perspectivas

Domingo, 23 Setembro 2012

Ó João Távora: não havia necessidade…!

Nas nossas mãos está no entanto a determinação na firme recusa em colarmos a Causa a facções, quer ideológicas, religiosas ou de costumes. Estou convencido que, para além dos danos que derivam dos costumeiros rótulos estereotipados que nos colam, os que nos fazem mais mossa são os que resultam da colagem de diferentes planos e motivações de intervenção. Sejam questões da chicana política, remoques históricos, convicções religiosas ou de costumes. Acontece que, neste caso, o resultado de menos com menos dá mesmo menos, e da amálgama desses planos sobra uma suicidária utopia e uma pretensa pureza ideológica que nos isolam e nos projectam para o exterior como excêntricos.

via Família Real Portuguesa: EM DEFESA DA NAÇÃO.

Ia lendo este texto do João Távora quando “atopei” com com este trecho. E pensei: não havia necessidade… porque é o próprio texto que se transforma em utopia própria, aquela utopia que o João Távora aponta e denuncia em outrem.

Se a monarquia do João Távora é aquela, a da Suécia, por exemplo, em que o rei aparece uma vez por ano — então, estou fora! Isso não é monarquia: antes, é uma “república em compromisso precário com a História”. E quando nós vemos o que se passa hoje em Inglaterra, em que o próprio partido conservador de David Cameron apoia um movimento político de dissolução da Câmara dos Lordes, verificamos que a própria Inglaterra se encaminha a passos largos para uma “república em compromisso precário com a História”. Ora, uma “república em compromisso precário com a História” não é uma monarquia; e para não ser uma monarquia, mais vale estarmos quietos.

A probabilidade de as monarquias nórdicas — as tais “libertárias”, como o João Távora defende — serem derrubadas a curto/médio prazo, é hoje muito alta. Tudo depende apenas da vontade política do status quo partidário de cortar aquele pequeno nó que ainda as mantêm como “compromissos precários com a História”. Por isso, devemos olhar para os outros para ver o mau exemplo, mas não nos devemos preocupar em transportar esses maus exemplos para dentro de nossa casa.

Devemos seguir o exemplo do Liechtenstein, e não da Suécia, por exemplo.

Mas ao João Távora parece agradar mais o modelo sueco do que o do Grão-ducado. Ainda há pouco tempo, o grão-duque do Liechtenstein assumiu uma posição pública muito firme em relação ao aborto: houve um referendo sobre o aborto e o povo apoiou o monarca e a sua posição (o aborto foi rejeitado!) — porque o Grão-duque é, de facto, um monarca, enquanto o da Suécia se transforma, cada vez mais, em uma espécie de palhaço. Uma “república em compromisso precário com a História” é uma real palhaçada.

O exemplo que eu dei da posição do Grão-duque do Liechtenstein em relação ao aborto — que ele próprio tornou pública e ameaçando sair do Poder se o referendo legalizasse o aborto —, é uma posição que tem na sua base um fundamento religioso, quer o Távora tussa, ou não! Não é possível ser contra o aborto sem um fundamento metafísico sólido que sustente essa posição. E, por isso, o João Távora não faz a mínima ideia do que defende — a utopia é dele!

O Grão-duque do Liechtenstein percebeu uma coisa muito simples — que o Távora ignora: uma monarquia sem valores fundamentais que sejam transversais a toda a sociedade é uma “república em compromisso precário com a História”, que pode ser a qualquer momento tomada de assalto pela populaça amotinada e desprovida de valores.

Portanto, um monarca tem a obrigação de defender a presença pública de todas as religiões universais na nossa sociedade, e de não de omitir (envergonhado) a sua própria religiosidade católica em público — como está implícito no texto do Távora. E se o povo português, na sua globalidade, não entender uma coisa tão simples quanto esta, então não está preparado para ter um monarca.

Adenda: num momento em que se prepara a eleição de um presidente da União Europeia, o presidente da república portuguesa torna-se numa figura obsoleta. E essa é mais uma razão para termos um monarca que marque a diferença entre aquilo que é nacional, por um lado, e por outro lado, aquilo que é parte do leviatão europeu; mas essa diferença traduz a nossa História, e não o presentismo que impõe a ausência do sagrado no tempo e no espaço.

O que o João Távora propõe revela duas coisas: ignorância acerca do que é uma cultura e uma civilização (não pode haver cultura nem uma civilização sem religião), e muita confusão acerca do que é ou deve ser uma monarquia.

[ ficheiro PDF do texto citado ]

Adenda II:

1/ Referi-me ao príncipe Hans-Adam II do Liechtenstein (ou príncipe Alois) como “grão-duque”, mas não se trata de um incorrecção. Acontece que o príncipe do Liechtenstein é também duque de Troppau — assim como o príncipe e SAR de Portugal, D. Duarte Nuno, é também duque de Bragança. Por outro lado, ainda até há relativamente pouco tempo, o principado do Liechtenstein era denominado “Grão-ducado de Liechtenstein”.

2/ O principado do Liechtenstein não faz parte da União Europeia, mas assinou o Tratado de Schengen (o mesmo acontece com a Suíça). A moeda do Liechtenstein é o franco suíço — ¡ não é o Euro !

About these ads

1 Comentário »

  1. só algo a dizer: Vida longa a Hans-Adam II, reserva moral da Europa.

    Comentário por Marcelo R. Rodrigues — Segunda-feira, 24 Setembro 2012 @ 4:14 pm | Responder


RSS feed para os comentários a este artigo. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Please log in using one of these methods to post your comment:

WordPress.com Logo

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Log Out / Modificar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Log Out / Modificar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Log Out / Modificar )

Connecting to %s

Theme: Rubric. Get a free blog at WordPress.com

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 520 outros seguidores