito Made in Germany. E agora?

7/ Agora há que permanecer no Euro ao mesmo tempo que fazemos a vida negra, tanto quanto possível, aos países do directório da União Europeia. E isso implica uma política externa totalmente diferente daquela que Paulo Portas tem prosseguido.

8/ Entretanto, as “pancadas” no nível de vida português vão ser tantas que, a determinado ponto, vai ser mais fácil sair do Euro num Domingo de manhã. Quando o PIB per capita português chegar perto dos 10 mil dólares/ano, ou seja, quando Portugal regredir ao princípio da década de 1980, vai compensar, para o povo, sair do Euro. Até lá, vamos levar porrada todos os dias, enquanto a elite política vai sendo premiada com cursos de filosofia em Paris, ou recebendo elogios do ministro das finanças da Alemanha, e coisas do género.

9/ Só depois do fim deste drama nacional, esta classe política — toda ela, à esquerda e à direita — será julgada. Pelo menos, aqueles que estiverem vivos. E esse julgamento pode justificar a criação, em Portugal, de uma espécie de Mossad que trate da vidinha aos políticos entretanto abotoados e estrangeirados.

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