perspectivas

Quinta-feira, 27 Setembro 2012

A entropia do Desidério Murcho

«Para esclarecer o que está em causa é preciso pensar o seguinte: há um sentido em que nunca, na história da humanidade, deixou de haver professores. Pela simples razão de que todos temos de aprender tudo com os outros, e sozinhos, quando somos crianças. Professores informais, sempre os houve, e sempre os haverá, enquanto houver seres humanos como nós.

O que eu apresentei como ideia radical para ser discutida não é que os professores informais irão desaparecer: esses nunca poderão desaparecer. O que estava em causa não era sequer a ideia de desaparecerem os professores mais formais, mas antes o de desaparecer professores associados a um currículo rígido e largamente irrelevante para toda a gente, incluindo eles mesmos.

via De Rerum Natura: Já deu resultado!.

Ao Desidério Murcho só lhe falta defender a teoria do “bom selvagem” — de Rousseau — que até o revolucionário Voltaire ridicularizou.

1/ Na sua obra “Ordem e História” (volume II), Eric Voegelin demonstrou, por “a + b”, como foi possível que Heródoto não tivesse compreendido Homero. E de facto, Heródoto não compreendeu Homero, ou melhor, os valores (éticos, culturais, antropológicos, míticos, místicos, etc.) expressos na obra homérica não foram integralmente compreendidos por Heródoto. O conteúdo homérico passou-lhe, em grande parte, ao lado. Ora, entre Homero e Heródoto existe, grosso modo, um tempo de três séculos; bastaram cerca de três séculos para que as ideias de Homero fossem deturpadas e mal compreendidas. E quem, mais tarde, de facto percebeu Homero foi Platão.

O facto de Heródoto não ter compreendido Homero não significa que o conteúdo ideológico homérico não tivesse significação — como, aliás, mais tarde Platão demonstrou, embora assumindo uma posição negativa em relação a Homero. Não é pelo facto de, em determinado momento, nós não percebermos uma coisa (conceito, teoria, sistema, doutrina, dogma, etc.) que essa coisa deixa de existir, de fazer sentido em si mesma, ou de ter uma significação.

O exemplo de Heródoto em relação a Homero serve para mostrar como as ideias são sujeitas à entropia. A segunda lei da termodinâmica, ou segundo princípio da termodinâmica, expressa de uma forma concisa que “a quantidade de entropia [desorganização, ou desordem] de qualquer sistema isolado [fechado] tende a aumentar com o tempo e de uma forma espontânea, até alcançar um valor máximo”.

O que o Desidério Murcho reconhece, no seu texto, não tem nada a ver com “professores formais” ou com “professores informais”, mas antes tem a ver com a entropia do “sistema fechado” imposto pelo Iluminismo e reforçado pelo Positivismo, e de que o ensino entrópico contemporâneo é apenas um dos reflexos de desordem. O que custa ao Desidério Murcho reconhecer é que a sua mundividência é falsa e falha: e, vai daí, o Desidério Murcho recorre ao delírio interpretativo para poder continuar a iludir-se racionalmente.

2/ O Desidério Murcho confunde falaciosamente as qualidades inatas de uma criança, por um lado, com a não-necessidade “professores formais”, por outro lado.

A entropia que murcha

Existem vários tipos de inteligência [inata]: por exemplo, a inteligência linguística, que permite que crianças aprendam a falar línguas com extrema facilidade. Mas existem outros tipos de inteligência: por exemplo, a inteligência lógica matemática; ou a inteligência pessoal; ou a inteligência espacial; ou a inteligência musical que permitiu que Mozart compusesse a sua primeira sinfonia aos 4 anos de idade. E Desidério Murcho parte do princípio segundo o qual se uma criança não é genial, “problema dela!”: que se desenrasque! Que se desenfie! Que aprenda a cavar batatas, porque aprender a complexidade do mundo é só para os “génios” como o Desidério Murcho.

Ora, cabe ao ensino — ¡ aos professores “formais” ! — suprir, nas crianças, e dentro do possível, as eventuais deficiências em cada um dos diversos tipos de inteligência. Por isso é que existem professores de ginástica e de dança, para suprir deficiências de algumas crianças na área da inteligência espacial; e existem professores de música, para suprir eventuais deficiências de crianças com tendência para serem “duras de ouvido”; e professores de matemática, para suprir deficiências na inteligência lógica matemática; e por aí fora.

3/ Os instrumento electrónicos de leitura não substituem os livros em papel, e nomeadamente por razões psicológicas (manuseamento táctil, apreensão física e sentimento de posse).

4/ Albert Einstein era um aluno de 10 valores a matemática. Segundo o critério de Desidério Murcho, enquanto aluno, Einstein não teria a criatividade necessária para ser um génio que aprende por si mesmo e sem necessidade de um “professor formal” e, portanto, em vez de ter um “professor formal” de matemática, Einstein deveria ter ido aprender a cavar batatas.

5/ O conceito absurdo e falacioso de “professor formal” encerra em si uma visão da sociedade obsoleta e darwinista-social, e, por isso, uma visão de “selecção natural” aplicada ao ensino e sobretudo à educação. Ou seja, Desidério Murcho pega em Hayek e aplica os seus conceitos ético-subjectivistas-económicos, ao ensino e à educação.

Segundo Kant, “o Homem é a única criatura que deve ser educada”, dividindo a educação em duas áreas distintas mas complementares: a instrução (ensino) e a disciplina (aculturação). E dizia Kant que não sendo o Homem guiado pelo instinto, deve obter pela Cultura aquilo que lhe foi negado pela Natureza.

Ora, o que o Desidério Murcho vem dizer é que, por um lado, a educação de uma qualquer criança pode ser conseguida por ela própria sem um “professor formal”; e, por outro lado, Desidério Murcho vem dizer implicitamente que Kant é burro; e, em contraponto, ele próprio, Desidério Murcho, é genial (também tenho direito à falácia da autoridade).

6/ O Desidério Murcho parece um mau aluno de filosofia: pretende esconder, por detrás de um longo e gongórico discurso, a fragilidade lógica da sua posição.

A ler sobre esta mesma aberração: O darwinismo social do Desidério Murcho

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